Governos não geram riqueza – pessoas e empresas, sim

Para o historiador econômico Joel Mokyr, quem cria prosperidade são pessoas e empresas. Cabe ao Estado facilitar o crescimento — e não atrapalhar

São Paulo — O historiador econômico naturalizado americano Joel Mokyr costuma estar no grupo dos otimistas quando o assunto é o futuro. Professor na Universidade Northwesterm, em Chicago, Mokyr dedica-se ao estudo das rotas que levam as nações ao progresso e ao desenvolvimento.

Para o economista, que nasceu na Holanda, cresceu em Israel e fez carreira acadêmica nos Estados Unidos, apenas o esforço colaborativo entre a iniciativa privada e os governos pode gerar prosperidade. “As pessoas só criam riqueza quando são dadas as condições para isso”, diz.

Considerado um dos maiores especialistas do mundo em economia industrial moderna, Mokyr avalia que o Brasil criou algumas indústrias bem-sucedidas — como a aeronáutica — e deveria replicar essas experiências para fazer produtos de alta tecnologia.

Para isso, o Brasil precisa ter universidades de qualidade que formem uma mão de obra capacitada a lidar com as novas tecnologias que estão sendo criadas mundo afora. “A inovação de ponta é tarefa para os países muito ricos”, afirma Mokyr. “O Brasil deveria focar em manter-se atualizado e ter capacidade de adotar de forma rápida e eficiente as invenções feitas em outros lugares.”

Autor de mais de uma dezena de livros que mostram o que a história econômica tem a ensinar ao presente, Mokyr concedeu a seguinte entrevista a EXAME.

Exame – Nos últimos anos ganhou força no Brasil a ideia de que o Estado é capaz de orientar o crescimento. Isso realmente funciona?

Mokyr – São as pessoas que geram riqueza, mas é trabalho dos governos criar as regras e o ambiente para a economia funcionar. As pessoas só criam riqueza quando são dadas as condições para isso. A produtividade cresce por muitas razões, e algumas delas exigem, sim, a intervenção do Estado.

É sabido há tempos que não se pode confiar tudo à iniciativa privada, caso contrário, a sociedade não terá, por exemplo, o sistema educacional ou a infraestrutura de que necessita. O que precisa existir é um esforço colaborativo entre a iniciativa privada e os governos. Quando o Estado funciona de forma eficiente, o que nem sempre é o caso, consegue-se um arranjo que funciona extremamente bem.

Exame – O Brasil enfrenta uma profunda recessão e a presidente Dilma Rousseff acabou de ser afastada. No que o governo brasileiro falhou?

Mokyr – O problema com os governos é que eles podem ser conduzidos por pessoas que são incompetentes ou corruptas — ou os dois. É como um casamento ruim: você não consegue viver com ele, mas não consegue viver sem ele. Isso é uma questão importante para as economias emergentes, e o Brasil não está sozinho. Venezuela, China e Rússia também sofrem com a corrupção e a incompetência.

Também não ajuda se meter em projetos como os Jogos Olímpicos — um completo desperdício de dinheiro. Mas existem também exemplos de países que já foram problemáticos e conseguiram se reinventar, como Singapura e Coreia do Sul, que cresceram rapidamente e se transformaram em economias poderosas. A fonte de problemas não é o Estado, a instituição em si, mas um mau governo.

Exame – E o que fazer diante de um mau governo?

Mokyr – A discussão não é como nos livrar dos governos, mas como podemos ter certeza de que há instituições que nos deem chances mínimas de ter um bom governo. Isso é difícil porque depende de como o sistema polí­tico está estruturado, quão sensível ele é à opinião pública. E mais: a qualidade dos políticos que esse sistema acaba atraindo.

Quem são as pessoas dispostas a conduzir a nação? Esses políticos são os Barack Obama do mundo ou os Donald Trump? Houve um momento no Brasil em que se pensou que Luiz Inácio Lula da Silva seria o político que conduziria a transformação da nação — mas hoje se vê que não foi.

Exame – O Brasil gastou dezenas de bilhões de reais para incentivar alguns setores da economia. Esse tipo de iniciativa funciona?

Mokyr – Os países precisam de lei e ordem. Essa é uma das grandes mensagens do ganhador do Prêmio Nobel de Economia Douglass North, morto em 2015. Portanto, não acho que subsídios diretos e isenções tarifárias ao setor privado sejam necessários.

O que um governo precisa fazer é não colocar obstáculos no caminho, pedindo, por exemplo, dezenas de licenças antes de um empreendedor abrir seu negócio. E que, toda vez que se peça uma licença, seja preciso pagar por fora para um agente público.

Exame – No centro da crise brasileira está o maior caso de corrupção da história do país…

Mokyr – Burocracia e corrupção podem paralisar uma economia. Não acho que esse seja o caso do Brasil. Há países em situação muito pior. Na Rússia, na Venezuela e em algumas repúblicas da Ásia Central, por exemplo, a corrupção e a burocracia impedem que o setor privado se desenvolva.

