“Fizemos uma faxina sem precedentes”, diz diretor da Siemens

Para o diretor global de normas e conduta da multinacional alemã Siemens, não é fácil reconhecer e reparar erros, mas esse é o único caminho possível

São Paulo – Em 15 de novembro de 2006, centenas de policiais invadiram os escritórios da multinacional Siemens na Alemanha. A operação revelou o maior escândalo de corrupção empresarial da história — a empresa havia pago 1,4 bilhão de euros a políticos e funcionários públicos em troca de negócios em mais de uma dezena de países.

Em 2007, o alemão Klaus Moosmayer assumiu a direção mundial de normas e conduta (compliance) da Siemens. Conduziu as investigações e implantou um novo sistema antifraudes na empresa. O escândalo que envolve atualmente a Siemens na suposta formação de cartel para a venda de trens em São Paulo e Brasília é mais um esqueleto da bandalheira. De Munique, Moosmayer falou a EXAME. 

1) EXAME – No Brasil, a marca Siemens tem sido associada à corrupção. Como responsável da área de normas e conduta, o que o senhor tem a dizer sobre isso? 

Klaus Moosmayer – Não concordo com essa visão. A Siemens de hoje não é a mesma do passado. A companhia se transformou e tem um sucesso que jamais teve. Claro que os problemas de fraudes do passado foram dolorosos, mas não conheço outra empresa que tenha feito uma limpeza como fizemos. Essa purgação é difícil, mas acreditamos que vale a pena.

2) EXAME – O que o senhor achou do vazamento do caso?

Klaus Moosmayer – Entenda que não podemos comentar o caso. Respeitamos e cumprimos a lei brasileira e a exigência de confidencialidade. Quanto às reportagens que falam de decisões da Justiça alemã sobre 8 milhões de euros pagos como propina, afirmo que não sabemos nada desse assunto.

Já trabalhamos muito e continuaremos a trabalhar para descobrir negócios irregulares feitos no passado. Mas nem tudo o que hoje parece duvidoso é ilegal. É preciso avaliar cada caso. 

3) EXAME – Quando a empresa descobre sinais de fraude, tem de se autodenunciar imediatamente?

Klaus Moosmayer – Quando há sinais suficientes, sim. É claro que precisamos contar com autoridades profissionais e confiáveis. É preciso ter um ambiente que recompense quem trabalha dentro dos padrões legais e éticos. 

4) EXAME – Por que as empresas levam tanto tempo para expor casos de má conduta e fraude?

Klaus Moosmayer – Para reunir provas, temos de fazer investigações abrangentes. Na Siemens, criamos uma área com investigadores experientes contratados. Mas há casos antigos em que os funcionários já deixaram a empresa, e as evidências se foram. Às vezes, levamos anos para obter informações de autoridades públicas.

5) EXAME – Haverá mais casos como esse no Brasil?

Klaus Moosmayer – Mesmo o melhor sistema de controle não consegue prevenir más condutas individuais. Podemos controlar tudo? Não. Mas, se soubermos de algo, vamos investigar. 

6) EXAME – Que tipo de acordo a Siemens já fez para corrigir atos ilegais? 

Klaus Moosmayer – Fizemos um com as autoridades alemãs e americanas para encerrar um capítulo triste de nossa história. Foi um acordo alcançado em tempo recorde, 18 meses de investigações e cooperação com as agências reguladoras.

7) EXAME – Como está o Brasil na estrutura antifraude? 

Klaus Moosmayer – Um passo importante é a nova lei anticorrupção, que foi promulgada recentemente. Estou certo de que só a integridade pode ajudar a estabelecer um legado duradouro para a sociedade. Essa é uma das demandas dos protestos de rua.