Murilo Ferreira, da Vale, vai às compras?

A fusão entre as suíças Glencore e Xstrata deve iniciar uma nova onda de consolidação no setor de mineração. A Vale vai ficar parada?

São Paulo – Não foi pensando pequeno que A brasileira Vale se tornou a segun­da maior mineradora do mundo. Sob o comando de Roger Agnelli, a empresa iniciou uma onda de aquisições no Brasil e no mundo. Foram 27 negócios ao todo — o maior deles, a compra da canadense Inco, em 2006, por 18 bilhões de dólares.

Dois anos depois, Agnelli fez uma oferta para comprar a suíça Xstrata por 89 bilhões de dólares. A oferta foi rejeitada, mas ficou claro que os brasileiros estavam levando a sério o movimento de consolidação mundial. Desde então, a Vale entrou numa espécie de calmaria compradora.

Na gestão do mineiro Murilo Ferreira, a companhia anunciou que a ordem, agora, é crescer investindo nas minas que já existem. O problema, para a Vale e seu presidente, é que o jogo voltou a ficar pesado. No dia 7 de fevereiro, a Glencore, maior vendedora de commodities do mundo, anunciou sua união com a Xstrata, o que deverá criar a quarta maior mineradora do planeta.

Para analistas, a fusão pode ter dado a largada para uma nova onda de aquisições, como aconteceu após a união de BHP e Billiton em 2001. Daquela vez, a Vale mergulhou de cabeça; e agora, o que fará Murilo Ferreira?

Por si só, a criação da Glencore-Xstra­ta tem pouca ou nenhuma influência sobre a atuação da Vale. Os suíços têm como principais produtos o carvão mineral, o zinco e o cobre, minerais em que a gigante brasileira tem baixíssima representatividade.

A questão, para a Vale, é o que essa união pode desencadear. Imediatamente após o anúncio da fusão, analistas começaram a especular que a Glencore-Xstrata poderia fazer uma oferta pelo controle da Anglo American, a vice-líder no mercado de minério de ferro, assim que a poeira da atual operação baixasse.

E, com o caixa forrado de dólares, as rivais da Vale não assistirão passivamente a um movimento desse porte. “Uma grande fusão força as concorrentes a reavaliar suas estratégias”, diz Claudio Pitchon, responsável pela área de metais do banco WestLB. “Como os novos projetos levam de sete a oito anos para sair do papel, o jeito mais rápido de crescer é por meio de aquisições.”

Alvos

Para a Vale, os alvos mais óbvios nesse novo cenário seriam empresas como as australianas Fortsecure, que tem como principal produto o minério de ferro e vale 18 bilhões de dólares, e Freeport, de 42 bilhões de dólares e que extrai basicamente cobre e ouro. A questão que se coloca para Murilo Ferreira é se mesmo uma aquisição desse porte seria suficiente para manter o atual poder de fogo da Vale.


As concorrentes já deixaram claro que têm apetite para transações muito maiores. Em 2008, a BHP tentou comprar a Rio Tinto, mas acabou desistindo em razão das restrições de órgãos reguladores. Caso Anglo ou Rio Tinto sejam compradas pelas rivais, a Vale perderia o posto de segunda maior mineradora.

“Se qualquer uma dessas operações acontecer, a Vale perde poder de barganha, sobretudo no caso de uma fusão entre BHP e Rio Tinto”, diz Rafael Weber, analista da Geração Futuro. “A empresa resultante poderia desbancar a Vale da liderança em minério de ferro.”

Cabe a Murilo Ferreira decidir se esse é ou não um problema. Do jeito que está, a Vale tem garantida uma confortável fatia de 17% do mercado mundial de minério de ferro, de longe a commodity que mais valorizou na última década — a Rio Tinto, segunda colocada, tem 10% do mercado.

Mesmo assim, a estratégia embute um risco. Cerca de 70% da receita da Vale vem do minério de ferro, a maior concentração em um único produto entre as grandes mineradoras. O problema é que, no último ano, o preço do minério caiu 25%, para 140 dólares a tonelada.  

“Se a demanda chinesa diminuir, os ganhos da Vale podem cair na mesma proporção”, diz Sylvain Brunet, analista da corretora Exane BNP Paribas. “Investir em novas commodities seria uma forma de reduzir esse risco.” 

O maior teste de Ferreira, no entanto, talvez seja conseguir tomar uma decisão puramente técnica. Roger Agnelli foi constantemente pressionado pelo ex-presidente Lula a privilegiar os investimentos no Brasil, mesmo que eles não fizessem muito sentido econômico.

Ainda assim, fez com que a Vale crescesse oito vezes em pouco mais de dez anos. A partir de agora, Ferreira terá de decidir se vale ou não a pena comprar essa briga.