No campo, a tecnologia garante o futuro

O uso da tecnologia, razão do aumento da produtividade do campo no país, é o caminho para o setor crescer mais, mostrou, em outubro, o EXAME Fórum Agronegócio

São Paulo — Pelo menos uma vez ao ano, um objeto voador costuma chamar a atenção dos 130 empregados da fazenda Três Lagoas, em Lençóis Paulista, no interior de São Paulo. Trata-se de um drone, avião não tripulado que sobrevoa trechos dos 5.000 hectares de canaviais da propriedade.

O objetivo é encontrar falhas de plantio: áreas em que a safra está comprometida por mudas que não vingaram ou contaminada por pragas. O drone descobre isso por meio de câmeras equipadas com sensores de raios infravermelhos.

Índices baixos indicam que o pé de cana pode estar danificado ou simplesmente não existir mais — essas regiões aparecem coloridas em mapas da propriedade feitos com a ajuda dos drones. O monitoramento é feito na Três Lagoas há três anos.

Antes, encontrar defeitos na lavoura era um eterno “achismo”: empregados iam a pé a um trecho da plantação e as falhas encontradas lá eram tomadas como realidade da produção inteira. “Era comum desperdiçar defensivos em plantas sadias e encontrar áreas improdutivas só na hora da colheita”, diz Jorge Morelli, proprietário da Três Lagoas.

“Agora, sabemos palmo a palmo onde estão os problemas.” De lá para cá, trabalhadores da fazenda revezam-se no plantio manual das áreas com falhas. Onde há pragas, eles colocam placas de papelão com até 100.000 ovos de vespas criados em laboratório. Elas, quando atingem a fase adulta, comem os predadores.

O uso das tecnologias reduziu à metade as áreas com rendimento abaixo do esperado — hoje está em 5% da lavoura, patamar comparável ao dos melhores canaviais do país. “Deixamos de perder cana no meio da safra”, afirma Morelli. Melhorias no manejo, como a ocorrida na fazenda Três Lagoas, aumentaram a produtividade do agronegócio brasileiro — e a importância do setor para a economia do país.

Em 2015, a riqueza vinda das fazendas deverá alcançar 1,2 trilhão de reais — cerca de 20% do PIB. Em tempos de crise severa, o setor é o único a trazer boas notícias: a previsão do Banco Central é de expansão de 2% no agronegócio, enquanto a indústria deve cair 5%, e os serviços, 2%. Como garantir que o ritmo de conquistas no campo se mantenha no futuro?

E de que maneira conciliar a pujança nas lavouras com a preservação do meio ambiente? Esses assuntos foram debatidos no primeiro EXAME Fórum Agronegócio, realizado no dia 26 de outubro em São Paulo.

Participaram do encontro André Nassar, secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura; o biólogo Fernando Reinach, sócio do fundo Pitanga, voltado para negócios inovadores; Roger Ingold, presidente da consultoria Accenture; e Sérgio Rial, presidente do conselho de administração do banco Santander.

Também discutiram o futuro do agronegócio empresários e executivos de empresas do setor, como José Carlos Carramate, diretor da Precision Planting, uma divisão da empresa de biotecnologia Monsanto; Paulo Herrmann, presidente da montadora John Deere; Marcelo Castelli, presidente da fabricante de celulose Fibria; Roberto Waack, presidente da Amata, empresa do setor florestal; e Gustavo Junqueira, presidente da Sociedade Rural Brasileira.

A conclusão: investimentos em tecnologia poderão levar a mais histórias de excelência do agronegócio no futuro. A boa notícia é que estão surgindo no país startups voltadas para as necessidades das fazendas — a exemplo de fornecedores de sistemas de big data para medir a produtividade da lavoura, softwares para controlar níveis de fertilizantes, chips para monitorar a alimentação dos rebanhos, e por aí vai.

No EXAME Fórum Agronegócio, cinco empreendedores fizeram uma rodada de apresentação de negócios. Entre eles o engenheiro Giovani Amianti, da fabricante de drones XMobots, e o entomólogo Alexandre Pinto, da Bug Controles Biológicos, responsáveis pelos drones e pelas vespas que deram bons resultados na fazenda Três Lagoas (conheça as histórias das cinco empresas nas pág. 44 e 45).

Olhando para as últimas quatro décadas, o agronegócio tem muito a comemorar. Investimentos em fertilizantes corrigiram a acidez do solo no cerrado, abrindo novas fronteiras agrícolas. Melhorias genéticas em sementes e a introdução de boas práticas de manejo aumentaram as colheitas. Em 2015, a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária espera uma safra recorde de 202 milhões de toneladas de grãos.

O volume é mais de quatro vezes o que se obtinha em meados dos anos 70. No período, a área plantada dobrou. De cada hectare atualmente saem 3 toneladas de grãos. Em 1977, era apenas 1 tonelada.

Ou seja, a produtividade triplicou. O resultado é que o país atingiu a segurança alimentar e tornou-se uma potência exportadora: o Brasil é líder mundial no comércio de açúcar, café, laranja e carnes bovina e de aves. Nos últimos dez anos, o saldo positivo do agronegócio na balança comercial dobrou: em 2015, deverá superar 90 bilhões de dólares.

