O Brasil não tem palavra

Façamos uma autocrítica como brasileiros: no fundo, achamos perfeitamente normal que as promessas sejam descumpridas. O resultado está à vista de todos

São Paulo – A confiança é como o tempo: só pode ser gasta a um preço elevadíssimo. O Brasil de hoje é uma nação que busca, desesperadamente, resgatar a credibilidade perdida ao longo dos últimos anos — a conta já chegou e não será paga apenas por aqueles que tomam as decisões encastelados nos palácios de governo.

Façamos uma autocrítica como brasileiros: no fundo, no fundo, achamos perfeitamente normal que as promessas sejam descumpridas. Não damos o devido valor à palavra. A nobreza que o fio de bigode carregava é uma imagem do passado. Tornou-se algo anacrônico, motivo de chacota.

Quase ninguém cumpre o que promete. Quase ninguém, aqui dentro, cobra que o contrato seja honrado. O resultado está aí, para quem quiser enxergar. A culpa também é nossa.

O grande problema do Brasil de nossos tempos não é a inflação indócil, ou a situação precária da Petrobras, maior companhia nacional, ou a falta de investimentos em in­fraes­trutura, ou o ceticismo e a apatia do capital, ou a raiva incubada de boa parte da população, ou a ameaça (real) de racionamento de energia no país inteiro e de água em São Paulo, ou ainda o atraso e a gastança nas obras da Copa.

Tudo isso é consequência de um país, de governos e de uma sociedade que desperdiçaram sua credibilidade como quem joga pérolas aos porcos.

Em qualquer país onde a palavra tenha o valor que merece, uma declaração como a da ex-ministra da Casa Civil e atual senadora Gleisi Hoffmann não passaria quase despercebida. Para a senadora, a finalidade da Petrobras é melhorar a vida do brasileiro. Não dar lucro. A declaração é um absurdo de nascença. Mas vamos ignorar isso.

Como explicar a frase da senadora Gleisi aos 288 000 acionistas, que acreditaram que a Petrobras se transformaria numa das maiores petrolíferas do mundo? Se o governo, de fato, pensa como a senadora Gleisi, teria sido melhor avisar aos mais de 73 000 trabalhadores que vincularam parte de seu fundo de garantia ao futuro da companhia. Para os iludidos, a vida não tem sido um mar de rosas.

Como acontece desde que o mundo é mundo, o atual período eleitoral será um festival de promessas e de cheques em branco, que serão descontados dos ganhadores lá na frente.

As pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República mostram, até agora, que o eleitor anda num mau humor generalizado: a popularidade da presidente Dilma Rousseff e a aprovação de seu governo caem semana após semana. Os dois principais candidatos da oposição, o senador Aécio Neves e o ex-governador pernambucano Eduardo Campos, ainda não conquistaram os insatisfeitos.

A classe média tradicional, os empresários e os investidores voltam sua desconfiança para um lado. Os pobres e os emergentes para outro. O gigantesco desafio dos candidatos será quebrar o cerco de ceticismo de ambos os lados.

Ganhar um deles pode até levar a uma vitória nas urnas. Mas não garantirá a confiança absolutamente necessária para que o próximo governo elimine as fragilidades da economia — um movimento dolorido —, reforce as instituições e traga a sociedade para seu lado, com a esperança de que amanhã o país estará, de verdade, melhor do que hoje.

O brasileiro está em busca de alguém que lhe diga, de verdade, o que pensa e como pretende liderar o país num momento tão delicado. Se vamos escolher uma plataforma liberal ou estatizante, uma visão de esquerda ou de direita, é outra história.

Seja qual for o resultado, o país viverá as consequências de suas escolhas — para o bem e para o mal. Mas é importante que a decisão seja tomada em cima de discursos verdadeiros, de convicções, e não de balelas que inexoravelmente se transformarão em mais mentiras, que só enganam os trouxas.