J.R. Guzzo: a lenda do martírio de Lula é apenas uma invenção

As aflições de uma parte da elite nacional com o futuro penal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva são uma comprovação do atraso brasileiro

São Paulo — Se você é um empresário, executivo no desfrute de um emprego — sobretudo na área de “Relações Externas” e similares — ou tem algum tipo de situação profissional que o coloque na “classe A”, há uma boa probabilidade de já ter dito, ou ouvido dizer, em seu círculo social: “É muito ruim que o Lula se transforme num mártir”. Admitindo-se a hipótese de que o ex-presidente possa, eventualmente, vir mesmo a adquirir essa grife de “mártir”, a questão que se coloca é a seguinte: “Muito bem — e o que você sugere que seja feito a respeito disso na prática?” Eis aí o ponto central. Se você está preocupado com a possibilidade de que a lei seja cumprida e Lula acabe indo para a cadeia — bem, você está com um problema. A dificuldade, no caso, é que não há nada a fazer. Se não houver uma virada de mesa grosseira em nossos superiores e supremos tribunais de Justiça, algo equivalente aos procedimentos em uso hoje em dia nas altas cortes da Venezuela, a sentença que condenou o ex-presidente a 12 anos de prisão terá de ser cumprida. Aí, se ele ficar com uma imagem de santo perseguido, oprimido e injustiçado perante a opinião pública, paciência — o Brasil terá de conviver com esse grave problema. A alternativa é rezar para que nossos mais altos magistrados resolvam que a lei não se aplica ao caso de Lula, em nome dos superiores interesses da pátria.

As aflições de uma parte da elite nacional (ou daquilo que costuma ser descrito assim) quanto ao futuro penal de Lula são uma notável comprovação do subdesenvolvimento brasileiro mais clássico. É o contrário do progresso. Sociedade bem-sucedida, democrática e próspera cumpre a lei. Sociedade atrasada, injusta e desigual, como é o caso da brasileira, acha que a aplicação da lei precisa ser feita “com cuidado”, pois pode criar sérios problemas. As presentes desventuras do ex-presidente, no entendimento de muitas das mais ilustres cabeças do “Brasil civilizado”, liberal e frequentemente milionário, compõem um “quadro de risco”. Para desmontá-lo, vêm com a conversa obsoleta, medíocre e velhaca de que é preciso ter “criatividade” e buscar saídas de “engenharia política” para obter um “consenso” capaz de “pacificar” os ânimos e preparar o país para a “transição”. Pacificar o quê, se não há guerra? Transição para onde? Nada disso se explica com um mínimo de lógica ou de inteligência. A única coisa que se entende, nisso tudo, é a obsessão de passar por cima da lei.

A lenda do martírio de Lula, e das espantosas consequências que isso teria para o Brasil e para o resto do mundo, é uma dessas coisas construídas em cima do nada. Elas exercem uma atração irresistível sobre o público descrito nas primeiras linhas deste artigo — e, ao mesmo tempo, sobre os formadores de opinião etc. Desde que o ex-presidente teve sua condenação confirmada pelo Tribunal Federal Regional da 4a Região, em fins de janeiro, ficou mais do que comprovado que as grandes massas populares, que deveriam se levantar num movimento de revolta em apoio ao líder, estão pouco ligando para seu destino. Tratava-se de fato sabido havia longo tempo, pela absoluta falta de interesse do público em sair às ruas para defender a causa do PT, mas o debate político insistia em manter a ficção do “levante social”. Agora está mais do que demonstrado que isso não existe — e, se isso não existe, de onde vem a história de que Lula poderá virar um “mártir” se tiver de cumprir sua sentença? Não vem de lugar nenhum. É apenas uma invenção, como as teorias de seus advogados sobre “falta de provas”, acertos entre magistrados para condenar o réu, desrespeito aos “procedimentos legais” e tantas outras bobagens. É, também, um singular retrato da porção “liberal” das classes ricas deste país. Têm, no seu íntimo, horror a Lula. São contra tudo o que ele diz — embora uma boa parte tenha se beneficiado do que ele fez. Não querem que Lula volte a ser presidente. Mas, ao mesmo tempo, querem que ele não seja incomodado em nada. Em matéria de almoço grátis, é o que há.

Comentários
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  1. Linobaldo Filho

    O bom para o Brasil seria se livrar definitivamente deste bandido, que esse mal caráter morra logo

  2. Rodolfo Segabinazzi

    Parabéns pelo texto. Nesta mesma edição, coincidentemente, aparece uma “entrevista” com a chamada “O TENENTISMO NO JUDICIÁRIO” e destaca: “…., a caçada de juízes e promotores aos políticos é um perigo para a democracia.” Ora, convenhamos: se a justiça (promotores PF e juízes) estão processando políticos não o fazem por serem políticos mas por terem se tornado criminosos.