Metamorfose ambulante: Nokia se prepara para mais uma mudança

A empresa quer ter um papel central na implantação da 5G, nova geração das redes móveis para carros autônomos, internet das coisas e indústria 4.0

celular Nokia 3310 fez história nos anos 2000. Com mais de 126 milhões de unidades vendidas em todo o mundo, o modelo ganhou fama por ser fisicamente resistente e pelo jogo Snake II, em que o usuário controlava uma cobra ao apertar os botões do aparelho. O mesmo 3310 virou símbolo da derrocada da divisão de celulares da empresa finlandesa, que ficou para trás ao ver a chegada de competidores como o iPhone, da Apple, ou a Samsung, com sua linha de aparelhos Galaxy. Nostalgia à parte, o 3310 tem pouco a ver com a Nokia dos dias atuais e o que ela planeja ser nos próximos anos.

Com faturamento de 23,6 bilhões de euros (82,4 bilhões de reais) em 2016, a Nokia é uma das maiores fornecedoras de infraestrutura de telecomunicações — uma em cada duas conexões de internet no mundo, segundo a empresa, passa por algum sistema ou produto com sua marca. A Nokia agora se prepara para mais uma transformação em sua história: com o investimento em soft-wares e serviços, pretende desempenhar um papel central no estabelecimento da 5G, a nova geração das redes móveis que possibilitará os carros autônomos, a internet das coisas e a indústria 4.0.

As primeiras redes 5G deverão chegar ao mercado no final de 2019, quando a decisão sobre em qual faixa de frequência o sistema vai operar já estará tomada pelos órgãos reguladores no mundo todo. A 5G será até 1 000 vezes mais veloz do que a atual 4G que usamos em nossos smartphones.

Outra característica da nova tecnologia é que as redes conseguirão manejar um alto número de transações complexas — como os dados enviados pelos carros autônomos — simultaneamente. Se tudo sair como planejado, a lentidão no carregamento de vídeos e a queda de redes que são utilizadas por muitas pessoas ficarão no passado. Para esse futuro, os softwares serão tão importantes quanto cabos e antenas, pois controlarão fluxos de redes, prioridades na transmissão de dados e apontarão falhas nas conexões, funcionando como os maestros das redes. “Acreditamos fortemente que, para nos diferenciar, precisamos combinar o melhor do mundo do software com nossa especialidade em redes de comunicação”, afirma Bhaskar Gorti, presidente da divisão de aplicações e analytics da Nokia.

Baseada no Vale do Silício e não na sede mundial da Nokia — que fica na pequena cidade finlandesa de Espoo —, a divisão comandada por Gorti é responsável por 1,9 bilhão de dólares de faturamento anual- e é a que tem o maior apetite por aquisições. Em 2016, adquiriu a startup americana Gainspeed, um software de gestão de redes de banda larga, e a empresa Deepfield, de segurança e análise de dados.

Os valores dessas transações não foram divulgados. No primeiro semestre de 2017, a Nokia comprou a Comptel, também dona de um software de gestão de redes, por 370 milhões de dólares. “Se a compra de um ativo for a maneira mais rápida de trazer um produto ao mercado, então vamos seguir comprando, mas, claro, sempre olhando para nossa estratégia”, afirma Gorti.

A clareza sobre o futuro da Nokia começou após a empresa concluir a venda de sua unidade de celulares para a Microsoft, em 2014. Foi quando o indiano Rajeev Suri assumiu o posto de presidente e focou a atuação em negócios corporativos. Seu principal movimento foi a compra da concorrente francesa Alcatel-Lucent, em 2015, por 16,6 bilhões de dólares. A aquisição da Alcatel-Lucent representou uma proteção contra o avanço da chinesa Huawei, também de telecom, no mercado ocidental. “A nova Nokia tem ainda menos de dois anos. A complementariedade de nosso portfólio e de nossas geografias foi a chave do êxito da integração, feita em tempo recorde para nosso setor”, diz Osvaldo Di Campli, vice-presidente da Nokia para a América Latina.

