Estilo | Moda sem partido

Roupas podem ser de direita ou de esquerda? Boicotes recentes a marcas como Louis Vuitton, Dolce & Gabbana e Nike levantam a discussão

Donald Trump até que apareceu segurando com delicadeza a bolsa modelo NéoNoé, de alça vermelha, vendida por 7.600 reais no Brasil. A foto foi tirada na inauguração da fábrica da Louis Vuitton em Keene, uma pequena cidade do Texas, no mês passado.

Estavam presentes Michael Burke, presidente da marca, e Bernard Arnault, dono do grupo francês LVMH. De nada adiantou o cuidado do gesto na imagem: os protestos logo explodiram na blogosfera. Grab Your Wallet, grupo que pede boicote a marcas associadas à família Trump, em seguida colocou o grupo LVMH na lista.

O caso está longe de ser o único. A Dolce & Gabbana é um dos alvos preferidos dos detratores do presidente americano. Sua mulher, Melania, já usou a grife italiana em diversas ocasiões — e isso depois de estilistas como Marc Jacobs terem se recusado a vestir a primeira-dama.

Do outro lado do espectro político, os conservadores reclamaram da Nike após a campanha com o quarterback Colin Kaepernick, que se ajoelhou durante a execução do hino americano em protesto contra a violência racial.

Historicamente, a moda aparece associada a ideais políticos. Em 1972, Jane Fonda recebeu o Oscar de Melhor Atriz com um terno de gola redonda, no estilo Mao Tsé-tung, em protesto contra a Guerra do Vietnã. Nos anos 80, a cultura skinhead tinha como uniforme as camisas polo Fred Perry e as botas Dr. Martens.

A cor branca vem sendo usada desde os anos 60 como símbolo da emancipação feminina. Hillary Clinton vestiu um terninho branco ao aceitar a nominação para concorrer às eleições presidenciais em 2016. A deputada Alexandria Ocasio-Cortez, adepta do look total white, já confessou usar o estilo para chamar a atenção para suas causas.

As etiquetas das roupas indicaram preferências políticas dos eleitores americanos no escândalo da Cambridge Analytica. O instituto acessou fotos de mais de 50 milhões de perfis do Facebook, sem autorização. Os dados foram usados na estratégia da campanha de Trump na última eleição.

No estudo, marcas como Wrangler e L.L. Bean foram associadas a um público conservador. Já grifes europeias, como Kenzo e Dior, indicavam preferências progressistas. Nessa divisão estético-política há casos até de infidelidade partidária. A Levi’s apoia causas de diversidade, caras aos democratas. Mas é também a calça preferida do centro-oeste rural americano, reduto republicano.

Quando essa discussão retórica escorrega para o mercado, existe alguma consequência prática? Nem sempre. A Dolce & Gabbana respondeu com ironia às críticas pela associação com Melania Trump ao criar uma camiseta com a inscrição #Boycott Dolce & Gabbana — vendida nas lojas por 245 dólares, vale registrar. Mas viu cair as vendas neste ano na China depois de um anúncio em que uma mulher de traços orientais aparecia comendo espaguete com pauzinhos. Nesse caso, pediu desculpas e retirou a campanha de circulação.

Mesma atitude teve a Prada ao apresentar a coleção Pradamalia, de bonecos de tom de pele preto e lábios vermelhos brilhantes. A ativista Chinyere Ezir logo reclamou do visual estereotipado. Resultado: os brinquedos foram recolhidos. A Gucci sofreu acusação de racismo quando lançou um suéter preto de gola alta e boca vermelha recortada. Para muitos, era uma referência à chamada blackface, representação caricatural dos negros na cultura. As malhas saíram de circulação.

Para a Louis Vuitton, a presença de Trump na fábrica se justifica como parte de um compromisso de um grupo de empresas, como Amazon e Google, de criar empregos. Na era das causas, das reputações e das redes sociais, as marcas estão aprendendo a evitar desgastes e responder com agilidade. Uma coisa sempre souberam: quem manda é o consumidor. Convém não desagradá-lo.


GARBO NAS PISTAS

As provas de corrida serviram de inspiração para a nova collab da Boss com a Porsche | Victor Collor, de Nova York

Costume, polo e tênis da coleção: dos circuitos para o dia a dia | Divulgação

Costume, polo e tênis da coleção: dos circuitos para o dia a dia | Divulgação (/)

No ano passado, a Federação Internacional do Automóvel (FIA) aceitou o pedido da Porsche para ingressar no circuito de corridas da Fórmula E, categoria de automobilismo com carros monopostos movidos exclusivamente a energia elétrica. E a Boss foi a escolhida para vestir a equipe e expandir a parceria. A grife apresentou em Nova York, durante a final da temporada 2019 da Fórmula E, a nova collab entre as marcas. A boa notícia é que as peças chegam agora ao Brasil.

Na coleção estão os uniformes que serão utilizados na estreia da equipe Porsche na Fórmula E na próxima temporada e as peças que podem ser usadas no dia a dia. Segundo Mark Langer, presidente global da Boss, com a saída da Fórmula 1 a marca buscava uma nova equipe comprometida com inovação e sustentabilidade. O sinal veio após o lançamento do projeto secreto Mission E em 2015, revelado neste ano como o novo Taycan, modelo 100% elétrico da Porsche.

Segundo Langer, a relação entre as marcas está na sensação. Ele faz um comparativo direto com o modelo 911: o som do motor, o toque do couro e os pequenos detalhes que tornam um Porsche único. Sobre os uniformes da equipe Porsche na Fórmula E, diz ele: “São mais de 30 anos caminhando lado a lado com o automobilismo, com as equipes Mercedes e McLaren na Fórmula 1. Hoje, temos conhecimento para produzir peças com o conforto e a durabilidade desejados”.

As peças da nova coleção usam materiais como couro e lã de alta qualidade e devem agradar aos fãs do automobilismo. A jaqueta de couro traz detalhes funcionais, como zíperes e bolsos internos pensados especialmente para as provas.

Um costume vermelho de lã fria de dois botões leva as linhas das curvas da Porsche nas costuras; e as camisas polo, as malhas e a jaqueta bomber feita com material ultraleve têm costuras e acabamentos especiais com detalhes em vermelho que fazem alusão às novas lanternas traseiras dos modelos atuais da Porsche.

E o tênis de couro com a assinatura Porsche leva conforto para as ruas ou até mesmo para os iniciados fazerem o punta-taco — ato de pisar ao mesmo tempo na embreagem, no freio e no acelerador para ganhar tempo no controle das curvas.