O homem que calculava está por trás da Netmovies

A cabeça matemática de Daniel Topel está por trás do sucesso da locadora online NetMovies, que deve crescer 350% neste ano

O matemático persa Beremiz Samir, personagem fictício criado pelo autor brasileiro Malba Tahan, usava números para resolver qualquer tipo de problema. Viajando pelo deserto, ele fazia cálculos para resolver questões nebulosas, como o enigma matemático que propõe a divisão de 35 camelos entre três irmãos. Samir, protagonista do livro O Homem Que Calculava, usava a combinação dos números como aliada. Foi o mesmo truque que Daniel Topel, fundador e presidente da videolocadora online NetMovies, empresa líder do setor no Brasil, aprendeu a usar ao longo dos anos. Formado em física e mestre em engenharia, o paulistano Topel construiu sua carreira misturando a matemática ao mundo dos negócios.

Seu primeiro emprego depois de concluir o mestrado na prestigiada Universidade Stanford foi numa empresa de software chamada Applied Decision Analysis (ADA). Foi lá que ele também começou a aliar variáveis numéricas a informações de mercado para simular cenários futuros. Na época, o conceito foi aplicado nos setores farmacêutico, automobilístico e de transportes, entre outros. Mais tarde, ao somar o conhecimento de elaboração de métodos quantitativos a uma veia empreendedora, Topel passou a usar os cálculos a seu favor. “Ele sempre foi um crânio e muito empenhado na solução dos desafios”, diz André Levy, seu colega em Stanford e com quem trabalhou na ADA.

Durante quatro anos, o fundador da NetMovies amadureceu ideias e modelos matemáticos para colocar de pé o negócio da videolocadora. O modelo, semelhante ao da americana Netflix, é complexo, formado por complicadas regras que definem a logística de entrega e retirada dos DVDs. Quando percebeu que não conseguiria fazer a entrega dos discos pelo correio, Topel começou a estudar as possibilidades de se associar a transportadoras. Mas, em vez de conseguir descontos, decidiu aliar o conhecimento de processos logísticos acumulado na Ilog, empresa em que trabalhou de 2000 a 2007 elaborando software de informações de negócio aplicado a operações logísticas, para tornar-se parceiro das transportadoras. “Eu me oferecia para melhorar o processo deles em troca da associação”, diz. Aplicando números aqui e ali, o negócio foi se mostrando eficiente.

Os conhecimentos matemáticos também foram aplicados na própria empresa. Quem assina o serviço da NetMovies recebe um número determinado de filmes em casa (um, dois ou três) – e não tem prazo para devolvê-los. Ou seja: não há como estimar quanto tempo determinado título ficará indisponível para os outros clientes. O usuário pode definir manualmente uma lista do que deseja receber em casa, mas quem dá o veredicto sobre os filmes que serão entregues nas residências são os algoritmos criados por Topel e sua equipe.


Os cálculos envolvem disponibilidade de estoque, endereço, preferências e outras variáveis e são desenhados para atingir o nível máximo de satisfação dos usuários. É um sistema sobre o qual Topel procura falar pouco, mas que ele garante ser o diferencial da empresa. Apenas quatro meses depois de a NetMovies iniciar suas atividades, ainda em 2006, a concorrente Flexfilmes, que havia sido lançada seis meses antes, acabou colocando a operação à venda – prontamente arrematada pela NetMovies. “Eles tinham quatro vezes mais filmes, mas nosso sistema permitiu um nível de eficiência mais alto”, diz.

Aplicando números aqui e ali, o negócio cresceu. Após três anos de operações, a NetMovies soma hoje cerca de 70 funcionários, 20 000 filmes no acervo e a compra de três de seus quatro maiores concorrentes: Videoflix, Pipoca Online e Flexfilmes (o único grande concorrente que restou é a Blockbuster Online, do grupo B2W). Para 2010, a meta é aumentar em 350% o faturamento de 2009, o que significa fechar o ano com receita de mais de 50 milhões de reais. Além de crescer o negócio de locação – que já tem cobertura em quase 100 cidades -, a NetMovies vai abrir uma nova linha de receita: a publicidade geolocalizada.

Unindo as informações sobre o endereço dos assinantes com suas preferências cinematográficas, Topel pretende vender o espaço nos envelopes dos filmes para anúncios hiperdirecionados. “Posso garantir que o anunciante vai ter impacto em mulheres, em determinado bairro e de uma faixa etária específica, por exemplo”, diz. Além disso, a empresa aposta em novas mídias e formatos, como os vídeos online, serviço lançado no ano passado e que hoje soma 1 500 títulos que podem ser assistidos via streaming. As iniciativas da americana Netflix também dão mostras dos caminhos que a empresa deverá percorrer por aqui.

Lá, por exemplo, os filmes podem ser baixados por aparelhos de videogame como Xbox ou Playstation, e o usuário assiste ao filme no televisor. No começo de agosto, a Netflix pagou 1 bilhão de dólares pelos direitos de oferecer também via internet filmes dos estúdios Paramount Pictures, Lions Gate e MGM. “São ofertas que nós planejamos poder disponibilizar para os usuários brasileiros em breve”, diz Topel.

O presidente da NetMovies é conhecido por perseguir suas ideias obsessivamente. Igor Heinzer, com quem Topel morou e também trabalhou durante sua temporada nos Estados Unidos, diz que o colega sempre foi reconhecido por seu comprometimento. “E isso sem perder a esportiva”, afirma. Certa vez, quando os amigos o chamaram para fazer snowboarding em Lake Tahoe, na Califórnia, Topel aceitou, mesmo sem experiência alguma no esporte. Enquanto eles seguiram para a montanha com equipamentos e trajes apropriados, o iniciante os acompanhou usando jeans.


Topel passou três dias caindo na neve, enquanto os demais se divertiam à sua custa. Mesmo assim, ele reagia a tudo com bom humor e novas tentativas. “É muito parecido com seu perfil profissional”, diz Heinzer. “Ele não desiste de algo que esteja decidido a fazer.” Há quem diga, no entanto, que tamanha obsessão pode atrapalhar em negociações. “Ele é muito ansioso e, às vezes, não parece muito disposto a ouvir”, diz um executivo de uma empresa que negociou uma parceria com Topel.

Mesmo dentro da NetMovies, os funcionários de longa data são os que conseguiram de alguma maneira se adaptar à forma de trabalho do chefe. “Ele sempre responde a uma nova ideia questionando tudo o que acha que pode dar errado, e isso pode soar como um balde de água fria”, diz Gustavo Capistrano Haramuro, gerente de operações da NetMovies desde 2007. “Mas é o jeito dele de avaliar sua sugestão. Se ele comprar a ideia, vai defendê-la até o fim.”

O perfil de Topel agradou à holding Ideiasnet, que no início deste ano investiu 4,5 milhões de reais na NetMovies. “Pela própria formação acadêmica do Daniel, já é possível perceber que se trata de uma pessoa diferente”, diz Marcelo Almeida, diretor de desenvolvimento de negócios da Ideiasnet, empresa listada na Bovespa que também tem participação em companhias de base tecnológica.

O apoio do investidor representou o fôlego necessário para alcançar o objetivo que, desde o início, os números indicaram como fundamental: escala. Agora, a NetMovies busca variar seus canais de negócios para cumprir a meta de crescimento exigida pelo investidor, que possui 52,8% da empresa. Diz o ditado que “números não mentem”. Mas a criação das fórmulas que apontam para os resultados certos depende do matemático. É aí que Topel comemora sua formação: “Para alguma coisa a física tinha de servir”.