A compra também turbinou a área de pesquisa e desenvolvimento. No pacote, a Nokia levou junto o Bell Labs, centenário laboratório responsável, entre outras coisas, pela criação do celular, do transistor e pela linguagem de programação C, base para o desenvolvimento da computação nos últimos 30 anos. O Bell Labs está trabalhando para o desenvolvimento dos padrões das redes 5G e dos dispositivos conectados da internet das coisas. Em parceria com a operadora Deutsche Telekom e a Universidade Técnica de Dresden, o Bell Labs desenvolvou um protótipo de comunicação para carros autônomos exibido na feira de Inovação CeBit, em Hannover, neste ano.

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Além das aquisições, o estabelecimento de parcerias tem sido outra maneira encontrada pela Nokia para inovar na oferta de serviços. Em maio, a empresa fechou um acordo com o grupo Telefônica para serviços de armazenamento em nuvem. O grupo espanhol fornece o datacenter, enquanto os finlandeses adicionam uma camada de software para facilitar o uso desse serviço por clientes corporativos.

A Nokia também está investindo na área de dispositivos conectados voltados para a saúde, como medidores de pressão sanguínea, balanças e relógios inteligentes. Embora o consumidor final seja o primeiro alvo, a Nokia acredita que empresas possam estar interessadas em serviços adicionais relacionados a esses produtos, como programas de análise que monitoram a saúde dos funcionários para reduzir os custos com planos de saúde.

“As pessoas aqui no país estão animadas com a completa transformação da empresa e com a possibilidade de ela vir a fazer algo maior e mais complexo do que fazia antes”, afirma Timo Vuori, professor de gestão na Universidade Aalto, na Finlândia. Para ele, as aquisições foram justificadas e permitiram que a empresa crescesse nos últimos anos. “A Nokia tem todos os recursos para ser um ator relevante nos setores de internet das coisas e de 5G. Vamos ver como essas coisas evoluem”, diz Vuori. 

Uma das razões para o otimismo é que a empresa aprendeu com os erros do passado. O cenário atual é bem diferente daquele que Vuori descreve em seus artigos sobre as razões que provocaram a queda da Nokia no setor de celulares. A principal delas, ele aponta, é que a empresa ficou para trás no desenvolvimento de software. O sistema operacional Symbian era pior do que o dos concorrentes — algo que a direção da Nokia nunca assumiu, impedindo a compra de novas tecnologias.

Bell Labs, da Nokia: aqui são desenvolvidas as redes 5G | Jasper Juinen/ Getty Images

O otimismo também é grande no mercado financeiro. Na Nasdaq, os gurus e os analistas de mercado recomendam a compra das ações da Nokia — os papéis estão no melhor patamar em um ano, sobretudo por causa da crise da concorrente Ericsson, da Suécia.

“Após um período de ‘vacas magras’ no setor de equipamentos de comunicação, marcado pelo fim das ondas de atualização da infraestrutura para a tecnologia 4G, eu espero ver as grandes empresas globais de telecomunicações começarem a gastar um pouco mais com a mudança para as chamadas tecnologias 5G nos próximos anos”, diz Daniel Martins, fundador e chefe de pesquisa da consultoria DM Martins Research. Para ele, o novo ciclo deverá aquecer os negócios da Nokia. “Tenho sido favorável à compra das ações desde outubro do ano passado”, afirma.

Até mesmo o negócio de celulares voltou a ser uma razão para a compra de ações da empresa. Mesmo depois da venda- da divisão de celulares para a Microsoft, a Nokia manteve suas patentes — tem 26 000 registros, sendo 1 400 deles feitos em 2016 — e o direito de uso de sua marca, representando atualmente uma fonte de receita constante para a companhia.

Em setembro, a Nokia venceu uma disputa com a fabricante de eletrônicos coreana LG sobre o tema. Em 2015, o acordo foi feito com a Samsung, que pagou 2,5 bilhões de dólares pelo uso de patentes. Atualmente, os smartphones da marca Nokia são de responsabilidade da HMD Global, uma empresa de ex-funcionários que terceirizam a produção dos aparelhos para a taiuanesa Foxconn. O Nokia 9, que será lançado neste ano, terá tela curva e leitor de íris. Para os saudosistas: não virá com o famoso jogo da “cobrinha” — um bom sinal, portanto, da nova Nokia.