Idealismo ou cálculo de Sarkozy sobre Kadafi?

Nicolas Sarkozy diz que decidiu agir contra Muammar Kadafi por razões humanitárias. Mas há quem veja aí uma tentativa de evitar o naufrágio do projeto de reeleição em 2012

A França de Sarkozy enlouqueceu?” Este é o título de um artigo publicado, nestes dias, na mídia americana. Não existem, pelo menos até aqui, evidências que sugiram que a França deva procurar um alienista urgentemente. Mas que alguma coisa importante mudou, e mudou profundamente, isso é inegável.

Pela primeira vez na história da Quinta República, moldada pelo presidente Charles De Gaulle em 1958, a França está metida simultaneamente em três guerras. Tropas francesas estão, neste momento, no Afeganistão, na Costa do Marfim e — com grande estardalhaço — na Líbia.

O Afeganistão é um caso à parte, é verdade. A França apenas seguiu, ali, os ditames da ONU — e sua presença tem sido a de um coadjuvante. Mas na África — onde se localizam a Líbia e a Costa do Marfim, dois países que enfrentam guerras civis — a França tem feito muito barulho e agido como real (e controvertido) protagonista. Por motivos óbvios, a maior polêmica em torno das ações francesas se dá em relação à Líbia.

O presidente Nicolas Sarkozy decidiu ajudar militarmente os que se insurgiram contra a ditadura de quatro décadas do coronel Muammar Gaddafi antes mesmo de receber luz verde da ONU. Sarkozy seguiu as recomendações que recebeu, por telefone, do excêntrico e influente filósofo Bernard-Henri Lévy.

Numa viagem ao Egito, Lévy fez uma pausa e foi para o território controlado pelos rebeldes na Líbia num momento em que a repressão de Gaddafi parecia prestes a esmagá-los. Na conversa com Sarkozy, Lévy disse ter visto bandeiras francesas entre os opositores. Se a França não fizer nada, as bandeiras ficarão “manchadas de sangue”, disse Lévy. Em pouco tempo, jatos militares franceses estavam preparados para atacar as forças de Gaddafi.

Não demorou muito, também, para que uma questão emergisse: a presteza com que Sarkozy atirou a França no combate a Gaddafi é fruto de um genuíno espírito libertário ou de um estudado cálculo político?


Em favor da primeira hipótese, falam os ecos históricos de um país que consagrou, antes de todos os outros, os ideais da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Em favor da segunda, fala a complicada situação política de Sarkozy. A um ano das eleições presidenciais nas quais concorrerá ao segundo mandato de cinco anos, Sarkozy tem índices de popularidade que não têm feito nada senão cair.

Apenas um entre cinco franceses acha que ele está fazendo um bom governo. Quando se instalou no Palácio dos Campos Elíseos, Sarkozy tinha a aprovação de três quartos de seus conterrâneos. Sua impopularidade se traduz nas recentes pesquisas eleitorais. Duas delas mostram que ele está ameaçado de nem sequer ir ao segundo turno. (Como no Brasil, os dois candidatos mais votados no primeiro turno se enfrentam depois, a não ser que o candidato vitorioso tenha maioria absoluta de votos.)

Novidades à esquerda e à direita

Sarkozy, com seu partido de centro, o UMP, está acossado pelos dois lados. Pela esquerda, o Partido Socialista apresenta a possível candidatura do economista Dominique Strauss-Kahn, diretor executivo do FMI e um homem de grande prestígio na França.

Pela direita, Marine Le Pen, da Frente Nacional, tem aparecido nas enquetes com intenções de voto sem precedentes na conturbada história de seu partido. Marine amorteceu consideravelmente a percepção de racismo que cercava a Frente Nacional na era de seu pai, Jean-Marie Le Pen.

“A súbita paixão de Nicolas Sarkozy por operações militares desperta suspeitas de que ele esteja tentando compensar fora aquilo que perdeu em casa”, escreveu recentemente um respeitado blogueiro francês.

Sarkozy chegou ao poder com a promessa de chacoalhar uma França que parecia mentalmente estagnada — com os inevitáveis desdobramentos na economia. Era um homem diferente sob vários aspectos.

