Empresários começam a ver luz no fim do túnel

Uma pesquisa exclusiva mostra que o quadro geral entre empresários é de pessimismo, mas há no horizonte sinais de mudança do ânimo

A menos de dois meses da escolha do próximo presidente do Brasil, o quadro é de incerteza: só agora estão se definindo quais serão exatamente os nomes que aparecerão para os eleitores nas urnas eletrônicas. Na economia, o horizonte também não é animador: depois da paralisação de caminhoneiros realizada em maio, causando perdas de mais de 15 bilhões de reais, segundo os cálculos do Ministério da Fazenda, todas as projeções para o desempenho do produto interno bruto neste ano passaram a ser revisadas para baixo — o governo, no início do ano, chegou a prever um crescimento de 3% para 2018, mas agora já se espera algo pouco acima de 1%. No cenário externo, a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China é mais uma incógnita a ser desvendada — não existe consenso sobre os impactos que a disputa terá sobre o Brasil. A escalada tarifária entre os dois países poderá trazer ganhos ocasionais ao transformar o país em alternativa para substituir importações — ao vender carne suína congelada para os chineses, por exemplo —, mas as perdas poderão surgir com a queda dos preços das commodities, itens de maior peso nas exportações brasileiras.

Foi nesse quadro geral que a consultoria de gestão Betania Tanure Associados, de Belo Horizonte, colheu, ao longo do mês de julho, as percepções de 341 dirigentes de grandes empresas sobre a economia do país, a eleição presidencial e o futuro de suas próprias organizações, em uma pesquisa exclusiva para – MELHORES E MAIORES, realizada pelo terceiro ano consecutivo. De um lado, claro, não há surpresa: o desalento reina. A soma dos entrevistados que se dizem “pessimistas” ou “muito pessimistas” com o país em 2018 é de 51%. De outro, é preciso ler as entrelinhas para entender com mais clareza para onde o vento sopra. E, no momento, o que se vê é o início de um ponto de inflexão das expectativas.

Apenas dois anos atrás, a soma de pessimistas e muito pessimistas no ano era de 69%. Nesse mesmo intervalo, os entrevistados que se declararam “neutros” quando perguntados sobre seu ânimo com o Brasil passaram de 20% para 38% do total. Mas a percepção melhora quando eles olham mais à frente: para um cenário que considera os próximos dois anos, a soma de “otimistas” e “muito otimistas” é de 40%; para os próximos quatro anos, eles chegam a 62%. “O desempenho da economia é uma soma de fundamentos e expectativas. Nos fundamentos, estamos melhores hoje do que dois ou três anos atrás, com inflação sob controle, juros mais baixos e reservas em bom nível”, diz Marcos Troyjo, diretor do BRICLab, um centro de estudos sobre Brasil, Rússia, Índia e China, na Universidade Colúmbia, em Nova York. “Nas expectativas pelo menos em relação às eleições, tudo vai ficar meio congelado até sair o resultado do segundo turno.”

A transição de um quadro de pessimismo absoluto para algo mais próximo de neutro tem relação, entre outros motivos, com o fato de, bem ou mal, a trajetória do PIB ser hoje ascendente. Sim, o crescimento de 1% no ano passado foi baixo e o que se projeta para 2018 é decepcionante se comparado com as projeções do início do ano. Mas, como o contraste com o biênio 2015-2016, em que se registrou a maior recessão da história do país, é gigantesco, os semblantes também já não aparecem tão franzidos. “Não se pode dizer que vemos hoje sinais de otimismo entre as empresas, mas é fato que a economia está em recuperação, ainda que bem gradual. Isso se reflete nas expectativas”, diz Mario Mesquita, economista-chefe do banco Itaú Unibanco. “Com esse ambiente, as empresas tendem a ser mais conservadoras.”

Pelo menos dois dados da pesquisa da consultoria BTA atestam esse raciocínio. Em um deles, 31% dos entrevistados disseram que o faturamento ficará dentro do planejado — foi a resposta que mais apareceu para a pergunta sobre a projeção para os resultados da empresa. Em outro, sobre quais as prioridades do executivo em sua atuação, a resposta mais frequente, com 15% de menções, foi “equilibrar ações de revitalização e racionalização”.

Consumidores numa loja: a carga tributária continua no topo das preocupações dos empresários | André Lessa

Essa resposta, “equilibrar ações de revitalização e racionalização”, traz com ela outra evidência de que o mundo corporativo vive hoje uma fase  de transição de seus humores e expectativas: se o movimento de retomada de investimentos e contratações ainda não começou de maneira disseminada, os comandantes das empresas já reconhecem que há espaço para investir, e não apenas para cortar custos ou suspender planos. “Como estamos em um quadro difícil da economia e de muita volatilidade na política, nossa tendência é pensar que estamos no pior momento possível. Mas o fato é que as empresas estão vendo que o remédio que deram lá atrás fez efeito. Agora elas estão pensando seus próximos passos”, diz Betania Tanure, professora na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, consultora da BTA e coordenadora da pesquisa.

