Na bolsa, prestígio em alta para quem paga dividendos

Com a queda dos juros, as ações de empresas que pagam dividendos entram no radar dos investidores brasileiros — lá fora, são estrelas da bolsa há décadas

São Paulo – Milhares de investidores têm motivos para se queixar do desempenho da bolsa nos últimos anos, mas não os que compraram ações da companhia de energia elétrica Cemig. Quem investiu 10 000 reais na empresa no começo do ano passado recebeu quase 1 700 reais em dividendos, distribuídos semestralmente.

Fora isso, as ações subiram 75%. Somando tudo, aqueles 10 000 viraram 19 228 reais — em menos de dois anos, período em que o Ibovespa caiu quase 20% e as aplicações conservadoras de renda fixa renderam 18%.

Assim como a Cemig, outras empresas que pagam dividendos elevados — além do setor elétrico, são destaque nesse quesito empresas de saneamento e processadoras de cartões — têm feito a alegria dos investidores. Em média, os fundos que aplicam nesses papéis renderam 21% em 12 meses até julho, enquanto os que seguem o Ibovespa caíram 4%. 

Bastante difundida no exterior, a estratégia de investir em ações de empresas que pagam dividendos é relativamente nova por aqui, sobretudo para os pequenos aplicadores. “Os brasileiros começaram a prestar mais atenção nesses papéis após a crise de 2008”, diz Antenor Gomes Fernandes, sócio da gestora carioca STK.

As empresas pagadoras de dividendos geram caixa e geralmente não precisam fazer grandes investimentos, o que torna seus resultados previsíveis — algo desejável em períodos turbulentos. Elas são, no jargão da bolsa, ações “defensivas”.

Mas há outra vantagem que só agora começa a ser colocada na conta da maioria: a possibilidade de usar essas ações para receber um rendimento mensal, exatamente como faz quem aplica em títulos públicos, por exemplo. “Americanos e europeus encaram os dividendos como uma espécie de renda fixa na bolsa“, diz Eduardo Forestieri, superintendente de investimento do Citi no Brasil.

A lógica é a seguinte: se a empresa dá lucro, distribui parte dele aos acionistas — mesmo que a cotação de suas ações caia. Vários estudos mostram que, no longo prazo, ter essas ações é bom negócio.

Segundo o gestor americano Robert Half, os dividendos pagos pelas empresas da bolsa de Nova York deram um retorno anual de 5% aos investidores nos últimos 200 anos, além da valorização das ações, que foi de 3% ao ano no período. Quem aplicou nesses papéis, portanto, ganhou 8,2% ao ano — enquanto um título do Tesouro americano rendeu 6,6%, em média. 


As empresas que integram o Ibovespa distribuíram 4,5% do preço de suas ações como dividendos nos últimos 12 meses, mas há companhias mais generosas. A Cielo pagou 8%, e a Cemig, 11%, percentual superior à taxa Selic. Um benefício dos dividendos é a isenção de imposto de renda.

Um porém: isso só vale para quem comprar as ações diretamente ou aplicar em fundos que entregam os dividendos ao cotista, como os das gestoras STK e Vinci e do Itaú Unibanco. A maioria dos fundos incorpora esses recursos a seu patrimônio — e, nesse caso, o imposto é pago. 

Há 63 opções de fundos de dividendos no mercado, com aplicações mínimas que variam de 200 a 100 000 reais. Os melhores, atualmente, são os administrados pelos bancos Bradesco, Fator e Santander e pela gestora Icatu Vanguarda, segundo pesquisa do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas.

Mas atenção: ficam fora desse ranking os fundos que entregam os dividendos aos cotistas, porque uma regra da Comissão de Valores Mobiliários impede que esse dinheiro seja contabilizado como rentabilidade do fundo. O da Vinci, por exemplo, informou um rendimento de 25% em 12 meses, mas ela sobe para 34% quando são considerados os dividendos distribuídos. 

Para decidir o que fazer, o investidor precisa avaliar os riscos que está disposto a correr. Os mais arrojados podem ir para a bolsa. Quem acertou na mosca e investiu em Cemig e Cielo praticamente dobrou o patrimônio no último ano. Mas as ações da empresa de energia Eletropaulo foram um mico — a companhia parou de distribuir todo o lucro na forma de dividendos depois de ser obrigada pelo governo a revisar suas tarifas.

Outro risco é o fato de muitas companhias já estarem caras — como as boas pagadoras de dividendos são procuradas em tempos de vacas magras, hoje essas ações estão 50% mais caras do que a média das empresas do Ibovespa. Talvez fique difícil repetir o sucesso dos últimos anos. Mas, em tempos de juro baixo, não olhar para as pagadoras de dividendos é um erro que o investidor tem todos os motivos para evitar.