Na Itália, a crise não pode acabar em pizza

Antes restrita aos países da periferia da Europa, a crise bate na porta da Itália, a terceira maior economia do euro, e deixa o mundo com medo de um novo momento Lehman Brothers

São Paulo – A crise econômica tem deixado um rastro de destruição na política europeia. Em fevereiro, o então primeiro-ministro irlandês, Brian Cowen, foi derrotado nas eleições locais. Em março, José Sócrates renunciou ao posto de primeiro-ministro de Portugal.

Em seguida, o espanhol José Luis Rodríguez Zapatero anunciou que não encabeçaria a lista dos socialistas numa nova eleição — que será realizada no final deste mês.

Na primeira semana de novembro foi a vez de George Papandreou — o atrapalhado primeiro-ministro grego, que, em questão de seis dias, lançou a ideia de um referendo popular para votar o pacote de ajuda a seu país e acabou perdendo o apoio do próprio partido. O próximo na linha de tiro é o italiano Silvio Berlusconi, o mais polêmico, falastrão e importante de todos eles.

Em 8 de novembro, dia do fechamento desta edição, Berlusconi viu o apoio a seu governo minguar na votação sobre os gastos do ano passado. A prestação de contas foi aprovada, mas, com 321 abstenções, ficou claro que o premiê italiano não contava mais com a maioria no Parlamento.

Depois de se reunir com o presidente Giorgio Napolitano, Il Cavaliere, como Berlusconi é chamado na Itália, anunciou o plano de renunciar após o Parlamento votar o pacote de austeridade prometido à União Europeia, que inclui uma reforma da previdência e das leis trabalhistas, além de privatizações. Ainda sem data marcada, a votação deve ocorrer nas próximas semanas.

Embora a Grécia hoje simbolize tudo o que há de errado na zona do euro, sua débâcle não pode ser comparada a um eventual e temido calote italiano. Historicamente, a dívida da Itália sempre foi alta. Hoje equivalente a 121% do PIB, é a segunda maior da Europa, atrás somente da grega.

Até o ano passado, o alto endividamento era considerado mais uma marca do país — assim como a pizza napolitana e os canais de Veneza. Diante do agravamento da crise na periferia da Europa, a percepção do que é arriscado mudou.

Desde que a Grécia, que já havia sido socorrida pelo FMI em maio de 2010, voltou a flertar com uma moratória, parte dos investidores iniciou uma corrida para se livrar de papéis da Itália, um país que, além da dívida, carrega o estigma do crescimento lento e da confusão política.


Desde agosto, o Banco Central Europeu (BCE), agora comandado pelo italiano Mario Draghi, comprou o equivalente a 70 bilhões de euros em títulos da dívida italiana. Mas isso não foi o suficiente para acalmar os investidores.

Um recente anúncio do banco francês BNP Paribas deu o tom do momento: depois de afirmar que haviam vendido 40% de seu estoque em papéis italianos, seus executivos foram aplaudidos. Os investidores que aceitam comprar os títulos estão exigindo juros cada vez mais altos. No fechamento desta edição, a taxa chegou a 6,77% ao ano, o nível mais elevado desde a criação do euro, em 1998. 

Paura, paura

O maior temor hoje é que, como consequência do medo dos investidores, a dívida italiana se torne impagável. A crise grega, então, passaria a ser brincadeira de criança. Itália e Grécia têm economias de tamanho e sofisticação diferentes. O PIB grego equivale ao da região metropolitana de São Paulo.

A Itália é a segunda maior potência industrial da Europa, depois da Alemanha, tem o terceiro maior PIB da zona do euro e o oitavo maior do mundo. As riquezas produzidas no país são equivalentes à soma das de Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia. 

Como a Itália não é a Grécia, os efeitos de uma moratória italiana também seriam de outra categoria. Para muitos analistas, a própria sobrevivência do euro estaria, então, em perigo.

“Um calote da Itália seria, com certeza, como um novo momento Lehman Brothers na economia mundial”, diz Barry Eichengreen, professor de economia da Universidade da Califórnia.

“Seria algo próximo ao fim do mundo. Por isso precisa ser evitado de qualquer maneira”, diz Mauro Guillén, diretor do centro de negócios internacionais da escola de administração Wharton, da Universidade da Pensilvânia.

O que torna a situação especialmente dramática é a falta de confiança de parte do mercado na capacidade dos políticos italianos de enfrentar a resistência dos sindicatos, aprovar e depois colocar em prática o plano de austeridade prometido à União Europeia.


Em outras palavras, muitos duvidam que o país comece a reduzir seu nível de endividamento no curto prazo. “O Japão tem uma dívida elevada, mas ainda assim é um porto seguro, porque tem credibilidade entre os investidores. Esse não é o caso da Itália”, diz o italiano Alessandro Magnoli Bocchi, ex-economista do Banco Mundial.

No final de outubro, no encerramento de uma cúpula europeia, o presidente francês Nicolas Sarkozy foi perguntado se havia cobrado Berlusconi a respeito das reformas na Itália. E se ele, Sarkozy, tinha certeza de que Berlusconi estava ouvindo.

Num gesto raríssimo entre mandatários europeus, Sarkozy olhou para a premiê alemã, Angela Merkel, a seu lado, e os dois, cúmplices, deram um sorriso irônico.

“Seus pares e o mercado veem Berlusconi como um sujeito relapso e irresponsável”, disse a EXAME o italiano Giovanni Sartori, que, aos 87 anos, é um dos mais respeitados cientistas políticos em todo o mundo. “Sua decisão de sair é mais que acertada.”

Mesmo ridicularizado no exterior e sem apoio interno, Berlusconi busca uma saída por cima. Ao convocar a votação do pacote de austeridade, jogou a pressão para o Parlamento. 

Eleito três vezes, Berlusconi é o primeiro-ministro há mais tempo no poder desde o pós-guerra. O que acontecerá após sua renúncia? O presi­dente Napolitano pode determinar a formação de um governo provisório até as eleições previstas para 2013 ou pode antecipar o pleito imediatamente — tese defendida por Berlusconi. Ou seja, o passeio dos italianos pela bei­ra do abismo parece estar longe de acabar. Por enquanto, o grand finale não tem data marcada.