“Ingerência tem de acabar”, diz acionista sobre BRF

Para Peter Taylor, diretor da Aberdeen, que tem 5% do capital da BRF, as falhas na governança estão entre os principais problemas da empresa

Dona de 5% do capital da empresa de alimentos BRF, a gestora britânica Aberdeen Standard Investments já declarou publicamente que vai apoiar as mudanças no conselho de administração da companhia e votar a favor da chapa proposta pelos fundos de pensão Petros e Previ. Peter Taylor, diretor da Aberdeen responsável pela área de renda variável no Brasil, diz por que acredita que a BRF deve mudar.

O que mais prejudicou a BRF nos últimos dois anos, quando a empresa acumulou um prejuízo de 1,5 bilhão de reais? 

A BRF enfrentou alguns desafios externos a seus negócios, como a desaceleração do consumo no Brasil. Mas isso só explica parte das dificuldades. A empresa teve problemas sérios ao executar o plano de mudanças desenhado alguns anos antes. A troca de equipes e a perda de executivos importantes para a concorrência prejudicaram os negócios.

Alguns analistas criticam o plano de mudanças, afirmando que a empresa descuidou da parte industrial e ficou menos produtiva. O senhor concorda?

O diagnóstico, realizado alguns anos atrás, de que a empresa precisava mudar tinha pontos corretos. A BRF é dona de marcas muito valiosas, que devem ser valorizadas. A expansão internacional também é algo importante. Mas a execução da estratégia foi problemática.

Como é possível corrigir isso?

A BRF precisa normalizar sua governança. A empresa não pode ser controlada por um grupo pequeno de acionistas minoritários, como aconteceu nos últimos anos. Ela também não pode ter conselheiros mais preocupados com os próprios problemas do que com a com-panhia. Apoiamos a troca do conselho de administração, como foi proposto pelos fundos de pensão, porém esse conselho não deve ser responsável por administrar a BRF. Muito menos os acionistas. Isso deve ficar a cargo dos executivos da companhia.

A presidência da BRF deve mudar?

Não são os acionistas que devem decidir isso. Cabe aos acionistas escolher o conselho de administração, e esse conselho decidirá se precisa haver mudanças na administração. Houve muita ingerência dos acionistas na gestão da companhia nos últimos anos, e isso tem de acabar. 

O fato de a assembleia que vai deliberar sobre o novo conselho ter sido marcada apenas para o final de abril não é um problema? A empresa ficará à deriva até lá?

É claro que seria melhor resolver isso antes, e acabar com a incerteza para funcionários, investidores e para o mercado em geral. Mas, ainda que leve mais tempo do que o desejado, estamos confiantes que a chapa proposta pelos fundos de pensão será aprovada.