“O Badin gosta de litígio”, segundo Fernando Furlan

O novo presidente do Cade não poupa munição contra seu antecessor e sonha com a criação de um superórgão voltado para a questão da concorrência

Fernando de Magalhães Furlan, presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), é o novo xerife da concorrência no Brasil. Ele foi por quase dois anos conselheiro e, depois, presidente interino por um ano e meio, até ser efetivado para um mandato curto, que acaba no começo de 2012.

1) EXAME – De que forma sua gestão será diferente da de seu antecessor, Arthur Badin?

Fernando Furlan – Quando o Badin tomou posse, eu disse para esquecer que tínhamos concorrido à presidência do Cade. Mas ele não conseguiu. O Badin é um cara que gosta de litígio. Para o cargo de presidente de um colegiado, como o Cade, é importante que a pessoa seja agregadora e saiba trabalhar em equipe. Essas características não eram as do Badin. Tanto é que a saída dele do Cade foi causada por esse estilo desagregador. Outra coisa que pesou foi que ele deu entrevistas polêmicas. Algumas coisas que ele falou em público não agradaram a seus superiores.

2) EXAME – Quais serão os principais desafios de sua gestão?

Fernando Furlan – A reformulação da estrutura do Cade e os julgamentos de alguns casos que estão há muito tempo sendo analisados, como a fusão entre a Sadia e a Perdigão. Já joguei água- benta na minha sala para começar o mandato bem.

3) EXAME – Por que o caso da fusão da Sadia e da Perdigão, que deu origem à Brasil Foods, está há quase dois anos em análise?

Fernando Furlan – Não participo das discussões por ser parente de um dos envolvidos (ele é primo de Luiz Fernando Furlan, copresidente do conselho de administração da BR Foods). Mas Carlos Ragazzo, o conselheiro responsável, diz que as empresas têm apresentado muitos estudos. Os próprios interessados contribuem para a demora. Se a Sadia e a Perdigão pararem com os estudos, até metade do ano sai o parecer do Cade.


4) EXAME – E o julgamento da fusão JBS-Friboi e Bertin?

Fernando Furlan – É um caso complexo. Demanda análises mais profundas. Tanto é que ainda está na Secretaria de Acompanhamento Econômico, do Ministério da Fazenda. Acredito que deva chegar ao Cade nos próximos meses. Se isso acontecer, poderá ser julgado ainda neste ano. Esse também é o caso da fusão entre Pão de Açúcar e Casas Bahia.

5) EXAME – Como o Cade está acompanhando as negociações entre a Rede Globo e o Clube dos 13?

Fernando Furlan – Vamos avaliar se o acordo firmado entre a Globo, o Clube dos 13 e o Cade em 2010 está sendo cumprido. Ou seja, sem cláusula de exclusividade que prejudique a concorrência.

6) EXAME – A estrutura atual do Cade é adequada para julgar os processos que chegam ao órgão?

Fernando Furlan – Para darmos conta do volume de trabalho, precisamos de mais de 200 novos funcionários. Se isso não acontecer, em breve os julgamentos vão demorar mais. Já estamos em conversas com o Ministério do Planejamento, que disse que vai colaborar com a reformulação do Cade.

7) EXAME – O senhor é a favor da criação do “super-Cade”, que, entre outras coisas, teria poderes para avaliar fusões antes de se tornarem públicas?

Fernando Furlan – Temos três órgãos para avaliar a questão da concorrência: a Secretaria de Acompanhamento Econômico, a Secretaria de Direito Econômico e o Cade. Caso o Congresso aprove a unificação, o trabalho será mais fácil.