É por isso que, na pergunta sobre medidas adotadas pelas empresas nos últimos seis meses, os itens “adiar investimentos” e “reduzir o número de empregados” já não aparecem mais no topo das respostas, como ocorreu nas edições de 2016 e 2017 — embora, frise-se, eles continuem entre os mais citados no levantamento. Neste ano, “ampliar investimentos”, com 17%, e “contratar e desenvolver pessoas”, com 14%, surgiram no topo — “adiar investimentos” e “reduzir o número de empregados” ficaram empatados em terceiro lugar, com 12%.

Empresas bem-sucedidas, segundo Betania, são as que equilibram medidas de expansão com as de racionalização. No momento, as iniciativas de ampliação já aparecem entre as mais frequentes nos planos dos executivos para os próximos seis meses. Das cinco respostas mais citadas, quatro têm características de expansão ou revitalização: “participar de uma aliança ou joint venture estratégica”, com 15%, ficou no topo, e “diversificar os negócios” e “ampliar investimentos” apareceram em segundo, com 14%.

Nesse item se encaixa a montadora japonesa Nissan, que anunciou no início de agosto a decisão de antecipar um programa de investimentos de 40 milhões de dólares na fábrica de Resende, no Rio de Janeiro. O desembolso, a ser feito nos próximos dois anos e movido em boa parte pelo bom desempenho de vendas do modelo Kicks, elevará a capacidade produtiva de 160.000 para 200.000 unidades por ano. “O plano de investimentos no Brasil para os próximos cinco anos está em fase final de elaboração, mas ainda não é momento de um avanço mais agressivo”, diz Marco Silva, presidente da Nissan no país. “Podemos expandir a capacidade de produção nas fábricas existentes, mas uma unidade nova não está nos planos.”

O ex-governador Geraldo Alckmin: pesquisas apontam um hiato entre a preferência dos empresários e a do eleitorado em geral | Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

E do próximo presidente da República, o que esperam os homens e as mulheres que comandam as maiores empresas do país? Como característica pessoal, honestidade e ética estão no alto da lista, ao lado de capacidade de articulação e negociação, com 24% das respostas. Esse item do levantamento chama particular atenção quando lido ao lado da consulta sobre a expectativa dos entrevistados em relação às eleições, na qual 52% se disseram “pessimistas” ou “muito pessimistas”. Se dependesse apenas da vontade dos empresários e executivos ouvidos na pesquisa da BTA, o próximo presidente da República seria o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, do PSDB, citado por 36% como o candidato preferido nas eleições de outubro.

É um percentual bem acima do que têm apontado as pesquisas eleitorais com o conjunto da população. Na mais recente sondagem realizada por XP Investimentos/Ipespe, entre 30 de julho e 1o de agosto, Alckmin aparecia com 9% a 10% das intenções de voto, dependendo do cenário. Nessa mesma pesquisa, o candidato Jair Bolsonaro, do PSL, liderava com 19% a 22% das indicações. Entre os dirigentes empresariais ouvidos pela BTA, apenas 6% citaram Bolsonaro como o candidato favorito — e 30% disseram não ter um candidato de preferência.

Aparentemente, os empresários e executivos se sentem mais confiantes na eficácia de suas decisões em questões que envolvam diretamente as empresas ou seus setores de atuação, mas essa percepção de protagonismo é baixa quando se trata de algo que envolva agentes públicos. Daí a aparente resignação entre o que se deseja do próximo presidente e o que se espera que saia das urnas: seja qual for o nome escolhido pelos eleitores, os líderes das empresas não sentem que terão muito poder de ajudar a definir os rumos do país. Segundo a pesquisa, o protaganismo do empresariado dentro de suas empresas foi relatado por 19% dos entrevistados, mas por apenas 5% nas relações com o poder público.

Quando questionados sobre quais problemas precisam ser tratados com prioridade pelo próximo governo, empresários e executivos colocaram as reformas tributária e política, com 16% e 13%, respectivamente, como as medidas mais citadas. São itens que têm aparecido nos últimos anos no alto das respostas, ao lado do combate à corrupção — que segue em destaque, mas agora em terceiro lugar, com 11%, diferentemente do que ocorreu em 2016 e 2017, quando apareceu no topo.

“Fala-se muito da reforma da Previdência, mas ela sozinha não vai resolver tudo se quisermos pensar no futuro do país no longo prazo. Precisamos criar uma agenda de reformas simultâneas, que inclua a educação e a abertura comercial, esta última uma reforma tão importante quanto esquecida”, diz Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central e diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas. “Não pode haver priorização de reformas.” Com reformas por negociar e a autoestima do país a reconstruir, o próximo presidente da República terá muito por fazer a partir de 1o de janeiro — e com empresas a se reerguer de anos de recessão ou crescimentos decepcionantes, empresários e executivos também têm. E desde já.