O atalho para chegar à inovação

Para o economista Xavier Cirera, do Banco Mundial, o Brasil deve focar mais em facilitar a adoção de tecnologias existentes e menos em fazer pesquisas novas

Para países em desenvolvimento, não deveria ser tão difícil crescer com base em inovação. Afinal, bastaria copiar o que já deu certo nos países ricos e colher os resultados. Isso quer dizer que quem mais pode se beneficiar da inovação é justamente quem não a está fazendo. Essa é a ideia central do livro O Paradoxo da Inovação, escrito pelo catalão Xavier Cirera, economista sênior do Banco Mundial, em parceria com William Maloney, atual economista-chefe da instituição. Lançado em 2017, o livro tornou-se uma espécie de guia de inovação para países em desenvolvimento. O trabalho é citado por Caio Megale, secretário de Indústria, Comércio e Inovação do Ministério da Economia, como um dos preferidos de sua equipe em meio ao esforço de reformulação da política de inovação brasileira. As recomendações de Cirera são pragmáticas: antes de fazer inovação, é melhor facilitar a adoção de tecnologias existentes. Do escritório do Banco Mundial em Brasília, onde atua, ele conversou com EXAME.

Os ganhos da inovação podem ser tão grandes em países longe da fronteira tecnológica que faria sentido focar só nisso. Mas por que eles não o fazem?

Porque esses países não têm os fatores complementares necessários. Por que fazer inovação se o ambiente de negócios é terrível e adotar novas tecnologias e importar máquinas é complexo e custoso? O empreendedor não é míope. Ele pode trazer a máquina, mas, se não tem o pessoal qualificado para usá-la, não vai investir. Ou o investimento não trará tanto aumento de produtividade quanto o desejado. Outra questão é que sem qualidade da gestão não há sucesso em inovação.

Parece haver uma armadilha: o país não enriquece porque há bloqueios, mas são os bloqueios que o impedem de enriquecer. Como quebrar esse círculo?

O que não parece ser um problema de inovação, na verdade, costuma ser. Há uma ideia de que inovação significa ciência e invenções. Isso é inovação de ponta, algo que países desenvolvidos e empresas fortes podem fazer, só que é complexo para a maioria dos países e das pequenas e médias empresas. Mas inovação também é recriar produtos e processos com um conhecimento já existente. No livro O Paradoxo da Inovação, criamos o conceito de “escada rolante de capacidades”. Em países mais pobres, empresas com tecnologias defasadas são a maioria. Para elas, não faz sentido ter políticas de pesquisa e desenvolvimento.  O mais importante é facilitar a adoção de tecnologias e a criação de capacidades básicas. Quando essas empresas avançam alguns degraus, aí, sim, os instrumentos podem ser mais complexos. Não é algo teórico. Foi o que Singapura e Japão fizeram.

Muitas empresas não inovam porque operam em mercados sem competição…

De fato, em economias mais fechadas, como a brasileira, sem concorrência não existe incentivo para inovar. Por outro lado, há uma questão de acesso a mercados. Em países mais pobres, os empreendedores não veem por que investir em conhecimento, pois a demanda é por produtos básicos e de preço mais baixo. Uma maneira de sair disso é, como fazem países da Ásia, produzir para a exportação, na qual as exigências e a demanda são maiores.

Como avalia a inovação no Brasil?

O principal problema é a falta de integração e de uma estratégia única. Algumas políticas eram de anti-inovação, como as de conteúdo local. Quando há incentivo para a compra de maquinário doméstico, não se promove a adoção de tecnologias importadas mais avançadas. Outro erro é a fragmentação, com muitas instituições tentando fazer política de inovação, algo que dificulta a coordenação.

Por que é difícil alinhar universidades e empresas no Brasil para transformar descobertas em aplicações comerciais?

Esse é um problema no mundo inteiro e não tenho como julgar se no Brasil é pior. Um dos erros é a ideia de que, se há pesquisa, portanto há comercialização. É preciso entender quais são os incentivos para os pesquisadores fazerem ciência aplicada e como funcionam as questões de propriedade intelectual. Essa é uma parte do problema. Outra é que muitas empresas nem consideram a possibilidade de desenvolver um projeto com uma universidade. São comunidades e línguas diferentes. A maioria das PMEs não olha para a universidade como um meio de resolver seus problemas. E tudo bem. Muitas vezes a tecnologia já foi desenvolvida em outros países e é só facilitar a adoção.

Como os emergentes devem agir com tecnologias como a digitalização?

A ideia de saltar etapas é popular, mas como uma fábrica que não usa tecnologia 3.0 vai usar as ferramentas mais digitais? Como fazer personalização em uma empresa de vestuário sem fazer vendas online? Os países precisam de estratégias de indústria 4.0 abrangentes e graduais. Sabendo para onde ir, cria-se o apoio para construir capacidades.

Dá para transformar isso em política pública sem cair no intervencionismo?

Sim. Muita coisa já existe. Um dos programas de criação de capacidades é o Brasil Mais Produtivo [criado pelo governo federal em 2016 para aumentar a produtividade, com melhorias rápidas de baixo custo]. O governo quer dar escala a esse programa. Já existe também toda uma infraestrutura do Sebrae e do Senai. A questão é reforçar esse tipo de instrumento e focar as falhas de mercado. Muitas empresas não veem o valor de melhorar suas capacidades ou não têm assistência para isso. Já há bons exemplos no Brasil, como a Embrapa no agronegócio. A ideia é replicar isso em outros setores.