O capitalismo segundo Obama

Com o fim da festa da eleição, o plano econômico do novo presidente depende do acerto do ponto de equilíbrio em uma série de escolhas difíceis

Durante a campanha presidencial, o democrata Barack Obama prometeu aquilo que a maioria dos eleitores americanos queria ouvir, conforme ficou claro com o resultado das urnas, em 4 de novembro. A um país desgastado por duas guerras e por uma crise sem precedentes na história recente, Obama propôs aumento de impostos para os mais ricos, maior intervenção estatal num sistema financeiro que foi o estopim das turbulências e subsídios para estimular empregos em setores em dificuldades. Os republicanos reagiram, classificando Barack Obama de socialista. Mas é melhor não se enganar: na terra do capitalismo, da democracia e da livre iniciativa, Obama é tão socialista quanto a maioria de seus principais conselheiros, entre os quais está Warren Buffett, o homem que acumulou a maior fortuna do mundo ao decifrar os mecanismos do mercado de capitais. E será dentro das regras do jogo capitalista que Obama terá de lidar com a pior crise econômica das últimas décadas — talvez a pior desde 1929. “Chegou à Casa Branca o político que apresentou, na opinião do eleitorado, as melhores propostas para conter a desaceleração econômica”, afirma John Mark Hansen, professor de ciência política da Universidade de Chicago. “E essa abordagem é muito distinta da que vem sendo feita pelo atual governo.”

Um dos pilares do catecismo da Obamanomics — trocadilho criado pela imprensa americana para definir o capitalismo na visão do presidente eleito — é a recuperação do poder do Estado como provedor de serviços, estimulador da economia e regulador do mercado financeiro. “Não chegamos à crise econômica atual por algum acidente na história”, afirmou Obama num dos discursos mais importantes de sua campanha. “Ela foi um desfecho lógico de uma filosofia cansada e mal orientada que tem dominado Washington por muito tempo.” Fica claro nas palavras de Obama que, para enfrentar os tempos bicudos, é necessário rever a política do laissez-faire praticada por George W. Bush e pelos republicanos. Essas bandeiras históricas do Partido Democrata nunca pareceram tão pertinentes para os americanos quanto agora. E ganharam um apelo extra ao ser embaladas por um líder político singular, com um perfil multiétnico e racial aliado a doses raras de inteligência, habilidade oratória e carisma.

O cacife de uma vitória superlativa nas urnas e o poder político da maioria ampliada conquistada pelo Partido Democrata no Poder Legislativo são armas importantes para Obama usar a partir de 20 de janeiro de 2009, quando terá a missão de colocar em prática as suas promessas e encarar a enorme expectativa criada dentro e fora dos Estados Unidos a partir de sua ascensão. Para muitos analistas, será a hora de Obama fazer ajustes nos planos e abandonar o discurso com alguns tons de esquerda para promover um governo de centro — guardadas as devidas proporções, algo semelhante ao que aconteceu no Brasil após a eleição de Lula em 2002. Na política americana, quem cunhou a frase definitiva sobre o que os analistas chamam de “cair na real” ao chegar ao poder foi o ex-presidente Bill Clinton. Segundo ele, “a campanha é poesia e o governo é prosa”. Obama vai começar a escrever sua história na Casa Branca levando sobre os ombros uma responsabilidade enorme. Somente os desafios deixados pela crise financeira já vão exigir um esforço hercúleo. “O simples anúncio de um novo presidente não irá reverter esse quadro”, afirmou a EXAME o economista Joseph Stiglitz, um dos principais conselheiros de Obama. Em seu discurso da vitória, o novo presidente foi igualmente realista: “O caminho será longo. Nossa subida será íngreme. Nós talvez não cheguemos lá em um ano ou mesmo em um mandato”.


