100 dias de Bolsonaro | O bom, o ruim e o feio

Os últimos três meses foram uma intriga de faroeste. Mas Bolsonaro recebeu uma boa herança na economia e ainda há tempo de dar os sinais certos

O governo acaba de completar os primeiros 100 dias. É o período em que a vida do presidente deveria ser mais fácil. Sem poder julgar o recém-eleito por projetos e medidas concretas, o eleitorado toma por base as belas promessas de campanha. A ausência de desilusões é uma aliada valiosíssima do calouro, especialmente o que precisa emplacar reformas impopulares num país em crise, como, infelizmente, é o caso. A esperança de uma lua de mel idílica durou pouco.

A sujeira suspensa durante a campanha ainda turva o horizonte, porque o governo insistiu até agora em deixar o ventilador ligado — e que ventilador! Em condições normais, já seria complicado avaliar um governo ambicioso em tão pouco tempo, que dirá no meio de uma confusão de contornos inéditos.

Bolsonaro conseguirá endireitar a economia, renovar a forma de fazer política, combater a corrupção e libertar o país da conspiração que, para seus mentores, é a causa de todos os males, sem enfraquecer a democracia?

Há fanáticos otimistas profetizando o início de uma era de prosperidade impelida pelo liberalismo econômico, pela restauração dos bons costumes e pela erradicação da bandidagem. Há também maníacos pessimistas lamentando o retrocesso autoritário e excludente que fatalmente aprofundará as injustiças e as desigualdades de nossa sociedade. Esses espantalhos são facilmente rejeitados. O diabo é fazer um julgamento equilibrado no meio da bagunça.

Começando pelo bom, o capitão debutou com uma herança bendita deixada pelo antecessor. Só por isso seu governo leva um 5. A política econômica convencional de Temer teria gerado mais crescimento se a queda inicial da incerteza tivesse continuado na segunda metade de 2017.

Quando o escândalo das gravações solapou a legitimidade de Temer, jogando a crise em seu colo, a eleição foi para os extremos, facilitando o discurso revolucionário do “mito”. Ao receber de presente uma economia estabilizada e pronta para crescer, o novato largou com margem de manobra, podendo se dar ao luxo de cometer uns deslizes até pegar o cacoete.

Além disso, é relativamente simples fazer a economia crescer no curto prazo, pois a crise produzida durante a gestão de Dilma abriu uma ociosidade cavalar, com milhões de desempregados. O pulo do gato é dar previsibilidade aos empreendedores. Eles esperam sentir um pouco de firmeza para ligar novamente as máquinas e gerar empregos. Para tanto é preciso continuar trilhando o caminho reaberto por Temer. A boa notícia é que essa é uma das prioridades do governo. A ideia é reformar a Previdência eliminando privilégios, dar leveza ao ambiente de negócios reduzindo o custo Brasil, abrir a economia buscando parcerias que façam sentido e explorar as inúmeras oportunidades existentes na área de infraestrutura. Não precisa mais.

A intenção de mudar a relação com o Congresso pondo um fim ao sinistro “toma lá dá cá” pode e deve também ser vista com bons olhos. Quem não sente o odor acrimonioso que ainda emana do pântano em que Brasília se transformou? O presidente acerta ao querer entender os limites da tal “articulação” que se faz necessária para avançar as reformas — vai saber o que ele não viu durante os 30 anos nos porões do baixo clero? No mesmo diapasão, é admirável a coragem de se amarrar a Sergio Moro, colocando-o na pasta da Justiça. A cabeça do juiz — bem como a de Paulo Guedes — provavelmente só rolará junto com a do governo. Haveria, então, um símbolo mais forte para enfatizar a prioridade do combate à roubalheira generalizada que tem condenado o país ao subdesenvolvimento?

Aí vem o lado ruim. Bolsonaro idolatra e tem procurado seguir os passos do colega americano. É fácil para o aprendiz copiar o estilo do magnata alaranjado, mas, ao contrário dele, Bolsonaro não tem sido bem-sucedido em despertar a confiança das pessoas e dos investidores. Há, sim, uma grande torcida, mas a palavra de ordem é esperar para ver que bicho dá. Trump choca, vocifera, insulta, mente e chuta todos os baldes que encontra, mas vem entregando um desempenho econômico marcado por crescimento sem inflação — só Deus sabe até quando, mas aí são outros quinhentos. A economia brasileira, por sua vez, parece uma tartaruga e o motivo é a incerteza crescente em relação à capacidade de o governo entregar o que prometeu. Não custa lembrar que a maioria dos eleitores do capitão quer ver resultados e não está nem aí para a conversa mole apregoada pelo supremo mentor e seus devotos.

À medida que o tempo vai passando e a economia anda como caranguejo, a popularidade do presidente cai, erodindo seu capital político. Nesse ritmo, a maioria começa a recear que os disparos implacáveis — e justificados — contra a “velha política” podem estar abatendo também os outros tipos de política, incluindo a boa. A democracia não avança sem diálogos e negociações transparentes para buscar consensos e dar satisfação a todos. Ao contrário, além de se fechar no círculo íntimo e espalhar parvoíces para os convertidos, o governo tem dado tiros no pé, como a desnecessária bofetada no agronegócio, setor que ajudou a eleger o presidente.

Do ruim chegamos ao feio. É difícil entender a opção por agir como se a melhor forma de debelar a estupidez fosse inventar idiotices maiores no sentido contrário. Será que Bolsonaro realmente acredita em tudo que tem sido pregado em seu nome? Qual é a diferença essencial entre o palerma que pretende saber mais de nazismo do que o próprio Hitler e o otário que acredita piamente na existência de um complô das elites contra o povo? As áreas de educação e de relações exteriores são muito importantes e mereciam ser tocadas por profissionais, como os outros ministérios. Ainda dá tempo de, talvez, criar a “secretaria do revisionismo histórico” e fazer os remanejamentos necessários.

Como no clássico estrelado por Clint Eastwood, a intriga do faroeste espaguete desses três meses deve ser avaliada a partir de um prisma nuançado, que reconheça o bom sem deixar de apontar o ruim e o feio. Enquanto o enredo não degenerar para “meu ódio será sua herança” haverá sentido em trincar os dentes e continuar torcendo pelo bem do país — até porque o potencial é gigantesco.

Após o tiroteio da sessão da Comissão de Constituição e Justiça parece ter ficado claro que o governo não chegará a lugar nenhum contando apenas com um cavaleiro solitário e sua bala de prata previdenciária. Onde os fracos não têm vez, os brutos também podem amar — mesmo que para isso seja preciso distribuir um punhado de dólares.


Celso Toledo, doutor em economia pela USP, é diretor da LCA Consultores