O fim de uma dinastia na Santelisa

Como disputas familiares levaram a até pouco tempo atrás bem-sucedida Santelisa Vale a uma crise profunda -- e resultaram numa arrastada negociação de venda do controle

Segunda maior produtora de açúcar e álcool do país, a Santelisa Vale era até pouco tempo atrás o exemplo de uma companhia expansionista. Apoiada no crescimento do mercado de etanol, a empresa localizada em Sertãozinho, no interior de São Paulo, entrou em rota ascendente no início de 2003 e atingiu seu auge em 2007 com a fusão entre as usinas Santa Elisa e Vale do Rosário.

No mesmo ano, a Santelisa anunciou uma associação com a americana Dow para formar um dos primeiros polos no mundo para produzir polietileno com etanol. Quase ao mesmo tempo, atraiu o Goldman Sachs, que lhe garantiu um aporte de 400 milhões de reais. O passo seguinte seria fazer a abertura de capital.

A crise financeira mundial, evidentemente, não fazia parte do roteiro. Com uma velocidade incrível, ela soterrou os planos da Santelisa. Com uma dívida de 2,6 bilhões de reais, equivalente a seis vezes sua geração de caixa, a empresa hoje luta para sobreviver. No balanço da usina publicado no dia 3 de outubro e referente a seu ano fiscal concluído em março de 2009, os auditores da PricewaterhouseCoopers afirmam que têm “dúvida sobre a continuidade operacional da companhia”.

Encurralada por um grupo de 20 bancos credores liderados pelo Bradesco, a Santelisa está prestes a chegar a um acordo com a francesa Louis Dreyfus, numa negociação que se arrasta há cerca de dez meses. Até o fechamento desta edição, uma assembleia de acionistas estava marcada para o dia 16 de outubro para finalizar o processo. “A reunião é mera formalidade”, diz uma fonte próxima à negociação. “Todos os detalhes já foram acertados.” (Procurados, os acionistas da Santelisa Vale não deram entrevista.)

 
Outros dois acionistas, o BNDES e o Goldman Sachs, terão suas participações diluídas de 6% para 1% e de 17% para 3%, respectivamente. Os bancos credores devem converter 550 milhões de reais em dívidas em cerca de 10% de participação. Na nova configuração, as famílias Biagi e Junqueira — até agora controladoras da Santelisa — serão reduzidas a meros coadjuvantes, com 17% de participação total.
 
Trata-de algo simbólico para grupos familiares acostumados a estar à frente de seus negócios desde o início do século passado. “Não é fácil abrir mão do controle”, afirma um executivo próximo à negociação. “Mas não existia outra opção viável.”

Em janeiro, a Santelisa tinha nove ofertas de compra. No páreo estavam gigantes internacionais, como ADM, Bunge, Cargill, e as brasileiras Cosan e São Martinho, aliada ao GP Investimentos. Em abril, a Dreyfus já havia seduzido a maior parte dos membros das duas famílias ao oferecer a possibilidade de mantê-las como sócias — algo que os demais interessados descartavam.

Mas, enquanto a maior parte dos acionistas apoiava a venda do controle para a Dreyfus, uma facção defendeu uma manobra de resistência. Numa frente liderada por Cícero Junqueira Franco, parte dos acionistas tentou um acordo para levar a empresa à recuperação judicial. O plano era atrair o BNDES, reestruturar a companhia e manter o controle. “Eles insistiram até o último minuto porque não queriam perder espaço nas decisões”, afirma um executivo do setor.

Na época, os Junqueira contavam com dois dos sete assentos no conselho da Santelisa Vale. Embora minoritários, era o bastante para influenciar os rumos da companhia. Aos Biagi cabiam três cadeiras. Ao falhar em atrair o BNDES, porém, essa dissidência teve de capitular — e a partir de agora terá de se acostumar à perda de influência na condução do negócio. Com a chegada da Dreyfus, o conselho muda de tamanho e de configuração. Representantes da empresa francesa ocuparão seis dos nove lugares. Os bancos credores ficam com um. Aos acionistas da Santelisa Vale restará se conformar com dois lugares.


Nessa disputa por poder travada nos últimos meses, velhas divergências entre as famílias Biagi e Junqueira voltaram à tona. De acordo com pessoas próximas à Santelisa, os Junqueira ficaram desapontados com o desfecho do negócio porque nunca concordaram com o preço que os Biagi estavam dispostos a pagar pelo próprio expansionismo.

Em 2007, além de tomar um empréstimo de 1,3 bilhão de reais para comprar a Vale do Rosário, os Biagi investiram em diversos outros projetos paralelos. Como na época o dinheiro no mundo estava barato e disponível, eles não se intimidaram. No mesmo ano, os Biagi foram os principais articuladores da criação da Companhia Nacional de Açúcar e Álcool, parceria com a trading americana Global Foods e o fundo americano Carlyle Riverstone.

O plano era investir 2 bilhões de reais até 2009 para construir quatro usinas no país. Apenas duas estão concluídas. “Os Junqueira eram favoráveis a melhorar a operação das usinas da própria Santelisa, que nunca concluiu a integração com as usinas da Vale para obter sinergias”, diz um executivo que conhece de perto a operação.

A missão de reestruturar a nova companhia caberá ao engenheiro Bruno Melcher, executivo que fez carreira na Dreyfus e até agora presidia a LDC Bionergia. (A partir do dia da assembleia de acionistas, o executivo André Mastrobuono, contratado pelas famílias Biagi e Junqueira em janeiro para ocupar a diretoria-geral da Santelisa Vale, deixará o posto.)

Escolhido para ocupar a presidência, Melcher vai comandar a primeira experiência em que o grupo francês vai dividir poder com uma família de usineiros. Desde que chegou ao setor, em 2000, a Dreyfus construiu as próprias usinas. Na única aquisição anterior, a família controladora — os Tavares de Melo — vendeu 100% da participação. Além do desafio da governança, Melcher deverá preparar a nova empresa para um IPO, que deverá ocorrer nos próximos cinco anos.

A razão é abrir caminho para a saída de investidores como BNDES e Goldman Sachs. Até lá, o executivo também terá de vender algumas fazendas para comprar aos poucos parte das ações que ficaram nas mãos dos bancos credores. Por enquanto, a empresa vendeu apenas ativos da Crystalserv, trading da qual detém 73%.

O montante que resultou dessas vendas, porém, vai cobrir apenas as dívidas da própria trading — que tem uma negociação separada. Mais do que o retrato de uma empresa, o desmanche da Santelisa simboliza a mudança do perfil quase dinástico do setor. Hoje existem 50 usinas à venda no país, e companhias como Dreyfus e Bunge tendem a ganhar espaço. “Muitas das empresas familiares devem sumir”, afirma Júlio Maria Borges, diretor da JOB, consultoria de agronegócios.