Ao contrário da maior parte dos presidentes franceses, não passara pela École Nationale d’Admi­nis­tra­tion, fundada por De Gaulle em 1945 para abastecer de quadros os serviços públicos nacionais. Também não se constrangia, coisa rara entre os orgulhosos franceses, em elogiar abertamente o modelo anglo-saxão de capitalismo.


Era basicamente isso que prometia implantar na França. Seus planos perderam a força quando premissas importantes desse modelo pareceram estar na raiz da crise financeira planetária do final da década de 2010. Desregulamentação, antes uma palavra pronun­ciada num regime de louvor, passou a ser quase um anátema, sobretudo quando aplicada ao sistema financeiro.

Bancos que tinham se aproveitado da desregulamentação para inflar espetacularmente seus lucros com manobras arriscadas acabaram tombando. Muitos só não desapareceram porque os governos intervieram com socorros multibilionários, destinados a evitar que os problemas acabassem contaminando a economia e trazendo mundo afora recessões ferozes.

A crise financeira como que tirou de Sarkozy a plataforma com a qual ele se elegera. “Ele é hiperativo, ele é ambicioso, ele é um workaholic, ele nunca descansa”, diz Anita Hausser, autora de uma biografia de Sarkozy. Ele é tudo isso. E é também, hoje, um presidente sem rumo.

A pane econômica mundial parece ter mostrado aos franceses que, pensando bem, era melhor ficar do jeito que estavam — trabalho moderado, muitas férias, tempo para beber vinho, comer queijos, conversar e flanar em parques esplêndidos, como o Jardin du Luxembourg — do que aderir a uma transformação radical inspirada no capitalismo anglo-saxão.


No ano passado, um projeto de Sar­ko­zy de am­pliação (ligeira) da idade prevista para a aposentadoria dos franceses enfrentou resistência épica das centrais sindicais francesas. A França é um exemplo raríssimo, no mundo contemporâneo, de país em que os sindicatos podem comandar greves em alta escala. O projeto afinal saiu, mas — como era de prever — em na­da contribuiu para o prestígio de Sarkozy.


Na falta de conquistas expressivas na Presidência, o maior troféu de Sarkozy, até aqui, é sua segunda mulher, Carla Bruni-Sarkozy. Mal iniciou sua jornada no poder, foi abandonado pela primeira mulher, Cécilia. Ela foi morar nos Estados Unidos, na companhia de outro homem.

Com sua beleza exuberante e seu passado romanticamente frenético — em que teve aos pés astros do rock, como Mick Jagger e Eric Clapton, e no qual se declarou se­xual­men­te uma poliandra, ou seja, admiradora de homens e mulheres —, Carla Bruni preencheu espetacularmente o vazio de primeira-dama na França.

Credita-se a ela a ampliação do repertório de Sarkozy para além das fronteiras toscas da política, economia e esporte. Carla teria despertado no marido algum gosto pelas artes.

É um casal bem ajustado, aparentemente. Numa inconfidência, a primeira-dama americana, Michelle Obama, disse ter ouvido de Carla Bruni-Sarkozy que, numa visita à Inglaterra, ela e o marido chegaram tarde a uma recepção oferecida pela rainha porque se atrasaram fazendo sexo pela manhã.

Carla traz glamour para Sarkozy, e aparentemente uma vida romântica sem tédio, mas não votos. Os franceses, até Sarkozy, estavam acostumados a presidentes cuja vida privada se passava longe da mídia, com absoluta discrição.

É dentro desse quadro que as ações militares — sobretudo na Líbia — podem render dividendos à candidatura claudicante de Sarkozy. Isso, é claro, se o objetivo de remover Gaddafi for alcançado.

Passadas algumas semanas da decisão da ONU de apoiar militarmente os rebeldes líbios, está claro que tirar Gaddafi é muito mais difícil do que fora varrer ditaduras na Tunísia e no Egito. O que poderia ser uma solução para as pretensões de reeleição pode se converter num problema a mais para Sarkozy.