Um guia para entender a revolução no setor financeiro

O livro "O Guia Essencial das Fintechs" mostra como startups de finanças estão transformando o mercado e a vida do investidor. Leia um trecho

Por volta de 2010, começou no Brasil uma revolução no setor financeiro. Surgiram as primeiras fintechs, startups especializadas em finanças. A mudança ainda era silenciosa, mas hoje essas empresas comandam uma grande transformação nesse mercado. Talvez você só tenha ouvido falar do Nubank ou do Guiabolso, mas o Brasil já tem mais de 600 fintechs, de acordo com a Associação Brasileira de Fintechs. Nas plataformas digitais, elas prestam uma gama variada de serviços, como contas, cartões, empréstimos e  investimentos. Mais do que vender produtos diferentes, essas empresas viram do avesso a forma de oferecer serviços financeiros. Elas querem que a relação das pessoas com o dinheiro seja mais fácil e barata. Qualquer semelhança com aplicativos de transporte, como o Uber, ou com plataformas de streaming, como o Spotify, não é mera coincidência.

As centenas de fintechs exploram um mercado em que os bancos são pouco amados, porque as taxas cobradas dos clientes são altas. As fintechs viraram moda. Mas é preciso ficar atento, pois muitas empresas que se consideram fintechs não necessariamente o são. As fintechs são startups — empresas de tecnologia nascentes com alto potencial de escalabilidade — que desenvolvem produtos ou serviços financeiros. Esse conceito, que se originou no Vale do Silício, é subjetivo. Afinal, o que é uma empresa recém-nascida que pode crescer muito?

Não há um marco preciso, mas muitos especialistas consideram o PayPal a primeira fintech do mundo. Fundado em 1999 nos Estados Unidos, o site permite fazer pagamentos e transferir dinheiro sem a intermediação de bancos, bastando cadastrar um cartão. No entanto, a geração fintech ganhou força há menos de dez anos, depois da crise financeira global de 2008. O setor de finanças sempre foi um dos mais poderosos, regulados e concentrados, mas, quando o banco de investimento Lehman Brothers decretou falência, o mundo percebeu o tamanho do problema. Ao falir, a instituição colocou em dificuldades outros bancos, empresas e investidores e gerou uma reação em cadeia. Depois do desastre, o mundo se assustou e deixou para trás o estigma de que o banco é sempre o lugar mais seguro para guardar o dinheiro. A pressão para as instituições financeiras se tornarem mais transparentes aumentou e a concentração financeira virou um problemão.

Tudo isso aconteceu quando a revolução digital estava em pleno curso. Surgia mão de obra qualificada e a Apple e o Google criavam um ecossistema de tecnologia móvel. Logo as pessoas se acostumaram a pedir comida, chamar táxi e alugar filmes pelo smartphone. Resultado? No mundo inteiro, novas empresas passaram a oferecer produtos e serviços financeiros mais fáceis, transparentes e baratos, por plataformas digitais. Hoje, elas querem ganhar dinheiro melhorando a experiência do cliente, não lançando mais produtos. Com o uso das tecnologias, elas conseguem ser mais ágeis e ter custos menores do que os bancos.

As maiores fintechs do mundo ficam nos Estados Unidos, e o Brasil ocupa a posição de protagonista na América Latina, segundo um relatório da Global Fintech Hubs Federation e da consultoria Deloitte. As startups financeiras ganham espaço em um mercado que antes era impenetrável, concentrado há décadas em cinco grandes bancos.

Hoje, as fintechs sobrevivem de duas maneiras: concorrendo com os bancos tradicionais e atuando como parceiras, preenchendo o espaço deixado por eles. Maior fintech brasileira, o Nubank chegou para concorrer diretamente com as grandes instituições, oferecendo cartão de crédito, mas de um jeito diferente. Já outras fintechs vieram para atender quem não tem acesso aos bancos e ajudar a renegociar dívidas ou comparar a infinidade de novos serviços, por exemplo. A maioria das fintechs no Brasil atua em meios de pagamento e crédito, nessa ordem. Este livro não trata das fintechs de meios de pagamento porque a maioria delas é focada em empresas, não em pessoas físicas.

A mudança está só no início

Se fosse um jogo de futebol, a revolução das fintechs estaria ainda nos primeiros minutos do primeiro tempo. Essas empresas são pequenas em comparação com os bancos. O Nubank, maior fintech do Brasil, tinha 5 milhões de clientes em 2018, enquanto o Itaú contava com 70 milhões. Por isso, o impacto das fintechs na economia ainda é limitado. A maioria das empresas opera no vermelho e menos de 20% dizem faturar acima de 10 milhões de reais por ano. Gigantes como Amazon ficaram anos no prejuízo antes de começar a dar lucro. Ou seja: ainda há muito chão para percorrer.

Agência bancária: as instituições tradicionais estão sob pressão | Germano Lüders

Ninguém sabe exatamente quanto e como as fintechs vão crescer. Serão compradas pelos bancos? Abrirão o capital na bolsa? Conseguir investimentos e ganhar escala ainda é difícil. Com verba escassa, elas são especializadas em poucos produtos e serviços financeiros, uma desvantagem para quem está acostumado a resolver tudo no banco. Porém, a tendência é que as fintechs agreguem cada vez mais produtos e serviços e até se tornem bancos, ainda com a promessa de melhorar a experiência do cliente. Por enquanto, elas atraem quem gosta de fazer tudo pelo smartphone, mas devem ganhar fãs à medida que a revolução digital avançar.

O maior desafio das fintechs é conquistar a confiança das pessoas, assim como fizeram Google, Amazon, Facebook e Apple no início das atividades. Só que a tarefa é bem mais complexa no caso das finanças. Afinal, é seu dinheiro que está em jogo. Os gigantes da tecnologia já têm o amor dos usuários, mas, por enquanto, usam o sistema de pagamento dos bancos. E se as fintechs oferecessem serviços financeiros de um jeito que nenhuma empresa fez ainda e competissem com as instituições tradicionais? Aí, sim, tudo poderia mudar. Uma pesquisa realizada pela consultoria Accenture mostra que um terço das pessoas estaria disposto a abrir uma conta no Facebook, no Google ou na Amazon. No Brasil, essa taxa sobe para 50%.

Como toda inovação, a revolução financeira é descentralizada. Ninguém sabe quando e como a mudança vai acontecer, ela simplesmente acontece. ‘Estamos começando a entender o tipo de coisa que podemos fazer’, diz Marcelo Bradaschia, fundador do FintechLab e professor na Fundação Getulio Vargas de São Paulo. O certo é que a transformação está só no início. Para você, pouco importa se os melhores produtos e serviços virão do Google, da Amazon, das fintechs ou dos bancos. Quanto mais concorrência, melhor.” 

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