EXAME VIP — A geração fuga aponta o rumo da moda

Os jovens começam a sair das redes sociais e a adotar um estilo de vida mais low profile. Em que isso muda o mercado de consumo?

A geração do momento da indústria do entretenimento é a Millenium, a dos hábitos superconectados, superdigitais, superantenados, supertudo. Mas, enquanto essa de 30 e poucos anos surgiu gritando hipérboles nas redes sociais, outra, mais jovem do que ela, ascendeu no modo silencioso. A geração da moda agora, fala-se à boca pequena no círculo das tendências, é a denominada Exit, ou Fuga. Fuga porque, como se pulasse fora da tempestade digital, ela prefere a luz do dia à do celular, quer mais gastar saliva com amigos reais e menos os dedos teclando com os vir-tuais, e assume um estilo de vida que abraça as facilidades da tecnologia, mas conserva hábitos analógicos.

Os sinais da mudança de comportamento estão por todos os lados. A queda do Facebook, que em julho perdeu 119 bilhões de dólares em valor de mercado, não tem a ver só com o escândalo das fake news na última eleição americana, mas também com os 50 milhões de horas de acessos diários que Mark Zuckerberg admitiu ter perdido em sua rede.

A maioria dos desistentes tem até 24 anos, parcela considerável da fatia da juventude Exit, que está entre os millennials (pós-1985) e a recém-chegada geração Z (pós-1995), segundo a consultoria Box 1824, criadora do termo. Outros dados confirmam a migração da nuvem para o chão. A consultoria -Gartner registrou desaceleração de 5,6% na venda de smartphones no último trimestre de 2017 em relação ao mesmo período do ano anterior. Outro estudo, este da fabricante de aparelhos Motorola, aponta que 60% dos jovens reconhecem a necessidade de sair do celular e viver mais momentos offline.

Esse movimento não significa uma diminuição no acesso à tecnologia. Ao contrário. Nunca houve tantas pessoas com smartphone, mas sua renovação constante é, paulatinamente, reconsiderada nas compras do ano. É como se a nova geração estivesse discutindo a relação com o mundo dos bits.

“É uma saída parcial para ressignificar a relação”, explica Sofie Secaf, líder de estratégia da Box 1824 e coautora do estudo. “Assim como os millennials desafiaram sua relação com a mídia e exploraram a TV a cabo, os exits querem ressignificar a teia de aparências das redes sociais. Eles buscam imagens -reais, sem a perfeição do Instagram.”

Na indústria do consumo, essa busca ganhou nome, wellness, o bem-estar associado à calmaria da desconexão, um mercado de 3 trilhões de dólares em experiências de viagem, alimentação saudável e cuidados de beleza.

O passado ressurge: a volta da pochete, em desfile da Fendi em junho deste ano | Jacopo Raule/Getty Images

Quando se fala em consumo de alto padrão, os reflexos da escapada são mais evidentes. Os lançamentos de relógios e pequenos acessórios de vestuá-rio estão cada vez mais vinculados à herança embutida nos produtos. O relógio Mont-blanc Star Legacy Automatic Chronograph, lançado em janeiro, tem engenharia automatizada, mas recebeu espessura fina e a cara do modelo original de 1858. Já a Rolex relançou o Oyster Perpetual GMT-Master, relógio usado pela extinta linha aérea americana Pan Am. Atrelar essa viagem ao passado a uma estética vintage renovada é a cara do novo consumo jovem. Até as empresas do Vale do Silício cederam à mudança e fizeram uma parceria com a Hermès, epítome do luxo artesanal de couro, para lançar uma pulseira para o Apple Watch. Virou sonho de consumo dos fashionistas novidadeiros.

Montblanc Star Legacy Automatic, com cara vintage | Divulgação

As passarelas, aliás, desenharam o movimento nas temporadas do hemisfério norte. Os anos 80 e 90 permearam os desfiles com cores, modelagens e peças do passado. Foram recuperados o sneaker, o moletom folgado, os logos, as camisetas personalizadas com estampas, o jeans de cintura alta e a pochete. Gucci, Prada e Calvin Klein são grifes que olharam para a cultura urbana para criar um sentido de vintage moderninho. Ou seja, um sem-fim de referências que os adultos jovens preservam na memória e, agora, usam como escape da ansiedade que define a cultura digital.


Foto | Beck Diefenbach/Reuters

GADGET

O NOVO QUARTZO?

O Apple Watch ameaça a alta relojoaria suíça | por Ivan Padilla

Nos anos 70, a invenção do quartzo inundou o mercado de relógios japoneses baratos. Os suíços então simplificaram a produção, reduzindo o preço final. Uma nova ameaça paira agora sobre as montanhas do Jura. No último trimestre de 2017, foram vendidos 8 milhões de Apple Watchs, ante 6 milhões de unidades de toda a produção da indústria relojoeira suíça, segundo a consultoria Canalys.

A nova versão do smartwatch da Apple, lançada em setembro, permite montar eletrocardiogramas e detectar batimentos irregulares do coração — um bom apelo para quem tem mais de 45 anos, público da alta relojoaria. Marcas como Hublot e Tag Heuer se preparam para a briga e lançaram recentemente seus -smartwatches. E a Montblanc, especula-se, apresentará em breve seu novo modelo com dispositivos de cuidados com a saúde.