As novas Dubais

Pequenos países árabes seguem o exemplo do mais famoso dos emirados e trocam a riqueza do petróleo por investimentos em turismo

Até poucos anos atrás, quem se arriscaria a dizer que uma região do mundo marcada por desertos infindáveis, clima inóspito, governos despóticos e hábitos culturais estranhos aos ocidentais se transformaria num pólo mundial de turismo? Para boa parte da humanidade, o Oriente Médio era apenas o lugar de onde saía a maioria do petróleo que movia a economia do planeta.

Mas o petróleo, como se sabe, não durará para sempre, e os árabes, capitalizados com os dólares resultantes da exploração de seus poços, decidiram se precaver. O resultado está na transformação do Oriente Médio no destino que apresenta o maior crescimento proporcional de visitantes do planeta, segundo dados da Organização Mundial do Turismo. Entre 2000 e 2007, o aumento no número de desembarques de estrangeiros na região foi de 64%, o dobro da média mundial.

Somente no ano passado, o Oriente Médio recebeu 45 milhões de turistas estrangeiros – o equivalente a nove vezes o total registrado pelo Brasil no mesmo período.

O fator que fez nascer a economia do turismo local foram os gigantescos investimentos em infra-estrutura realizados nos últimos anos – todos bancados pela abundância de petrodólares. A pequena Dubai, nos Emirados Árabes, foi a primeira a enxergar que a transformação do deserto instalado no caminho entre a Europa e a emergente China poderia atrair multidões em busca de luxo e lazer exótico, perenizando dessa forma a riqueza.

Desde a metade da década de 90, o PIB de Dubai cresce ao ritmo de 9% ao ano e não depende mais quase que exclusivamente do petróleo, como ocorria no passado. Hoje, uma das principais receitas vem do fluxo de visitantes que desembarcam ali para conferir de perto atrações como o Burj Al Arab, hotel com fachada inspirada numa vela de barco que virou cartão-postal do emirado. Há shoppings por todos os lados que funcionam como grandes free shops de grifes de luxo. Uma linha de metrô, atualmente em construção, vai ligar Dubai a Abu Dhabi, outro pequeno e riquíssimo emirado. Essa infra-estrutura atraiu 8 milhões de visitantes em 2007, o dobro do movimento registrado há quatro anos.

o modelo de Dubai serve atualmente de inspiração para outras localidades do Oriente Médio, que decidiram também financiar projetos semelhantes com o saldo de dólares deixado por um longo período de cotações recordes do petróleo. “Empreendimentos orçados em 1 bilhão de dólares são banais hoje em locais como Abu Dhabi, Omã e Arábia Saudita”, diz o consultor Rohit Talwar, co-autor do estudo The Future of Travel and Tourism in the Middle East – A Vision to 2020 (“O futuro da viagem e do turismo no Oriente Médio – uma perspectiva para 2020”, em português). Estima-se que quase 4 trilhões de dólares serão investidos na região nos próximos anos. Desse total, 3 trilhões serão aplicados em projetos de turismo e lazer.


Há obras portentosas sendo tocadas em praticamente todos os países da região. Dubai continua se destacando, com atrações como a Dubailand, um complexo de parques de diversão, esportes, lazer e turismo orçado em 64 bilhões de dólares. Mas as gruas e os guindastes se espalham hoje por todo o Oriente Médio. Em Abu Dhabi está prevista a construção de um parque temático inspirado nos carros da marca Ferrari e de um parque aquático que terá a maior cachoeira artificial do mundo.

Na Arábia Saudita, o destaque é a Cidade Econômica Rei Abdullah, investimento de 120 bilhões de dólares que deve ser concluído no final deste ano. O empreendimento está localizado a 100 quilômetros ao norte da cidade de Jidá, numa área de 388 quilômetros quadrados. Entre outras atrações, a Cidade Econômica terá um dos maiores portos do mundo, um gigantesco complexo industrial e áreas para resorts.

O tamanho e a ambição dos projetos não estão ligados apenas ao apego dos xeques da região a extravagâncias. Na maioria dos casos, as obras são consideradas estratégicas para o desenvolvimento dos países do Oriente Médio. Na Arábia Saudita, os investimentos devem ajudar a diversificar a economia local. Metade do PIB do país ainda depende do petróleo.

Apesar de ser muito lucrativas, as atividades ligadas à exploração dos poços não são capazes de gerar tantos empregos quanto os sauditas vão necessitar num futuro próximo. Devido a uma das mais altas taxas de natalidade do mundo, a população do país deve quase dobrar até 2025, quando chegará à marca de 40 milhões de habitantes. “O turismo é uma das alternativas ideais para um país diversificar sua economia. Não depende da disponibilidade de recursos naturais e oferece pouquíssimas barreiras para se desenvolver”, diz Michelle Grant, analista de viagens e turismo da consultoria americana Euromonitor.

Os novos empreendimentos podem gerar para a região mais de 4 trilhões de dólares em receitas e criar cerca de 4 milhões de postos de trabalho até 2020, segundo estimativa da consultoria inglesa Global Futures and Foresight. Uma tendência fundamental desse setor no Oriente Médio é que, com poucas exceções, ele se volta para o mercado de luxo. Grande parte da infra-estrutura receptiva dos países da região é formada por hotéis e resorts de alto padrão.

Dos 500 empreendimentos previstos para ser inaugurados nos próximos anos, a maioria terá um padrão cinco estrelas. Agora, os xeques torcem para que a crise financeira mundial não estrague seus planos megalomaníacos.