O cardápio de aflições inclui crise imobiliária, escassez de crédito, indústrias combalidas, redução do consumo, altos déficits do governo federal e dos estados e municípios, para não falar de um sistema de saúde falido, de uma infra-estrutura claudicante, da dependência energética e da ameaça do aquecimento global. Na economia real, um dos efeitos mais devastadores da crise é o desemprego. Entre janeiro e outubro, cerca de 1,2 milhão de americanos perderam o trabalho, elevando a soma de desempregados para 10 milhões de pessoas, o equivalente a mais de 6,5% da população economicamente ativa, a taxa mais alta desde 1994. Estima-se que a economia americana evolua parco 1,6% neste ano. Para 2009, o cenário é ainda pior, com retração de -0,7%.

O clima de incerteza teve impacto direto no consumo, a grande mola propulsora da economia dos Estados Unidos. Em outubro, o índice de confiança do consumidor caiu a seu menor nível em 41 anos, segundo o instituto de pesquisas The Conference Board. Os sinais dessa depressão estão espalhados por todos os lados — dos cassinos e hotéis em Las Vegas, que andam vazios nos últimos tempos, às lojas de bens de consumo. “O crescimento econômico sustentou nossa auto-estima. Agora, com a desaceleração, podemos ter uma América mais ranzinza e desconfiada”, registrou num artigo recente o colunista Robert J. Samuelson, da revista Newsweek.  Obama sabe que uma América “mais ranzinza e desconfiada” significa uma América menos empreendedora, e seus discursos são uma espécie de chamado ao espírito combativo dos americanos. Mais cedo ou mais tarde, a recessão irá passar. E, caso dê sorte de que isso aconteça durante seu mandato, Obama enfrentará desafios de mais longo prazo — o envelhecimento da população entre eles. As contas do governo estão cada vez mais pressionadas pela previdência pública, que passa a abrigar a geração dos baby boomers, americanos nascidos no pós-guerra. Existem hoje cerca de 50 milhões de pensionistas nos Estados Unidos, cuja remuneração garantida pela previdência chegará até o final de 2008 a 618 bilhões de dólares, cerca de 5% do PIB do país. Em 2034, os Estados Unidos terão o dobro de idosos, o que deve afetar o equilíbrio do sistema. Ele só funciona bem quando o contingente de trabalhadores supera em larga margem o número de pensionistas. Atualmente, a relação de ativos para inativos é de 3,3 para 1 (uma conta já apertada). Em 2034, ela deve evoluir para 2,1. “O presidente terá de conciliar as necessidades do presente com as do futuro”, diz Samuelson.

Para enfrentar a crise, o jovem Obama — um senador de 47 anos em primeiro mandato e sem experiência administrativa — tem recorrido a um time de gente grande. Entre seus conselheiros despontam dois ex-secretários do Tesouro do governo Bill Clinton — Robert Rubin e Lawrence Summers —, o investidor Warren Buffett, o presidente do Google, Eric Schmidt, o ex-presidente do Federal Reserve Paul Volcker e o economista Joseph Stiglitz, que também fez parte do primeiro escalão da Casa Branca no governo Clinton. A influência da equipe de Clinton é tamanha que Obama tem feito o possível para não parecer que seu governo venha a ser encarado como um terceiro mandato do ex-presidente. Tal cuidado atrasou a escolha do novo secretário do Tesouro americano, o cargo mais importante do ministério em tempos de crise. Até o fechamento desta edição, o processo ainda não havia sido encerrado e os nomes mais cotados para assumir o cargo eram os de Summers e do atual presidente do Fed regional de Nova York, Timothy Geithner, um quadro ligado aos democratas, mas que tem atuado como braço direito do atual secretário do Tesouro, Henry Paulson, no esforço de resgatar Wall Street.


