O mobiliário com história da nova geração de designers

Para os expoentes da nova geração de designers de móveis, o storytelling vale tanto ou mais do que o conforto e a estética

Passar batido pelas criações do designer de móveis Pedro Franco, de 42 anos, beira o impossível. Sua já consagrada poltrona Orbital tem estrutura de câmeras de pneu e revestimento de lycra rosa. Ele também já se valeu de cabides de madeira para projetar o assento e o encosto da cadeira Esqueleto. Na última edição do prestigioso Salão Internacional do Móvel de Milão, o Isaloni, neste mês, ele apresentou uma coleção em homenagem a Fernando de Noronha, onde esteve recentemente. “Quando descubro a alma de um lugar, tento imprimi-la em minhas peças”, diz Franco.

A coleção é composta de peças repaginadas, como o consagrado sofá Underconstruction, destacado pelo jornal The New York Times como uma tendência do mobiliário. Feito de tiras trançadas sobre malha metálica, que podem ser remontadas ao gosto do comprador, ganhou uma coloração em degradê que remete ao pôr do sol do paradisíaco arquipélago. “O que faz diferença em um móvel é sua capacidade de emocionar, algo que consigo ao incorporar elementos regionais brasileiros”, afirma Franco, que já se inspirou no Tocantins e na região do Cariri em seus trabalhos.

Formado em arquitetura pela Belas Artes, ele criou em 2012 a marca A Lot of Brazil, que fabrica tanto os itens assinados por ele quanto de outros designers. É o caso dos irmãos Fernando e Humberto Campana, as maiores estrelas da geração anterior. Hoje com 58 e 66 anos, respectivamente, eles também apostam em peças carregadas de história. A recente coleção que homenageia Lampião e companhia, por exemplo, composta de móveis revestidos de couro, foi elaborada em parceria com o artesão Espedito Seleiro, dono de uma tradicionalíssima oficina em Nova Olinda, no Ceará.

Para os expoentes da nova geração de móveis, a preocupação com o chamado storytelling, como se diz na publicidade, parece ainda maior. Que o diga o arquiteto Guto Requena, de 39 anos. Uma de suas mais conhecidas criações como designer é a luminária Alma. “É uma sobreposição de memórias resgatadas”, diz Requena. Para concordar com ele, antes é preciso saber que a luminária é composta de peças de vidro moldadas a sopro que estavam abandonadas numa tradicional fábrica de cristais.

Explicação para mobiliário? Parece uma tendência e coincide com a aproximação cada vez maior do design com a arte. Não à toa, o design tem espaço próprio na SP-Arte desde 2016. Um dos destaques da feira, o catarinense Jader Almeida, de 38 anos, apresentou na Semana de Design de Milão, paralela ao Isaloni, a cadeira Windsor. “É uma reinterpretação contemporânea da peça de mobiliário que leva o nome da cidade”, dizia o material informativo que a acompanhava.

“Segundo uma lenda, o rei George II, procurando abrigo de uma tempestade, chegou a uma cabana de camponeses e recebeu uma cadeira de madeira para se sentar. Seu conforto e simplicidade o encantaram tanto que…” Para conhecer a história é melhor puxar uma cadeira. Assinada, de preferência.