Cidades inteligentes, porém sensíveis

Para Carlo Ratti, do MIT, as cidades viraram “computadores a céu aberto”, com sensores captando dados para melhorar a vida dos cidadãos

O arquiteto italiano Carlo Ratti vê robôs em quase tudo: a pulseira que monitora a corrida do dono ou um carro que ajuda o motorista a dirigir. “A maioria desses objetos carrega sensores. Eles foram transformados em robôs”, afirma Ratti, que dirige o Laboratório de Cidades Sensíveis, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, na cidade americana de Cambridge. Que não se entendam cidades sensíveis como frágeis. A turma liderada por Ratti dedica-se a aplicar a tecnologia para tornar as cidades mais autônomas e sustentáveis. Para ele, o ambiente urbano é como um “computador a céu aberto”, capturando dados do ambiente para melhorar as experiências dos cidadãos. 

O senhor diz que a tecnologia transformou as cidades em computadores a céu aberto. Como assim?

Na última década, a banda larga via fibra óptica, as redes de telecomunicação sem fio e os sensores cobriram as cidades com uma infraestrutura inteligente. Embora normalmente não pensemos  assim, a maioria dos objetos foi transformada em robôs, como um carro com assistência ao motorista ou uma pulseira que mede o desempenho físico de uma pessoa.

Qual é a diferença de uma cidade inteligente para uma cidade sensível?

É sutil. As inteligentes colocam a tecnologia no centro. É o caso de Songdo, na Coreia, planejada para ser um distrito internacional de negócios, ou de Masdar, nos Emirados Árabes, baseada em fontes renováveis de energia. A sensível vê a tecnologia como um meio de enriquecer a vida urbana e promover a participação dos cidadãos. Singapura, por exemplo, está fazendo testes de mobilidade do futuro, com carros autônomos e uso de dados para o controle do trânsito. De toda forma, os fundamentos tecnológicos das cidades inteligentes e sensíveis são parecidos.

Quem deve ser responsável por desenvolver as novas tecnologias das cidades?

Deveria haver uma colaboração próxima e uma sinergia entre todos os atores. Acredito que os governos deveriam estabelecer a regulação e deixar as empresas e as pessoas inovar.

O custo das tecnologias urbanas inteligentes é alto?

Elas podem ser baratas, pelo menos alguns anos depois de lançadas. Os celulares são um exemplo. Quando surgiram, eram caros e exclusivos da classe alta ocidental. Hoje, quase todo mundo consegue ter um celular, e eles estão gerando exemplos promissores de superação em países emergentes, como o lançamento de aplicativos bancários em diferentes partes da África.

O que é necessário haver em uma cidade sensível?

Eu diria que cidadãos inteligentes são o elemento único mais importante para uma cidade sensível. Não me refiro apenas ao conhecimento tecnológico mas também à preparação cívica.

Quais os desafios para as cidades se tornarem inteligentes?

Eles decorrem da falta de conexão entre as ferramentas regulatórias, em geral criadas na era industrial, e a realidade urbana que está se desenvolvendo na era digital. A adaptação é um processo que já está em andamento em muitos lugares.

Em cidades nas quais muito mais dados são capturados, como ficará a proteção da informação?

Nossas atividades estão gravadas na nuvem, em dados que são de propriedade de algumas das empresas mais valiosas do mundo. Como evitar o monopólio dos dados? Eu preferiria uma sociedade em que o valor viesse não dos dados e dos monopólios mas do que se pode extrair deles. Essa é uma preocupação.