Todo país tem algum nível de corrupção. Ela existe na França, na Espanha, nos Estados Unidos. O problema é quando a corrupção se torna generalizada e está presente em qualquer interação entre o governo e o setor privado.

Exame – E o que fazer quando a corrupção é descontrolada?

Mokyr – Na China existe uma rede de pagamentos espalhada por toda a economia. Mas ali perto está Singapura, que no aspecto étnico e cultural é muito similar à China e apresenta níveis de corrupção próximos aos dos países escandinavos, segundo o ranking da organização Transparência Internacional.

Hoje em Singapura não se veem traços de corrupção porque há um governo extremamente rígido que implantou um sistema que inibe essa prática. Ainda não está claro se todo o processo de combate à corrupção que o Brasil está fazendo agora alcançará o resultado esperado.

Mas o Brasil precisa libertar as pessoas e as empresas da preocupação constante em lidar com os agentes públicos e não acabar envolvido num escândalo de corrupção.

Exame – O que o Brasil precisa fazer para enfrentar a crise?

Mokyr – De imediato, é preciso colocar o sistema político em ordem, de modo que o governo se torne estável. O país precisa mostrar que conta com um sistema legal eficiente e capaz de cumprir os contratos. Só assim é possível incentivar os empreendedores locais, o que, consequentemente, atrairá também o capital estrangeiro.

Hoje, o Brasil aparece na 116a posição no ranking de facilidade de fazer negócios do Banco Mundial, atrás de países como Zâmbia e Uzbequistão. O Brasil é terrível em coisas muito simples, como o pagamento de impostos e as etapas para a abertura de um novo negócio. Tudo isso é fácil de mudar com um governo forte e determinado. São frutas relativamente à mão.

Exame – Há a percepção de que estamos perdendo parte das conquistas dos últimos 13 anos. Quais lições tiramos desse período?

Mokyr – Ninguém achou que o caminho seria linear e sempre em movimento de ascensão — pelo menos, não deveria ter achado. Houve um grande avanço no país nos últimos 20 anos — mesmo a despeito dos últimos anos de Lula e do mandato de Dilma Rousseff, em que não houve o melhor dos governos. No entanto, é fato que surgiu uma série de eventos que levaram o país a dar alguns passos para trás.

O Brasil vem sofrendo com a redução do preço das commodities, que afeta suas exportações, e pela desaceleração da economia chinesa. Também houve o declínio da cotação do petróleo, pegando a Petrobras. Acho que o Brasil tem um potencial fantástico e pode voltar aos trilhos, uma vez que a crise política seja solucionada. Quando isso acontecer, os investimentos deverão voltar à economia brasileira.

Exame – Na agricultura, setor em que há baixa intervenção estatal, o Brasil se tornou um dos maiores produtores de grãos no mundo. Há outros setores que poderiam fazer o mesmo?

Mokyr – Sim, o Brasil é um país rico e diverso. O setor agrícola, que é uma história de sucesso construída por empreendedores privados, pode se expandir ainda mais. O futuro tecnológico do campo está em engenharia genética, permitindo que as plantas e os animais possam resistir a condições climáticas mais extremas e necessitem de menos pesticidas e fertilizantes.

O Brasil tem várias indústrias bem-sucedidas, e eu não vejo por que isso não possa ser multiplicado — é claro, se houver uma força de trabalho capacitada e competitiva em termos globais. A Embraer é uma empresa que conquistou sucesso ao explorar um nicho no setor aeronáutico. O país poderia fazer o mesmo com novos produtos, como bicicletas elétricas e drones.

Exame – Mas o Brasil é considerado um país que investe pouco em inovação. Isso é possível?

Mokyr – Criar novas tecnologias e gerar inovação de ponta são coisas nas quais a maioria dos países em desenvolvimento não é muito boa. Isso é tarefa para países ricos e desenvolvidos, que têm as melhores universidades do mundo, os melhores cientistas e engenheiros.

Hoje, a fronteira tecnológica é criada em lugares como o Vale do Silício ou o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, ambos nos Estados Unidos. A maioria dos países emergentes, como o Brasil, até gera inovação, mas deveria focar em manter-se atualizada e ter capacidade de adotar de forma rápida e eficiente as tecnologias que estão sendo desenvolvidas em outros lugares.

Exame – O que o Brasil precisar fazer então?

Mokyr – A chave do sucesso nas economias emergentes que têm ido bem é investir pesadamente no capital humano. Só uma população educada faz a produtividade crescer e torna o crescimento econômico sustentável. O Brasil não precisa ter excelentes inventores, mas pessoas capazes de absorver e adaptar o que outros estão fazendo.

Para isso, é preciso ter boas universidades que treinem engenheiros, químicos e especialistas em ciência da computação. Países ricos, como a Alemanha, fazem isso. Quase todas as inovações desenvolvidas por lá em áreas como economia digital e novos sistemas de telecomunicações tiveram origem nos Estados Unidos.

Os alemães são muito bons em adaptar tecnologias, criando dispositivos incríveis com base nisso. Não há motivo para que o Brasil também não produza mais itens de alta tecnologia, sob a licença de inventores de ponta de outros lugares do mundo.