Na crise do zika, ao menos nossa ciência vai bem

Para Rino Rappuoli, um dos mais influentes cientistas na área de vacinas, os pesquisadores brasileiros têm agido com precisão e rapidez

São Paulo — O cientista italiano Rino Rappuoli, especializado em biologia molecular, trabalha há mais de 40 anos na criação de vacinas para doenças como meningite, difteria e gripe. Considerado uma das cinco pessoas mais influentes em sua área, Rappuoli é cientista-chefe do laboratório farmacêutico britânico GSK, um dos seis maiores do mundo.

Em entrevista a EXAME, Rappuoli afirma que a ciência brasileira ganhou novo status internacional com as pesquisas que aumentaram o conhecimento sobre o vírus zika, que causa microcefalia. “A recente visibilidade gerou interesse de pesquisadores pelo Brasil e estimulou a colaboração com institutos estrangeiros”, diz Rappuoli.

Exame – Como o senhor avalia a resposta do Brasil à epidemia do vírus zika?

Rappuoli – As autoridades brasileiras da área de saúde fizeram bem em reconhecer a doença logo no início. Os cientistas brasileiros, em especial, têm feito um trabalho fantástico. Eles estão identificando, com precisão, as principais características do vírus e seus efeitos. Tudo isso com rapidez. Isso aumentou a visibilidade da ciência brasileira.

Exame – Já é possível notar uma mudança prática?

Rappuoli – A recente visibilidade gerou interesse de pesquisadores pelo Brasil e estimulou a colaboração com institutos estrangeiros. Esse é o começo de um processo que pode elevar a ciência brasileira a outro nível.

Exame – Diversos grupos estão buscando uma vacina para o vírus zika. A vacina é a melhor solução?

Rappuoli – Em situações de emergência como essa, não. Leva-se de dez a 15 anos para criar uma vacina. É possível reduzir o tempo com mais investimentos, mas nunca levará menos de cinco anos para desenvolver e licenciar uma nova vacina.

Vírus do mesmo gênero que o zika se espalham rapidamente, e a maior parte das pessoas se torna imune. É possível que, em cinco anos, a vacina contra o zika não seja mais necessária. Você corre, corre, corre e ainda chega atrasado.

Exame – É possível evitar que novas doenças peguem todos de surpresa?

Rappuoli – Esse é o grande dilema. Deixamos de priorizar a prevenção e a pesquisa sobre vacinas. Quando há uma emergência, todos querem uma solução em 15 dias. Mas, no caso das vacinas, esse trabalho tem de começar dez anos antes.

Exame – Por que a prevenção fica em segundo plano?

Rappuoli – É uma questão financeira. O desenvolvimento de uma vacina custa bilhões de dólares para uma empresa farmacêutica. Portanto, faz mais sentido investir na pesquisa de remédios para o tratamento de doenças como o câncer.

Exame – Há solução?

Rappuoli – Uma solução é criar uma aliança global entre diferentes países para elaborar um plano de prevenção. Essa aliança poderia identificar as doenças que podem emergir no futuro e garantir que sejam feitos investimentos em pesquisa. Assim estaremos mais preparados.

Exame – Não é um exagero dizer que o surto de zika poderia ter sido previsto há dez anos?

Rappuoli – Se há dez anos tivéssemos feito uma lista de ameaças potenciais, o zika provavelmente estaria nela. O surto de ebola e, agora, o de zika mostram que há razões suficientes para que essas medidas sejam tomadas. Não é sustentável sempre agir de forma reativa. Alguma coisa vai ter de mudar.