Nos países ricos, o que assusta é a deflação

Em várias das maiores economias, a queda contínua dos preços assusta. O medo é entrar numa espiral deflacionária como a registrada por duas décadas no Japão

São Paulo – Nos anos 70, quase todos os bancos centrais enfrentavam um problema comum: inflação desenfreada. A saída era encarar a escalada de preços com a alta de juros — se a inflação não cedesse, era porque a dose não tinha sido forte o suficiente. Hoje, várias entre as maiores economias do mundo enfrentam o problema oposto.

E, por mais baixos que estejam os juros, não parece haver sinal de aumento do índice de preços. A zona do euro como um todo, em especial Espanha, Grécia, Portugal, França e Itália, e também os Estados Unidos estão entre as economias que, no acumulado dos últimos 12 meses, já apresentam índices de preços negativos.

No Reino Unido, a inflação desde janeiro de 2014 é de 0,3%, o índice mais baixo desde 1960. Até na China a inflação baixa tem sido um problema. A taxa em janeiro foi a menor para um único mês desde 2009. 

O problema tem ocupado tanto a cabeça dos economistas que já surgem novos jargões para tratar do assunto. Além dos termos clássicos, como inflação e deflação, agora se fala em “sub­fla­­­­­ção” (quando os índices de preço es­tão próximos a zero) e “reflação” (quando os preços voltam a subir para um nível considerado saudável).

Do ponto de vista dos consumidores, produtos mais baratos podem parecer uma barganha. Quem seria contra? Já para a saúde da economia como um todo, a deflação é um dos problemas mais graves. Isso porque, se os preços começam a cair repetidas vezes, os consumidores sentem-se motivados a economizar, já que os itens devem ficar ainda mais baratos no futuro.

Se ninguém compra, os preços seguem em queda livre, a produção para, o desemprego aumenta e o circo está montado para uma longa recessão. Foi isso que viveu o Japão por 20 anos, entre o início dos anos 90 e 2012. Nesse período, o PIB estagnou, o desemprego aumentou, os salários caíram e a taxa de poupança teve uma queda drástica.

Hoje, os países à beira da espiral deflacionária temem cair na armadilha japonesa. “Não sabemos até que ponto a demanda global vai cair. Mas o assunto dá tanto medo que só falamos nele”, diz Jeffrey Frankel, professor de economia na Universidade Harvard.

Por trás da atual queda da inflação nas grandes economias, há pelo menos dois fatores em comum: primeiro, a crise mundial de 2008, que diminuiu a demanda e baixou os índices de inflação. Mais recentemente, houve a queda do valor das matérias-primas, sobretudo o petróleo.

Há um ano, o barril era negociado a 105 dólares. Hoje, está na casa dos 50 dólares, patamar que, segundo a maior parte das estimativas, deverá permanecer ao longo de 2015. Com os insumos mais baratos, os preços de transporte e produção caíram.

“Em princípio, a queda no preço de produção é uma coisa boa. O problema é que isso aconteceu quando o mundo parecia estar finalmente se recuperando da crise de 2008 e a demanda ainda estava muito fraca”, diz Marcos Casarin, economista sênior da consultoria britânica Oxford Economics, em Londres.

A preocupação de economistas e governos agora é saber se a queda de preços dará mais um incentivo para os consumidores não gastarem. A resposta talvez seja sim. Depois de subir por quase dois anos, o índice global de confiança do consumidor da consultoria americana Nielsen caiu 2 pontos no fim de 2014 — justamente quando a inflação perdeu força ao redor do mundo. Todas as regiões tiveram queda.

A fim de estimular os consumidores a sair às compras, bancos centrais de diferentes países estão tentando facilitar o crédito. No início de março, o Banco Central Europeu (BCE) reiniciou a política de comprar títulos públicos de instituições privadas.

Na prática, o BCE está imprimindo dinheiro e entregando na mão dos bancos, na esperança de que eles emprestem mais a seus clientes. O objetivo da medida é tentar reativar a atividade econômica nos países do euro, mas um dos efeitos colaterais esperados é livrar a região do perigo da deflação.

Estamos todos acostumados a ver os bancos centrais aumentar a taxa de juro para conter a alta da inflação. Quando o problema é inverso, porém, a questão é mais complexa. Em teoria, se os preços estão caindo, o remédio é reduzir os juros para estimular o consumo. Mas o drama é que os juros nos países ricos já estão próximos de zero por causa da crise de 2008.

Alguns bancos centrais — como o europeu, o suíço e o dinamarquês — passaram a cobrar uma taxa para quem deixa o dinheiro no banco. Como os juros estão baixíssimos, o resultado final é um rendimento negativo. Ou seja, quem mantém o dinheiro no banco acaba perdendo uma parcela do investimento.

A mensagem das autoridades europeias é inequívoca: “Não poupem, gastem”. “Ninguém sabe se isso vai funcionar. Se os juros ficarem negativos por muito tempo, as pessoas podem simplesmente usar o colchão em vez do banco”, diz Frankel.

Efeito na gôndola

As grandes cadeias de varejo estão sentindo no caixa o êxodo dos consumidores. Em muitos casos, a saída tem sido entrar numa guerra de preços. No Reino Unido, a rede de supermercados Sainsbury’s já cortou o preço de 1 100 produtos desde novembro. Nos Estados Unidos, as empresas de telefonia oferecem sucessivos descontos.

A Sprint vende planos com 50% de desconto para os clientes de seus concorrentes. Em resposta, T-Mobile e AT&T também criaram promoções. Até na China os consumidores parecem ariscos. Dos últimos 36 meses, a inflação caiu em 35. Houve uma leve recuperação em fevereiro, mas os economistas temem que os números tenham sido artificialmente inflados por problemas sazonais.

“O que mais preocupa no caso chinês é a deflação dos preços para os produtores, que dura quatro anos”, diz Paul De Grauwe, professor de economia na London School of Economics.

Apesar das incertezas, não falta quem defenda que os preços devem parar de cair tão logo a cotação do petróleo se estabilize. De fato, quando apenas o núcleo da inflação — que exclui o preço de combustíveis e alimentos — é levado em conta, a situação é menos assustadora.

O núcleo da inflação nos Estados Unidos subiu 1,6% no acumulado de 12 meses. No mesmo período, atingiu 0,7% na zona do euro. De acordo com as últimas estimativas do banco suíço UBS, a inflação ganhará ritmo nos Estados Unidos a partir de maio. Já a Europa deverá sofrer com a deflação até pelo menos o meio do ano.

“Dada a gravidade da situação, a recuperação da zona do euro deverá ser mais lenta”, diz Timo Wollmershäuser, diretor do departamento de macroeconomia da Universidade de Munique. Independentemente do que venha a acontecer, uma coisa é certa: o tema da inflação ganhou uma importância que há muito não tinha.

Os economistas têm debatido se as metas inflacionárias não deveriam ser mais altas para dar margem de manobra à política monetária e, assim, evitar o risco de deflação. Há anos, os países ricos perseguem uma taxa anual de 2%. Agora os defensores de um novo teto falam em 4%. Ao contrário dos preços, essa é uma discussão em alta.