Em termos de medidas emergenciais para debelar a crise, a prioridade número 1 do novo governo é aprovar “o mais cedo possível”, nas palavras do próprio Obama, um pacote de estímulo econômico da ordem de 100 bilhões de dólares. O plano teria três objetivos: criar empregos por meio de programas públicos voltados para a recuperação da infra-estrutura, ampliar a duração e os benefícios do seguro-desemprego e ajudar estados e municípios com graves problemas de caixa para pagar funcionários públicos e manter serviços essenciais. Tal pacote se inspira no célebre New Deal, o bem-sucedido programa de recuperação econômica implementado pelo governo de Franklin Roosevelt nos anos 30. A melhoria da infra-estrutura é uma demanda real para o próximo governo, e não apenas uma forma de gerar negócios e empregos. Segundo a revista Time, 150 000 pontes dos Estados Unidos têm problemas estruturais, 3 500 represas apresentam riscos de rompimento e até mesmo o sistema de saneamento necessita ser aprimorado.

Se tudo correr como Obama espera, esse primeiro pacote será aprovado nas próximas semanas, abrindo caminho para que, assim que assumir o cargo, ele possa cumprir sua mais vistosa e controversa promessa de campanha — conceder cortes de impostos a famílias que ganham até 250 000 dólares por ano e que representam 95% da população americana —, idéia que conta com a desconfiança dos setores mais conservadores da população e dos republicanos. Uma vez no poder, ele planeja aumentar o imposto de renda dos ricos, além de subir as alíquotas — de 15% para 20% — dos tributos sobre os ganhos de curto prazo nos mercados de ações. “A proposta do novo governo é sensata, porque não se trata de uma simples redistribuição de renda, mas de fazer com que a riqueza americana decole”, diz o analista Anthony Crescenzi, estrategista-chefe da corretora Miller, Tabak & Company e comentarista do canal de TV de notícias financeiras CNBC. “Já que 65% dos americanos possuem imóveis, faz sentido dar-lhes um alívio fiscal, que vai ajudar a estancar a desvalorização dos imóveis e beneficiar até mesmo a bolsa de valores.”

Somadas ao pacote de 700 bilhões de dólares de socorro aos bancos patrocinado por Bush, as novas medidas de estímulo econômico deverão inchar ainda mais o déficit orçamentário do governo, que, segundo projeções, deverá bater em 1 trilhão de dólares em 2009. Essa questão suscita no momento um debate no Partido Democrata. Uma das alas defende que o novo presidente terá de dizer aos eleitores que algumas das promessas de campanha serão adiadas, sob o risco de agravar a situação fiscal. Outra ala prega o contrário, ou seja, que o crime mais grave que poderia ser cometido no momento seria jogar um balde de água fria no ânimo dos americanos. Como observou o economista Paul Krugman em sua coluna no jornal The New York Times, “os manuais de economia ensinam que é apropriado incorrer em déficits temporários em face de uma economia deprimida”. Na imprensa americana, diante da conjuntura, os novos pacotes são vistos como um remédio indispensável.


Junto aos programas de emergência, é certo que o governo de Obama colocará de volta o garrote do Estado ao redor de setores importantes da economia, com destaque para o mercado financeiro. O democrata vai se empenhar em reescrever as regras que comandam os pregões, focando-se nos vilões da crise atual: hedge funds, corretores imobiliários, corretores de derivativos e agências de classificação de risco. “Precisamos de um novo sistema regulatório, que aprimore questões relativas à transparência e à divulgação de dados”, diz Stiglitz. O novo governo também deverá criar comissões que reforcem a estabilidade do sistema financeiro, como uma agência federal para vigiar riscos sistêmicos à economia. A equipe a cargo da reforma regulatória deverá ser dirigida por Paul Volcker, o octogenário ex-presidente do Fed. Não será uma intervenção simples. Ainda que a maioria concorde que é preciso fazer algo para colocar Wall Street nas rédeas, uma dose exagerada do remédio pode matar justamente algumas das qualidades que fizeram do capitalismo americano um modelo mundial, como os incentivos à inovação e ao risco.

