Está aberto o caminho para startups de hardware

Financiamento coletivo, componentes baratos, impressoras 3D e fábricas na China abrem o caminho para um novo tipo de empresa iniciante: a startup de hardware

Nova York – Um computador na mão e uma ideia na cabeça: é só trocar uma palavra na famosa frase do cineas­ta Glauber Rocha para contar a história das startups tecnológicas dos últimos 20 anos.

Desde os tempos da Netscape, empresa que em 1997 fez a primeira abertura de capital bombástica da era da internet, a ideia que se faz de um negócio típico do Vale do Silício é essencialmente a mesma: jovens talentosos debruçados sobre o teclado, dia e noite, escrevendo ­software. Mas uma nova onda de startups está seguindo um roteiro diferente.

O computador na mão e a ideia na cabeça ainda são fundamentais, mas também é preciso ter sensores, displays, chips, impressoras 3D, contatos com fabricantes na China, conhecimentos de engenharia e um bom olho para design — eis os ingredientes para o boom de startups de hardware.

Com tantos elementos envolvidos, começar uma empresa de hardware é uma tarefa muito mais complexa do que os primeiros passos de uma companhia que faz somente software. Mas os números apontam que os investidores nunca estiveram tão empolgados com empreendedores dispostos a literalmente botar a mão na massa.

Em 2013, fundos de capital de risco fecharam 31 negócios com start­ups que produzem eletrônicos de consumo pessoal. O total investido foi de 848 milhões de dólares, quase o dobro dos 442 milhões registrados no ano anterior. E esses números refletem somente os investimentos institucionais, que em geral apostam em empresas mais ou menos estabelecidas ou com produtos já lançados.

Por intermédio dos sites de financiamento coletivo, como Kickstarter e Indiegogo, outras centenas de milhões de dólares chegaram às mãos de startups ou de indivíduos que buscam a primeira injeção de capital para tirar a ideia do papel.

“É o início de uma nova era para o hardware”, diz Scott Miller, da Dragon Innovation, empresa que presta consultoria e ajuda a startups de hard­ware para obter financiamento.

Essa nova geração de empresas quer tornar as pessoas mais saudáveis, conectar as casas e os eletrodomésticos à internet e mudar a maneira como nos divertimos. Elas são parte de um fenômeno maior, do qual se fala há muito tempo, mas que finalmente está se tornando realidade: a internet das coisas.

São pulseiras que contam seus passos durante o dia e avaliam a qualidade de seu sono durante a noite, ou então termostatos inteligentes, que aprendem seus hábitos e suas preferências e ajudam a baixar a conta de luz.

Esses aparelhos são compostos de sensores e chips que custam cada vez menos, e todos estão conectados à internet, seja diretamente, por meio de um smartphone, seja por um tablet.

Em 2008, segundo um levantamento da consultoria Cisco Internet Business Solutions Group, o número de aparelhos em rede ultrapassou o número de pessoas no planeta. Até o fim da década, essa internet das coisas vai contar com mais de 50 bilhões de aparelhos. E muitos deles serão produzidos por startups que hoje dão os primeiros passos. 

Se os programadores olham para a história de sucesso do Google, os engenheiros admiram o sucesso da Oculus VR. Em menos de dois anos, a empresa levantou 91 milhões de dólares em investimentos e foi comprada pelo Facebook em março deste ano por 2 bilhões de dólares.

A história da Oculus­ VR ilustra ao mesmo tempo o potencial e os obstáculos do lançamento de uma startup de hardware. A Oculus começou como um projeto no site de financiamento coletivo Kickstarter. A ideia de Palmer Luckey, fundador da Oculus VR, era levantar dinheiro para fabricar os primeiros kits para desenvolvedores.

Os kits seriam destinados aos produtores de videogames, para que eles pudessem integrá-los aos jogos que estivessem produzindo. Em menos de 24 horas foi atingida a meta de 250 000 dólares; em dois meses, o valor chegou a 2,4 milhões de dólares.

Os sites de financiamento coletivo são hoje uma das principais plataformas de lançamento de startups de ­hardware. O entusiasmo dos em­preen­dedores que buscam esse tipo de financiamento inicial é compreensível. Em primeiro lugar, porque, apesar do recente apetite dos grandes fundos pelo setor, ainda é relativamente difícil conseguir capital de risco para startups de hardware.

“Muitos fundos só querem saber desse tipo de empresa depois que você já tem um acordo de distribuição com um varejista”, diz Robert Fabricant, da empresa alemã de design de produtos Frog. A Pebble Technology, fabricante do relógio inteligente ­Pebble, deu com a cara na porta de vários fundos.

Quando criou uma campanha no Kickstarter­, recebeu contribuições de mais de 1 milhão de dólares em pouco mais de 24 horas. Depois do sucesso online, a Pebble já obteve 25 milhões de dólares em capital de risco. 

Além do dinheiro, as campanhas de arrecadação se espalham pelas mídias sociais, o que significa marketing gratuito. E quem contribui com dinheiro acaba se tornando parte de uma rede de consultores informais, que oferecem novas funções e aperfeiçoamentos antes mesmo de iniciada a produção.

“Uma coisa é idealizar um produto sozinho, imaginando o que as pessoas esperam dele. Outra é receber a ­opinião de milhares de pessoas interessadas no produto durante o processo de desenvolvimento”, diz Steven Isaac, criador do Touchfire, um teclado para iPads.

Com a facilidade de modelar produtos no computador e usar uma impressora 3D para montar os primeiros protótipos, os custos iniciais de uma empresa de hardware caíram drasticamente nos últimos dez anos.

Mas fazer modelos é a parte fácil da vida de uma startup de hardware. “Produzir, distribuir, gerenciar estoques e distribuição… Essa é a parte difícil”, diz Randy Komisar, sócio do fundo Kleiner Perkins Caulfield & Byers, um dos mais famosos do Vale do Silício.

A maioria das startups vende diretamente ao consumidor, pois os grandes varejistas exigem estoques mínimos e impõem condições que quase nenhuma das novas empresas consegue atender. Mas a rede varejista americana RadioShack anunciou recentemente um programa para levar produtos de companhias iniciantes para dentro de suas 2 000 lojas.

Com raríssimas exceções, a fabricação é encomendada de fornecedores chineses. A Canary, empresa de Nova York, criou um sistema de alarme doméstico simplificado: um apartamento inteiro pode ser monitorado com um único aparelho, pouco maior do que uma lata de refrigerante, e o usuário controla tudo pelo smartphone.

O produto foi um dos maiores sucessos da história do site de financiamento coletivo Indiegogo: foram 2 milhões de dólares levantados. Mas daí a começar a produção na China foi um longo caminho.

“O ambiente (de negócios no país) é implacável. Você pode fazer um pedido de 50 000 unidades, mas a Sony ou a Samsung podem entrar com um de 300 000. O fabricante vai virar para você e dizer: ‘Desculpe, mas apareceu um pedido maior’”, diz Andrew ­Kippen, diretor de marketing da Canary. Mas a via é de mão dupla.

Se a empresa crescer rapidamente, os chineses acompanharão a velocidade. Quem sabe a startup de hoje terá um dia o mesmo respeito de nomes como Sony e Samsung?