O Brasil na mira das tarifas de Trump

A ameaça de Trump de impor tarifas ao Brasil abre uma nova frente de disputas. O protecionismo tenta compensar o dólar. E atender a base eleitoral de Trump

Pode ter sido apenas mais uma jogada do presidente Donald Trump para conseguir vantagens para os Estados Unidos, como ele mesmo já fez outras vezes com diversos países para forçar a assinatura de acordos. Mas o anúncio feito por meio de sua conta no Twitter na segunda-feira 2 de dezembro, de que o governo americano deve impor tarifas de importação sobre o aço e o alumínio brasileiro e argentino colocou o Brasil de vez na rota das políticas comerciais protecionistas que são a marca do governo Trump.

Se de fato forem impostas pelos Estados Unidos (o que não havia acontecido até esta reportagem ser finalizada, no dia 2), as tarifas serão um duro golpe tanto para o setor de siderurgia quanto para o governo do presidente Jair Bolsonaro. Desde que assumiu a Presidência, Bolsonaro julgava ter acesso privilegiado à Casa Branca, e o Brasil, inclusive, abriu mão do status preferencial de país emergente na Organização Mundial do Comércio a pedido dos Estados Unidos, em troca de uma promessa de apoio americano ao nosso ingresso na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico — algo que ainda não ocorreu.

Não é a primeira vez que Trump ameaça o Brasil. No ano passado, o país já havia sido prejudicado quando o governo americano decidiu impor tarifas de importação de 25% sobre o aço e de 10% sobre o alumínio, com o argumento de que a dependência das importações desses produtos era uma ameaça à segurança nacional por causa de sua relação com a indústria bélica. Mas o efeito das tarifas foi minimizado porque o Brasil, bem como a maioria dos países que exportam aço e alumínio para os Estados Unidos, conseguiu negociar uma isenção da tarifa em troca de uma cota para as importações. Também no ano passado, Trump mencionou em uma entrevista que o Brasil e a Índia tinham impostos de importação altos que prejudicavam as empresas americanas, e sugeriu que algo fosse feito para mudar a situação. A ameaça, no entanto, não se confirmou e foi esquecida.

O que surpreende agora no anúncio de  Trump pelo Twitter é não só o modo inesperado como ele foi feito mas o fato de o presidente apontar o dedo diretamente para o Brasil, como um culpado pelo mal desempenho das empresas americanas no comércio mundial. O presidente alega que o Brasil manipula o câmbio para manter o real desvalorizado e suas exportações competitivas — prática que não é verdadeira. Nas palavras de Trump, isso dificulta para os agricultores e para as indústrias dos Estados Unidos a exportação de seus produtos.

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Na tentativa inicialmente de agradar aos produtores rurais — uma de suas bases eleitorais — que perderam mercado para o Brasil desde que os Estados Unidos entraram numa guerra comercial com a China, Trump pode acabar prejudicando a indústria de aço brasileira e também a americana. O Brasil é um importante fornecedor de aço para os Estados Unidos, especialmente de produtos semiacabados. A indústria de siderurgia americana depende das importações para suprir a demanda interna, que é maior do que sua produção. E o Brasil tem um papel importante nisso. De todo o aço importado pelos americanos em 2019, quase um quinto tem origem no Brasil, segundo dados do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. É a maior participação entre os países que vendem aço para os americanos, num comércio que somou 2,5 bilhões de -dólares neste ano até outubro.

Metalúrgica em São Paulo: o Brasil é hoje o maior exportador de aço para os Estados Unidos | Eduardo Knapp/Folhapress

Metalúrgica em São Paulo: o Brasil é hoje o maior exportador de aço para os Estados Unidos | Eduardo Knapp/Folhapress (/)

Agora, um ponto que Trump tem razão é que a valorização do dólar prejudica as exportações americanas. Mas a moeda do país está alta não por causa de uma suposta manipulação do câmbio nos outros países, mas pelo fato de a própria economia americana estar crescendo. Os Estados Unidos estão vivendo sua mais longa expansão econômica de que se tem registro. São quase 11 anos consecutivos de crescimento ininterrupto, um recorde. E, ao contrário das previsões de um desaquecimento em 2019, os números do terceiro trimestre mostram que o produto interno bruto americano continua numa expansão em torno de 2% ao ano.

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Não é que o temor de uma desaceleração americana tenha ficado para trás. Mas num momento em que a economia mundial desacelera, e os países ricos da Europa Ocidental e o Japão continuam com um crescimento muito baixo, os Estados Unidos viraram uma espécie de ilha de prosperidade. Para os investidores internacionais, que buscam um lugar seguro e com bons retornos, os Estados Unidos acabam sendo o destino mais natural para os investimentos. “Nas últimas semanas tivemos um novo otimismo com a economia americana, depois da confirmação de que não estamos caminhando rumo a uma recessão e que o crescimento pode continuar. Isso tem levado ao fortalecimento do dólar”, diz Gregory Daco, economista-chefe para os Estados Unidos da consultoria britânica Oxford Economics.

Com isso, o dólar tem se valorizado não só em relação ao real mas também a uma série de moedas mundo afora. É um novo cenário que, segundo os especialistas, tende a se estender. “Bem ou mal, neste mundo em desaceleração, os Estados Unidos ainda têm um crescimento melhor. Então o dólar ganha valor globalmente diante de outras moedas e o real está ali no mesmo barco, das que desvalorizam”, diz o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor de assuntos internacionais do Banco Central.

Num ano em que o presidente Trump   vai disputar a reeleição, o dólar valorizado prejudica uma de suas principais promessas: reduzir o déficit da balança comercial dos Estados Unidos. No Twitter, Trump tem aumentado as críticas ao presidente do Banco Central americano, Jerome Powell, por causa do dólar valorizado. Contra Powell, não há muito o que Trump possa fazer além de tuitar. Já em relação ao Brasil…