Sob pressão, empresas reduzem o uso de plásticos

O volume de plástico produzido no mundo cresceu 20 vezes em 50 anos. Sob pressão, as empresas se comprometem a reduzir o uso em escala inédita

Apresentações de uniformes de times de futebol costumam ser eventos que atraem a atenção apenas dos mais aficionados. As camisas, afinal, são sempre muito parecidas. Mas, no dia 6 de agosto, o clube espanhol Real Madrid apresentou um uniforme que atraiu a atenção de um público muito mais amplo. A grande inovação da terceira camisa para a temporada 2018-2019 não está na cor vermelha, já usada em outras temporadas, mas no material com o qual o uniforme foi confeccionado: plástico reciclado.

O material foi fornecido à Adidas pela Parley for The Oceans, organização internacional que se dedica a eliminar a poluição por plásticos nos oceanos. A mesma matéria-prima reciclada foi utilizada para confeccionar o mais recente uniforme da Juventus, um dos maiores times da Itália, também fornecido pela Adidas.

Há um mês, a fabricante de materiais esportivos estabeleceu uma meta global: usar unicamente plásticos reciclados até 2024. O poliéster, plástico que compõe metade dos produtos da marca, será gradativamente substituído. “Conseguimos manter o padrão de qualidade dos produtos sem aumentar a demanda por plástico virgem”, afirma Maraike Wegner, diretora de assuntos socioambientais da Adidas no Brasil.

A cada ano, pelo menos 8 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos, cerca de 32% de todo o volume de embalagens plásticas colocado no mercado mundial. Até 2030, se nada mudar, o volume produzido deverá dobrar, puxado pelo aumento do padrão de consumo em países como a China. Atualmente, cerca de 300 milhões de toneladas são produzidas por ano, 20 vezes a produção da década de 60. O volume chega a 40 quilos de plástico por ano por pessoa, ante 5 quilos por pessoa nos anos 60.

Assim como a Adidas, empresas de diversos setores compraram publicamente a briga contra o uso desmedido e o descarte incorreto do plástico nos últimos anos. A fabricante de bens de consumo Unilever se comprometeu, em 2015, a aumentar em pelo menos 25% a utilização de plástico reciclado em todas as embalagens de seus produtos até 2025 e, em algumas linhas, como as de sabão líquido, conseguiu reduzir em 75% o uso de plástico nas versões concentradas do produto. A rede americana de cafeterias Starbucks quer eliminar o uso de canudos plásticos nas lojas nos próximos dois anos, e a Coca-Cola quer chegar a uma fatia de 30% de produtos com embalagens retornáveis no mesmo período — hoje a proporção é de 20%.

Imagens de ilhas de plástico no Pacífico e de tartarugas com as vias respiratórias obstruídas por canudos viralizaram nas redes sociais recentemente. Com tempo de uso inferior a uma hora e uma logística de coleta quase impossível devido à magnitude do uso, os canudinhos de plástico se tornaram o bode expiatório da vez. No Rio de Janeiro, o utensílio já é proibido por lei e comerciantes correm para adotar canudos de papel, ainda pouco fabricados. Por ora, a Starbucks vai ter de importar canudos de papel, ainda não disponíveis em grande escala no Brasil (o que por si só cria uma nova leva de problemas ambientais). A rede de restaurantes McDonald’s precisará fazer o mesmo, enquanto tenta desestimular o uso dos canudos nos restaurante fornecendo-os só ao consumidor que solicita.

Os canudos são uma porta de entrada para discutir um problema complexo e sem solução simples. Cerca de 90% dos produtos plásticos são usados uma vez e descartados. Inventado em 1907 e disseminado em maior escala da década de 50 em diante, o plástico revolucionou a maneira como alimentos e produtos de higiene podem ser armazenados, conservados e transportados, além de ter transformado indústrias, como a automobilística, com a oferta de peças mais leves e duráveis.

Mas tais características também impedem a degradação do plástico, que tende a se decompor em pequenas partículas e permanecer indefinidamente no meio ambiente. De acordo com análise da Fundação Ellen MacArthur e da consultoria McKinsey, depois de um breve ciclo de uso, 95% do valor do material plástico das embalagens, correspondendo a um montante que vai de 80 bilhões a 120 bilhões de dólares anuais, se perde.

Fábrica da Unilever em Vinhedo, São Paulo: rumo ao uso de mais material reciclado | Marcela Beltrão

A despeito do bom funcionamento de alguns sistemas de reciclagem, como na Europa e no Japão, globalmente só 14% dos plásticos são coletados com essa finalidade, e só 8% são reciclados. No Brasil, a proporção é semelhante, num cenário em que apenas 18% das cidades contam com serviços de coleta seletiva e ainda existem 3.000 lixões. “Mais que tecnologia para reciclar, falta material adequado”, afirma Bruno Igel, diretor da Wise, uma recicladora de plástico. Diante da ineficiência na separação e na destinação correta dos resíduos, estima-se que 30% dessa indústria esteja ociosa no país.

Também faltam protocolos que sistematizem as características dos diversos tipos de plástico e seus respectivos potenciais de reciclabilidade, sobretudo por causa das embalagens complexas, que associam plásticos a outros materiais, como o alumínio. “Sem demanda com valor agregado, não há movimentação na ponta dessa cadeia. Não adianta reciclar muito e não ter a quem vender”, diz Ricardo Hajaj, diretor da Associação Brasileira da Indústria do Plástico.

O sonho de criar uma economia circular, 100% reciclável, em que os plásticos são reutilizados tanto quanto possível, tem impulsionado uma série de iniciativas. Algumas empresas se comprometem a compor suas embalagens com resina plástica reciclada, mas a garantia de atributos de qualidade, como resistência física e térmica, ainda é motivo de precaução. Uma solução mais simples é reduzir o uso das embalagens de plástico tradicional. A Coca-Cola conseguiu cortar em 17% o peso de suas garrafas plásticas, mas ainda não chegou a uma embalagem totalmente reciclada que possa ser usada para a água gaseificada sem perda do gás.

Um avanço mais rápido depende dos governos na criação de sistemas de coleta e triagem de lixo seco — e da mudança de hábito de consumidores. No longo prazo, as expectativas estão depositadas na capacidade da ciência de desenvolver e dar escala a moléculas plásticas biodegradáveis. Em 2010, a petroquímica brasileira Braskem lançou o primeiro plástico feito à base de cana-de-açúcar. O chamado plástico verde, de fonte renovável, ganha do plástico comum, feito à base de petróleo, no quesito emissões. Mas não é biodegradável (não pode ser decomposto na natureza).

A química Basf fabrica um tipo de bioplástico na Alemanha. O material já é a base de sacolas de lixo na Itália e na Alemanha, mas ainda é três vezes mais caro que o plástico comum. O certo é que a simples substituição do canudinho não vai resolver o problema dos plásticos.