O Assange da Rússia

Um jovem advogado incomoda o Kremlin ao usar a internet para fazer denúncias de algo tão disseminado quanto a vodca — os casos de corrupção

Um jovem russo começa a trabalhar como policial, mas ao final do primeiro mês não vai buscar o pagamento. O mesmo acontece no segundo e no terceiro mês até que seu superior decide perguntar se ele não tinha intenção de receber. ‘Não sabia que ia ganhar um salário.

Achei que vocês tinham me dado uma arma e que o resto era comi­go’, foi a resposta.” Piadas sobre corrupção são comuns na Rússia, onde o pagamento de propina parece estar incrustado na cultura local. O próprio governo estima que a roubalheira nos órgãos estatais seja equivalente a 3% do PIB.

Segundo a ONG Transparência Internacional, a Rússia fica na 154ª posição no ranking de corrupção de um total de 178 países. O bom humor, é preciso que se esclareça, não significa resignação total dos russos. Se assim fosse, o advogado Alexey Navalny, aos 34 anos, não teria sido alçado à condição de quase herói.

Navalny já foi chamado de Erin Brockovich da Rússia, uma alusão à americana que ganhou uma batalha legal contra uma grande empresa e, depois, virou tema de filme de Hollywood. Mas está mais para uma versão eslava de Julian Assange, o criador do site WikiLeaks.

É a partir da internet que Navalny lança denúncias de falcatruas. Há pouco mais de três anos, ele começou a comprar pequenos lotes de ações de estatais russas e a acompanhar mais de perto sua gestão.

Não demorou para se deparar com aberrações, como a doação de 300 milhões de dólares da Transneft, dona de estratégicos oleodutos, a instituições de caridade.

Ao pedir o nome das instituições à direção da empresa, não obteve resposta. Diante do imobilismo, postou uma mensagem em seu blog. A partir daí foi colecionando uma denúncia após a outra. Recentemente, descobriu mais negócios suspeitos da mesma empresa que somam bilhões de dólares.


“Hoje, Navalny é uma das poucas vozes a se levantar contra a ilegalidade e a injustiça”, diz Janusz Bugajski, diretor do departamento de Novas Democracias Europeias do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um think tank de Washington. Numa consulta recente feita na internet por um jornal, Navalny foi “eleito” prefeito de Moscou com 45% dos votos — o segundo colocado foi “ninguém”, com 14%.

A Reação do Kremlin

Em dezembro, Navalny lançou o site http://www.RosPil.info, especializado em reunir material sobre irregularidades em licitações. “Navalny aproveita a web para angariar doações, receber denúncias e atrair gente capaz de avaliá-las”, diz Gregory Asmolov, editor do segmento russo do Global Voices, comunidade mundial de blogueiros.

Tanto barulho chamou a atenção dos poderosos. No começo de maio, em mais um capítulo do realismo mágico russo, a procuradoria decidiu abrir um processo contra Navalny. De acordo com a acusação, ele, no papel de consultor, teria induzido uma madeireira da região de Kirov a fechar um negócio em 2009 que resultou em perdas de 40 000 dólares.

Na imprensa moscovita, a iniciativa foi interpretada como uma clara tentativa de silenciar o advogado blogueiro. Em março, um imenso ataque de hackers a vários sites começou pela plataforma de blogs usada por Navalny, numa ação que muitos especulam ter sido perpetrada por gente ligada a órgãos de segurança.

Dado o histórico russo, tudo o que tem sido feito contra Navalny até agora é fichinha. Em 2006, a jornalista Anna Politkovskaya foi morta após criticar violações de direitos humanos na Chechênia. Mais recentemente, Mikhail Beketov, outro jornalista, fez denúncias de corrupção na região de Moscou e apanhou tanto de um grupo de desconhecidos que não consegue mais falar.

“Se Navalny lançar um movimento organizado e se tornar uma ameaça ao establishment, é bem possível que seja eliminado por um misterioso acidente de carro ou vítima de pistoleiros”, diz Bugajski. Navalny, que não esconde suas­ ambições políticas e escandaliza a elite liberal com suas posições nacionalistas, tem abusado da sorte.

Recentemente, disse numa entrevista que o partido de Vladimir Putin, o todo-poderoso primeiro-ministro e ex-presidente, é formado por um bando de “ladrões e trapaceiros”.

Numa entrevista à revista New Yorker, Ludimila, mãe de Navalny, deu algumas pistas sobre a origem da postura combativa do filho. Neto de ucranianos, Navalny viu parte de sua família adoecer com o desastre de Chernobyl, exemplo clássico do descaso governamental.

Parte dos russos não acredita nisso. Em sua cruzada, a pergunta que Navalny mais ouve é reveladora do quanto a corrupção contaminou os russos: “Quem está pagando para você fazer tanta denúncia?”