Embora a cotação de matérias-primas como soja e milho tenha caído neste ano, quase metade das receitas do comércio exterior deverá vir de itens como grãos e carnes. “O volume exportado pela cadeia do agronegócio deve crescer 15% neste ano”, diz André Nassar, do Ministério da Agricultura.

O futuro também é promissor, pois o mundo vai precisar de um grande aumento na produção de comida. Segundo projeção da Organização das Nações Unidas, a população do planeta deverá passar dos atuais 7 bilhões para perto de 10 bilhões de pessoas até 2050.

A maioria das bocas a mais estará na África e na Ásia, e as duas regiões deverão contribuir com 90% do incremento da classe média mundial nas próximas décadas. O resultado pode ser a elevação de 70% no consumo de alimentos — algo como 900 milhões de toneladas.

“Quanto mais o mundo enriquece, mais precisa de proteínas”, afirma Sérgio Rial, que assumiu o conselho do Santander neste ano, após passagens por empresas do agronegócio, como Cargill e Marfrig.

Além da demanda futura, existe um passivo a ser resolvido: embora a produção mundial de comida tenha quase dobrado desde 1970, a quantidade por pessoa caiu 5%, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa em Políticas Alimentar, que publica o Índice Global da Fome. “O Brasil é um dos países mais preparados para resolver o problema”, diz Rial.

De fato, poucas regiões do planeta dispõem de tão boas condições de luz, água e calor, recursos indispensáveis para a fotossíntese. O processo biológico tem relação direta com a fartura e com a qualidade de uma lavoura.

Indiretamente, pela oferta de rações vegetais, também influencia o ganho de peso de bois, aves e suínos. “Das grandes fronteiras agrícolas mundiais, apenas a África subsaariana rivaliza com o Brasil na abundância de recursos naturais”, afirma Fernando ­Reinach.

Dois caminhos

A questão é como o Brasil deve atender ao chamado do planeta para alimentar as novas gerações. Há duas escolhas. A primeira seria abrir novas lavouras avançando sobre vegetações nativas, como a da Amazônia. A outra, e melhor, é aumentar a produção das áreas já usadas pela agropecuária com a disseminação de práticas modernas de manejo.

“É a opção provável”, diz Reinach. “A tecnologia agrícola é a melhor amiga da preservação.” Os desafios pela frente são convencer a maioria dos agricultores sobre a urgência de adotar tecnologias nas lavouras — hoje ainda restritas à elite do setor — e ganhar o apoio dos ambientalistas, mostrando a eles que esse é o melhor caminho para evitar a derrubada de mais florestas.

“Existe uma tensão entre agricultores e ambientalistas, mas a aprovação do Código Florestal mostrou que é possível avançar numa agenda comum”, diz Marcelo Castelli, presidente da Fibria. Um passo nesse sentido foi dado em dezembro do ano passado com a fundação da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento que reúne 104 empresas, ONGs e associações setoriais.

A finalidade é chegar a uma agricultura com baixas emissões de carbono, substância responsável pelo aquecimento global. Em junho, o grupo divulgou um documento com sugestões para o governo brasileiro apresentar na COP-21, a conferência mundial sobre mudanças climáticas que será realizada em Paris em dezembro.

Entre as propostas estão treinamentos para recuperar pastagens desgastadas, com tecnologia e práticas modernas de manejo. Segundo a Coalizão, só no Brasil há potencial para conciliar uma redução de 50% nas emissões de carbono até 2030 e um aumento de 30% na produção do campo.

“Em breve, ganhos de produtividade agrícola e conservação ambiental caminharão juntos”, afirma Roberto Waack, presidente da empresa Amata e membro da Coalizão. Até lá, segundo os especialistas reunidos no EXAME Fórum Agronegócio, um esforço precisa ser feito para levar tecnologias à maioria das fazendas onde a produtividade é baixa.

Cada trabalhador rural no Brasil gera, em média, 6.000 dólares em renda por ano, um décimo do que os americanos produzem, segundo um estudo da Fundação Getulio Vargas. “Por causa do baixo nível de educação e da alta rotatividade de pessoal, no Brasil ninguém tira mais do que 70% do que as máquinas podem produzir”, diz Paulo Herrmann, da John­ Deere.

Outro problema citado por ele é a inadequação das leis do trabalho. “Temos uma legislação ‘atrapalhista’ ”, afirma Hermann. “O conceito de dia útil no campo é diferente, mas a lei aplicada é a mesma que serve para quem trabalha na cidade.”

As particularidades do cultivo local — ao contrário de climas temperados, como o americano, em que os produtores colhem uma safra anual, no Brasil as condições climáticas permitem até três plantios no mesmo período — requerem logística e arranjos financeiros mais complexos do que nos Estados Unidos para que essa vantagem seja plenamente usufruída.

“Investir na gestão da fazenda é o primeiro passo para dar um salto de produtividade”, diz José Carramate, da Monsanto. Os recursos naturais e a tecnologia o Brasil já possui para construir a agricultura do futuro, mais eficiente e sustentável.