“Mais dinheiro não faz um professor ser melhor”, diz educador

O finlandês Pasi Sahlberg é um dos educadores mais renomados de seu país e diz que os professores querem respeito — não bônus

Se existe um país onde professor é celebridade, esse lugar é a Finlândia. E um dos nomes mais notórios do país é o educador Pasi Sahlberg, ex-professor na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Autor de quatro livros, o ex-professor de matemática foi conselheiro do Ministério da Educação finlandês e viaja o mundo compartilhando as experiências do sistema educacional de seu país.  Sahlberg é crítico dos atuais modelos de pagamento de bônus para estimular professores. “Quem defende isso não entende nada de educação. Professor quer reconhecimento social, respeito e confiança da sociedade.”

O desempenho da Finlândia caiu nas últimas edições do Pisa. Por quê?

Há duas razões principais. O desempenho dos meninos em leitura caiu muito em relação ao das meninas. A diferença entre gêneros é maior na Finlândia do que em qualquer outro país que fez a prova do Pisa. Suspeito que a razão disso seja o uso de celulares. Há garotos de 13 anos que gastam 10 horas por dia em celulares e iPads.  Outra razão é que muitos países entraram para valer na corrida do Pisa, como as nações sul-asiáticas, que treinam seus alunos para irem bem no teste. É como competir com alguém que usa esteróides.

Os países asiáticos conseguem obter um resultado excelente no Pisa, mas com uma abordagem diferente da finlandesa. Quem está certo?

Na Coreia do Sul, 95% dos alunos dizem que se esforçam nos estudos por causa dos pais. Você nunca ouvirá isso de uma criança finlandesa. Acho que um dos segredos do sucesso da Finlândia é que se criou um ambiente de respeito e confiança nas escolas. São locais muito informais, mas os estudantes sabem desde cedo as responsabilidades que têm.  Se vão bem ou vão mal, fizeram isso por conta própria. Jovens e crianças precisam encontrar um propósito na educação. Acho que é por isso que conseguimos resultados parecidos com muito menos esforço e menos pressão sobre os estudantes.

Políticas de bônus por desempenho na educação estão na moda em todo o mundo, menos na Finlândia. Elas não funcionam aqui?

Quem defende que é preciso dar mais dinheiro para o professor ser motivado não entende nada de educação. Não é crível achar que, se houver mais dinheiro em discussão, esse professor vai conseguir ensinar melhor ou fazer o aluno aprender mais. A performance condicionada ao incentivo financeiro pode até funcionar quando você quer que pedreiros terminem uma obra num prazo determinado — aí você promete a eles um bônus de 20%. Mas certamente não vai funcionar em se tratando de professores e outras carreiras, como médicos. Desde que tenham uma remuneração razoável, os professores querem reconhecimento social, respeito, compreensão de seu papel e confiança da sociedade.

O senhor costuma apontar a desigualdade como um dos fatores determinantes para o fracasso educacional dos países…

É muito difícil construir um bom sistema de educação numa sociedade desigual. No caso do Brasil, onde a desigualdade é imensa, creio que serão necessárias políticas sociais e educacionais muito específicas para reverter a situação. Costumo dizer que 50% do sucesso da Finlândia na educação vem de fora da educação. Trata-se do sistema de saúde, de políticas familiares e parentais, e mesmo de uma boa rede de bibliotecas. Anualmente, os finlandeses emprestam das bibliotecas 70 milhões de livros por ano. E somos um país de 5 milhões de pessoas.

A Finlândia enfrentou uma longa recessão. Isso afetou a educação no país?

Desde a crise global, todo ano ocorre um corte de 3% a 4% no orçamento da educação. No longo prazo, isso faz uma tremenda diferença. É irônico que um país que se orgulha de ter um dos melhores sistemas educacionais do mundo, que quer exportar esse modelo, ao mesmo tempo retire recursos e investimentos do setor. É claro que há problemas por aqui. Quase todo político que conheço envolvido com educação tem pressa. Eles querem resultados em dois anos, antes de deixar o cargo.

O novo currículo finlandês tem um forte apelo tecnológico. O que acha da mudança?

Recebo e-mails de pais e professores preocupados com o excesso de tecnologia na sala de aula. Muitos têm a percepção de que ninguém sabe usar direito essas ferramentas. Há quem use o iPad para ler o que antes estava apenas num livro. Isso não serve para nada. Pesquisas apontam que o uso excessivo de tecnologia pode prejudicar o desempenho na aprendizagem. Pessoalmente, acho que há um potencial imenso para o uso de tecnologia na sala de aula, mas ainda estamos no estágio inicial.