Carta de Exame | Não ao retrocesso

Após uma década de redução do desmatamento no Brasil, quando as coisas pareciam estar entrando nos eixos, desde 2012 os índices seguem aumentando

Nem sempre gostamos de admitir. Mas a verdade é que nosso país conta pouco na cena global. Respondemos por apenas 1,2% das exportações mundiais — a China, para ficar no exemplo mais impressionante, tem 13% das vendas totais. Se descontarmos a presença marcante em algumas commodities, no geral somos coadjuvantes. Também pouco se fala do Brasil lá fora, e frequentemente as raras notícias não são boas.

Mas há uma marcante exceção: a área ambiental. É quando viramos gigantes. Numa hipotética reunião com apenas quatro participantes para debater formas mais sustentáveis de atuação, o Brasil teria necessariamente de estar presente, ao lado de Estados Unidos, China e União Europeia. Somos uma potência ambiental: é impossível pensar no futuro do planeta sem levar em conta os rios, as florestas e a biodiversidade brasileiros.

Por isso mesmo, é impossível não se preocupar com a destruição de nossos rios, florestas e biodiversidade. Após uma década de redução vertiginosa do desmatamento no país, quando as coisas pareciam estar entrando nos eixos, desde 2012 acompanhamos os índices de destruição aumentarem. Há indícios preocupantes de que, neste ano, a área desmatada pode ter crescido ainda mais. Some-se a isso uma retórica desastrada da nova administração e o resultado é que arriscamos virar o principal vilão ambiental do mundo, segundo algumas das mais renomadas publicações internacionais.

O governo se defende dizendo que o crescimento do desmatamento começou muito antes de sua chegada ao poder. Está certo. Diz também que muitos dos países que nos acusam destruíram no passado quase toda a sua cobertura nativa, e portanto não têm moral para nos dizer o que fazer. E novamente está certo. E está ainda correto ao dizer que a qualidade de vida dos cerca de 20 milhões de brasileiros que habitam a área amazônica não pode ser colocada em segundo plano.

Mas isso em nada alivia a situação brasileira: é imperioso cuidar já do destino da maior floresta do mundo. Até pelos erros cometidos no passado por outras nações, sabemos o caminho que não devemos trilhar. E precisamos provar que o desenvolvimento humano é plenamente compatível com a floresta em pé.

EXAME acredita que a sustentabilidade só será possível se contemplar as dimensões ambiental, econômica e social. As sociedades que caminham nesse sentido estão em sintonia com a modernidade. É por isso que fomos pioneiros ao lançar, há 20 anos, o Guia EXAME de Sustentabilidade, que premia as melhores práticas de empresas nessa área. É também por isso que a Amazônia foi tema de várias capas da revista, além de um sem-número de reportagens. É um imenso retrocesso voltar a enxergar a conservação como um obstáculo ao desenvolvimento. Nos juntamos a todos os que clamam por uma Amazônia viva a ser entregue às próximas gerações.