Não adianta protestar em Portugal contra o desemprego

Em meio ao descrédito de investidores e a uma grave crise, Portugal é incapaz de oferecer um futuro aos jovens — que gritam por emprego, mas parecem não entender os desafios do país

O português João Labrincha está desempre­gado. Aos 27 anos, diplomado pela tradiciona­líssima Universidade de Coimbra em relações internacionais, ele nunca teve um emprego de fato.

Nascido em Aveiro, Labrincha foi para Lisboa há cinco anos por causa de uma oportunidade de estágio profissional — modelo de contrato trabalhista para recém-formados válido por no máximo nove meses, sem seguro-saúde, contribuição para aposentadoria nem direito a seguro-desemprego. Ganhava o correspondente a dois salários mínimos.

Pulou de estágio em estágio por dois anos, até que passou da idade em que podia usar esse expediente. E lá se vão três anos em busca do primeiro emprego de verdade, com carteira assinada e décimo terceiro. Em seu abundante tempo livre, Labrincha conversa na internet com amigos sobre sua situação, buscando alternativas, tentando escapar da ideia, cada vez mais comum, da emigração — para outro país da União Europeia ou para o Brasil.

Numa dessas conversas, no começo de fevereiro, surgiu a proposta de organizar uma manifestação nas ruas de Lisboa. Foi dessa forma que nasceu o movimento 12 de março, uma página na rede social Facebook que  captou a atenção dos jovens da chamada “geração à rasca” — ou “geração enrascada”.

Três semanas depois, sem nenhuma propaganda ou marketing nos meios tradicionais, já eram 70 000 as confirmações de presença na página do evento. No sábado 12 de março, dez cidades portuguesas tiveram as ruas cobertas por entre 300 000 e 400 000 pessoas clamando por emprego, na maior manifestação popular registrada no país desde a Revolução dos Cravos.

“Não fizemos um protesto contra o governo nem elaboramos uma carta de reivindicações. Apenas mostramos para a sociedade e para as autoridades que não podemos mais ficar parados”, disse Labrincha a EXAME. Desde então, outras manifestações foram organizadas nas principais cidades do país.


A situação deprimente da economia portuguesa, que cresceu a uma taxa média de apenas 0,6% nos últimos dez anos, realmente não é recente. Mas piorou muito de dois anos para cá. O desemprego, que era de 6,8% no início de 2009, bateu o recorde desde a adoção do euro e chegou a 11% — um em cada quatro jovens de até 24 anos não tem emprego.

Entre os considerados empregados, cerca de um terço vive no que os patrícios chamam de “trabalho precário”, contratos temporários, de meio expediente ou em regime de profissionais autônomos.

Crise estrutural

O problema de Portugal é muito mais grave do que mera fase de desemprego no ciclo econômico. A dívida pública do país deve chegar a 97,3% do PIB neste ano e, como os investidores não confiam no poder do governo de saldá-la, os juros não param de subir. O drama português é, acima de tudo, uma questão estrutural.

“A balança comercial portuguesa é desequilibrada há 20 anos. É insustentável”, diz João Duque, presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão, a mais importante escola de economia de Portugal. O país exporta o correspondente a 17% do PIB, enquanto importa 26%.

“Desde que os países do Leste Europeu entraram na União Europeia, em 2004, os empregos e os investimentos foram para lá, onde o salário é mais baixo e a escolaridade é semelhante, quando não mais alta”, diz Augusto Mateus, ex-ministro da Economia de 1996 a 1998.


Além disso, o Estado português é inchado e ineficaz. O símbolo maior de sua incapacidade está nas duas companhias de ferrovias do país, a CP e a Refer, que, juntas, somam uma dívida de 9 bilhões de euros — mais do que todas as prefeituras portuguesas juntas. “E não estamos falando de prefeituras com gestões exemplares e competentes!”, completa Duque.

Mesmo após ter apresentado sua renúncia e já com as eleições marcadas para 5 de junho, o primeiro-ministro José Sócrates foi ao Banco Central Europeu no começo de abril pedir uma ajuda. Sócrates jogou a toalha depois que seu quarto pacote de corte de custos e aumento de impostos foi rejeitado pelo Parlamento.

“O povo se sacrifica se vê uma possibilidade de recompensa adiante, mas o que via era o governo gastando com submarinos para a Marinha enquanto baixava os salários da população”, diz Miguel Relvas, deputado e secretário-geral do Partido Social Democrata, principal partido de oposição do país.

Apesar das ressalvas, a oposição sabe que a solução do drama português passa pelo corte radical de gastos do governo. A polêmica fica em torno do aumento de impostos. Eles já aumentaram 7 pontos percentuais nos últimos dois anos, enquanto os salários foram cortados em 15%.

“O Estado precisa de dinheiro, e a saída mais óbvia é cobrar o preço da população. Mas isso só inibe a economia, que precisa desesperadamente de estímulos para crescer”, diz Eileen Zhang, analista da agência de risco Standard & Poors, que rebaixou o país para o segundo pior grau possível.


Para Eileen, só investimentos pesados no aumento da competitividade podem recolocar Portugal nos trilhos. “Mesmo que as exportações comecem a crescer, vai demorar dez anos para a situação melhorar.”

Não é de hoje que existe um grande temor de que os problemas portugueses tenham um efeito dominó. Depois que a UE jogou a boia para salvar a Grécia e a Irlanda, o medo é que o drama em Portugal possa arrastar a Espanha, uma das grandes economias do continente. As causas da crise nos dois países são bem diferentes.

A Espanha sofreu com uma bolha imobiliária e vive o medo de uma crise bancária. A de Portugal é fundamentalmente uma crise de dívida. Se Portugal, Irlanda e Grécia têm a vantagem de ser economias pequenas, com PIB entre 200 bilhões e 300 bilhões de dólares, a Espanha, com seu PIB de 1,4 trilhão de dólares, vem sendo chamada de “grande demais para quebrar, grande demais para ser salva”.

O problema do setor financeiro espanhol foi mais agudo que o de seus vizinhos, mas, até agora, seus maiores bancos estão indo bem nos testes de estresse feitos pelas autoridades europeias.

O perigo de contágio não é desprezível, mas o premiê José Zapatero acredita estar no caminho certo. A península Ibérica já tem uma geração enrascada. Cerca de 60 000 portugueses já deixaram suas casas para tentar a sorte em outros países. E uma já é o suficiente.