Investimentos na produção seguem em queda no Brasil

Entre as maiores companhias do país, os investimentos no ano passado caíram 18%, segundo uma pesquisa para MELHORES E MAIORES

Quando uma empresa toma a decisão de investir na expansão de sua capacidade de produção de bens ou de prestação de serviços, em geral ela tem expectativa de aumento da demanda e vê um ambiente propício para obter um retorno superior ao capital que vai aplicar. A julgar pelo comportamento da elite empresarial brasileira nos últimos anos, porém, a maioria está tocando os negócios no presente sem apostar numa grande retomada.

Mesmo em 2017, quando o produto interno bruto cresceu 1% após dois anos de retração, os investimentos das grandes empresas encolheram. As 100 com maiores investimentos no imobilizado — item que inclui máquinas, equipamentos, instalações, fábricas, tecnologias e patentes — destinaram 114 bilhões de reais no ano passado, uma queda de 18% em relação ao ano anterior. Esse valor vem diminuindo ano após ano — o total aplicado em 2017 foi pouco mais da metade do destinado em 2012. É o que mostra um levantamento da Fipecafi, fundação ligada à Universidade de São Paulo responsável pela coleta de dados de MELHORES E MAIORES 2018, que chegará às bancas em agosto.

O pano de fundo para essa queda contínua dos investimentos é um cenário de economia fraca, no qual as empresas não conseguem repassar os custos e sofrem com o declínio da rentabilidade dos negócios. “Alguns setores estão com a capacidade ociosa, e as empresas não investem se não houver perspectiva de aumento do consumo e de participação no mercado”, diz Carlos Antonio Rocca, diretor do Centro de Estudos do Mercado de Capitais da Fipe (Cemec). “O grau de incerteza com o futuro próximo paralisa a decisão de investir ou a adia até que haja um cenário menos indefinido.”

Toque para ampliar

Entre as 100 empresas que mais investiram no Brasil em 2017, 48 reduziram os aportes em relação ao ano anterior. A Petrobras, líder do ranking, diminuiu os investimentos em 20%. Segundo Fábio Gallo, professor de finanças na Fundação Getulio Vargas, a estatal perdeu capacidade de investimento por causa do custo da corrupção e de políticas equivocadas do passado. O governo Dilma Rousseff impedia que a alta do petróleo no exterior fosse repassada integralmente aos preços dos combustíveis no mercado doméstico. “Os preços irreais dos combustíveis elevaram o endividamento da companhia”, diz Gallo. Em 2017, a Petrobras teve prejuízo líquido de 135 milhões de dólares — o quarto ano consecutivo de perdas. O resultado foi afetado por um acordo fechado para encerrar processos judiciais movidos por investidores nos Estados Unidos em razão de prejuízos causados pelo envolvimento da empresa nos desvios de recursos investigados pela Operação Lava-Jato.

Na contramão das empresas que congelaram os investimentos em 2017, algumas surpreenderam pelo apetite em expandir os negócios. A locadora de veí-culos Localiza, por exemplo, aumentou os aportes em 60%. Seu maior investimento foi na ampliação da frota, que cresceu 40%, chegando a 180 000 carros. “Esse investimento foi necessário devido à expansão de nossas atividades, apesar do cenário econômico desafiador”, diz Eugênio Mattar, presidente da Localiza. No ano passado, o número de diárias de aluguel de carros da Localiza cresceu 35%. Isso ajudou a empresa a aumentar sua participação de mercado em 3 pontos percentuais, para 32%.

Numa conjuntura política e econômica instável, a tendência das empresas é esperar que o quadro fique mais claro antes de se lançarem num novo empreendimento. Mas há projetos de atualização tecnológica que não podem esperar, sob o risco de comprometer a competitividade no futuro. Em 2017, a operadora de telecomunicações Claro viu a receita cair 6% e teve prejuízo de 278 milhões de dólares. Mesmo assim, aumentou seus investimentos em 15%. “Nossa prioridade tem sido a modernização e a ampliação da infraestrutura de fibra óptica”, diz José Félix, presidente da Claro, que lançou no ano passado o 4.5G, tecnologia tida como a mais avançada em redes móveis. Investir no momento atual pode parecer temerário, mas deixar de investir pode ser ainda mais arriscado.