O mesmo tipo de equilíbrio difícil Obama terá de encontrar para lidar com questões como o atual pedido de socorro da indústria automobilística americana, responsável pela geração de 3 milhões de empregos diretos e indiretos. Pressionado pelas montadoras GM e Ford, que se encontram às portas da falência, o novo presidente já se declarou favorável a um pacote emergencial de 25 bilhões de dólares para o setor. Mas ele tem dito que o socorro às montadoras não deve servir apenas para garantir sua recuperação financeira, e que, em contrapartida, elas deverão investir em novas tecnologias, como a de carros flex fuel e de baixo consumo de gasolina. Ambicioso, seu plano para estimular o desenvolvimento de novas fontes de energia — como solar, eólica e uma nova geração de biocombustíveis — prevê investimentos de 15 bilhões de dólares por ano. Parte da fatura deverá ser paga pelas companhias petrolíferas, beneficiadas com incentivos fiscais por Bush, mas que certamente terão uma vida mais dura com um democrata na Casa Branca.

No front energético, ainda que mais progressista do que Bush, o governo Obama não deverá enfrentar o lobby dos plantadores de milho, que hoje impõe uma tarifa de 0,54 centavo de dólar por galão de etanol brasileiro importado pelos Estados Unidos. O novo presidente já disse que defende nos Estados Unidos uma cópia do modelo de etanol do Brasil, que para implantar a política do álcool há mais de 20 anos usou de grandes subsídios governamentais. E afirma que só pretende acabar com a sobretaxa ao etanol brasileiro depois que a produção americana estiver bem estabelecida. “Por ter sido eleito com o apoio do lobby agrícola, Obama será cuidadoso ao tratar da questão do etanol de milho”, diz a cientista política Shannon O’Neill, especialista em América Latina do Centro de Relações Internacionais de Nova York. “Mas creio que ele tentará se aproximar do Brasil no desenvolvimento de uma nova geração de combustíveis e que a questão do etanol de milho acabe ficando para segundo plano.”


No campo das relações internacionais, um dos pontos mais importantes é o rumo que o novo governo americano dará aos acordos de livre comércio. Durante a campanha, Obama posicionou-se contra as propostas pendentes nessa linha para estendê-los a países como a Colômbia e sugeriu a renegociação do Nafta, assinado nos tempos do governo Clinton e que reúne americanos, mexicanos e canadenses. Segundo Obama, do jeito que está, o Nafta ameaça a competitividade dos Estados Unidos e os empregos dos americanos. “Existe hoje nos Estados Unidos um temor de que a globalização e o livre comércio prejudiquem os americanos, roubando seus empregos e ganhos”, diz Paulo Sotero, pesquisador do Woodrow Wilson Center, em Washington. “A população está permeável ao populismo econômico.”

Para grande parte dos americanos de baixa renda e escolaridade, a ascensão industrial da China é vista como a principal causa da debacle econômica dos Estados Unidos. “O governo Obama deve mandar uma mensagem forte aos chineses, dizendo que os Estados Unidos não estão dispostos a tolerar a manipulação de sua moeda e a violação dos direitos dos trabalhadores”, disse Thea Lee, economista-chefe da central sindical AFL-CIO, ao The New York Times. Mas, diante do desaquecimento da economia chinesa, dificilmente o governo de Pequim se demonstrará receptivo a pressões americanas. Além disso, os Estados Unidos necessitam que a China continue a comprar os títulos do Tesouro americano, uma ajuda crucial para a rolagem de sua dívida pública, que hoje já bateu a marca dos 6 trilhões de dólares. Possivelmente, o pragmatismo deverá prevalecer também nas relações comerciais entre Washington e Pequim. Aliás, como dizia o ex-líder chinês Den Xiaoping sobre o sistema econômico ideal, “não importa se o gato é branco ou preto, desde que consiga pegar o rato, ele é um bom gato”. Ao que tudo indica, a doutrina capitalista de Obama, um trabalho em andamento, já incorporou esse aprendizado.