Para o presidente do BNDES, o banco ficou mais leve

Dyogo Oliveira, presidente do BNDES, diz que o banco pode dobrar de tamanho sem depender de aportes do Tesouro Nacional

banco nacional de desenvolvimento econômico e social encolheu para menos de um quarto do que era há quatro anos, como reflexo da crise e do rumo ditado pelo governo Temer: os desembolsos do banco hoje representam 1% do produto interno bruto. Mas alguns candidatos à Presidência da República têm propostas para aumentar essa fatia. O presidente do BNDES, Dyogo Oliveira, de 43 anos, concorda que dá para crescer, mas não tanto. “O banco tem condições de, em três anos, voltar ao patamar histórico de 2% do PIB. Acima disso, demandaria recursos do Tesouro Nacional, uma condição que não existe hoje.”

Numa reestruturação em curso, Oliveira planeja vender 10 bilhões de reais de participação em empresas até o fim do ano, cortou 60 cargos e quer aumentar o número de funcionários nas áreas-fins para ganhar eficiência no ambiente de juro baixo. Funcionário de carreira do Ministério do Planejamento, no qual chegou a ser o titular, Oliveira assumiu o comando do banco em abril. A seguir, a entrevista concedida por ele na sede do BNDES, no Rio de Janeiro.

Há propostas de candidatos à Presidência prevendo a ampliação do BNDES. Qual é o tamanho ideal? 

Os empréstimos do banco caíram perto de 4,5% do PIB há quatro anos, para 1% neste ano. Há condições de captar recursos no mercado interno e externo e capacidade operacional para, em três anos, voltar ao patamar histórico de 2% do PIB. Mas voltar aos níveis antigos não é viá-vel. Isso demandaria uma suplementação de recursos por parte do Tesouro Nacional, uma condição que não existe hoje.

Outra proposta é acabar com a taxa de longo prazo (TLP) aplicada pelo banco, que consideram muito alta…

Uma empresa com um bom projeto e uma boa avaliação de risco consegue uma taxa de juro de 10% ao ano, competitiva para projetos de 30 anos. Não acho que esse seja um problema que atrapalhe os projetos. Quanto menor o juro, melhor. Mas, para os padrões históricos e a situação em que estamos, são taxas muito atraentes.

Obra de metrô em Caracas: o BNDES levou calotes em projetos no exterior | Marco Bello/REUTERS

A expansão do banco foi baseada em recursos federais. O BNDES negocia a devolução, mas como garantir o acordo diante da troca de governo?

O BNDES deve 250 bilhões de reais ao Tesouro Nacional. Propusemos diminuir o prazo de pagamento, que era até 2060, para 2040. Pedimos anuência do Tribunal de Contas da União porque há uma auditoria em curso sobre os aportes feitos pelo Tesouro no passado. Nossa previsão é firmar o acordo até o final do ano. Com isso, esperamos encerrar esse capítulo da dependência de subsídios do Tesouro.

O BNDES acumulou participações bilionárias em empresas. O que será feito com essa carteira?

Nossa meta é fechar o ano com a venda de 10 bilhões de reais em ativos — até julho, foram 6 bilhões. Estamos vendendo as participações em empresas maiores, com base na análise de preço da ação e na maturidade da companhia. Vamos alocar esses recursos em empresas com maior potencial de crescimento e em áreas que  contribuirão para desenvolver o país.

Em relação à participação em empresas, a Polícia Federal, na Operação Bullish, investiga irregularidades. Como o tema está sendo tratado? 

Temos colaborado com a Operação Bullish. Houve apurações internas e externas. Agora, contratamos uma auditoria internacional. Até o momento não há indício de desvio ético de nenhum funcionário do banco. Raros são os órgãos e as instituições que não têm nenhum tipo de problema dessa natureza.

No empréstimo à exportação de bens e serviços, o banco levou calotes da Venezuela e de Moçambique. Como evitar novos episódios desse tipo?

Todos os países apoiam as exportações. Na Coreia, 48% delas são financiadas, na China são 19% e no Brasil, só 3%. A carteira do banco nessa categoria é de 10,5 bilhões de dólares, com inadimplência de 300 milhões de dólares. É natural que os países, às vezes, passem por problemas. A Venezuela é um exportador de petróleo e tem a perspectiva de que em algum momento encontrará soluções para sua situa-ção e voltará a nos pagar. Temos de selecionar com inteligência os clientes e trazer transparência para as operações. Quanto mais profunda e técnica for a análise, menos suscetível a esse tipo de episódio estaremos.

O BNDES está em reestruturação. Quais medidas estão sendo tomadas? 

O banco está se adaptando à economia de juro baixo. Precisamos ser eficientes, porque o BNDES continuará sendo o principal financiador, mas não será o único. Ele estará concentrado naquilo que o mercado não puder financiar. Para isso, temos a meta de digitalizar o banco, eliminar os papéis e reduzir para 180 dias o limite para análise de metade das operações. Hoje, há casos em que levamos 600 dias, quando o produto já está no mercado.

Como isso deve mexer com o quadro de pessoal?

Eliminamos duas diretorias e 60 cargos. Realocamos pessoas da área-meio, que devem passar de 70% para 60% do quadro de pessoal, para as áreas-fins. O banco não tinha uma visão para cliente. Nem sequer usava essa palavra. Era beneficiário.

Qual deve ser o foco do banco?

As pequenas e médias empresas, que são quase 50% dos empréstimos, e a infraestrutura, com 40%. Recentemente, aprovamos a participação em fundos de infraestrutura para pequenas e médias empresas. Toda a carteira de fundos gera um retorno anual de 18% para o banco. Faz parte do mandato do BNDES ajudar o mercado de capitais.

O BNDES deve ter a função de estimular o crescimento econômico?

No pós-crise de 2008, a economia contraiu muito e fez sentido uma atuação para retomar o investimento. Não pareceu adequado o alongamento desse processo. O BNDES deve ser usado para melhorar a produtividade, o fator que traz crescimento de longo prazo.