Existe vida pós-Eike na Eneva

A geradora de energia Eneva, fruto da fusão da MPX com a OGX Maranhão, aproveita um plano de negócios bem desenhado para crescer. Mas sem euforia

economista carioca Pedro Zinner ficou conhecido em 2015 por desinflar publicamente um dos tantos números inflados do empresário Eike Batista. Na época, coube a Zinner avisar aos investidores que a “meia Bolívia de gás”, encontrada pelo então bilionário, simplesmente não existia. O anúncio de Eike foi feito em 2010, quando perfurou a Bacia de Parnaíba, no Maranhão. “Os relatórios diziam que tínhamos 13 vezes mais gás do que aquilo que encontramos até hoje. Eu fui o bad guy que disse: ‘Não tem gás’ ”, afirma. Zinner tem uma carreira ligada ao espólio de Eike.

Em 2015, ele estava à frente da Parnaíba Gás Natural (antiga OGX Maranhão) e desde 2017 preside a Eneva, companhia que é fruto da fusão entre duas ex-empresas do Grupo EBX. Seis anos após a derrocada de Eike, a Eneva é a remanescente que deu certo. De 2015 para cá, venceu uma recuperação judicial e passou de um prejuízo de 1,5 bilhão de reais, em 2014, para um lucro de 307 milhões, em 2018. Ex-diretor financeiro da mineradora Vale, Zinner recebeu EXAME numa pequena sala de reuniões na sede da Eneva no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, um escritório moderno, mas sem luxo. Nos últimos dois anos, ele trabalha para mostrar que por trás da megalomania de Eike estavam as bases de uma empresa promissora.

Para entender a reviravolta na Eneva, é preciso mergulhar na sopa de letras X que foi o grupo EBX. A Eneva é o resultado da fusão da MPX, focada em geração de energia por meio de usinas térmicas, com a OGX Maranhão, braço da petroleira OGX voltado para a extração de gás na Bacia de Parnaíba. No modelo original, a MPX seria cliente da OGX Maranhão, que forneceria o gás para suas usinas. O ponto crucial para a derrocada do grupo EBX foi prometer entregas vultosas para empresas que ainda não estavam em operação.

Foi o caso da OGX Maranhão e de sua “meia Bolívia de gás”. A empresa de energia MPX investiu em térmicas e assumiu contratos, mas o combustível da OGX não veio. Em 2014, a MPX teve o controle vendido ao grupo alemão de energia E.ON e mudou de nome para Eneva. No mesmo ano, o Cambuhy, fundo de investimento da família Moreira Salles, sócia do banco Itaú, assumiu o controle da OGX Maranhão, que mudou de nome para Parnaíba Gás Natural (PGN). Foi quando Zinner entrou na história e escancarou para o mercado a falta de gás da companhia.

Em 2016, as duas empresas se fundiram, mantendo o nome Eneva. Zinner assumiu o comando da companhia no ano seguinte. A empresa resultante retira do solo o gás que é usado como combustível nas usinas termelétricas, fechando a cadeia. A solução ajuda a dar destino ao gás encontrado nos rincões do país, onde gasodutos são escassos, mas existe a rede de transmissão de energia elétrica. “É um modelo visionário pensado pelo Eike. O problema foi ter vendido um sonho sem um plano de execução”, afirma Zinner.

O modelo de negócios se resolveu, mas a empresa ainda acumulava dívidas, que vêm sendo renegociadas há dois anos. Em outubro de 2017, a empresa diluiu seus acionistas em uma nova oferta de ações que levantou 850 milhões de reais. Todo o dinheiro foi para os credores. Em 2018, a dívida bruta era de 5,3 bilhões. Em março de 2019, acionistas levantaram 1,1 bilhão de reais em nova oferta, e o Itaú, ex-credor, saiu da companhia. Os maiores acionistas hoje são o banco BTG e o Cambuhy. Em abril, a agência de classificação de risco S&P atribuiu nota AAA à Eneva, numa chancela que tem ajudado a conseguir dinheiro mais barato. Em maio, a Eneva emitiu 2 bilhões de reais em debêntures, dos quais 1,5 bilhão foi para pagar dívidas antigas. A operação vai gerar uma economia de 25 milhões de reais por ano em juros. A intenção da empresa é fazer mais duas operações semelhantes e chegar a uma economia de 75 milhões por ano.

Pedro Zinner, presidente da Eneva: ex-diretor da Vale focou na execução | André Valentim

Depois de deixar o pior para trás, a Eneva olha para a frente. A companhia venceu um leilão de energia elétrica no ano passado e com isso está construindo mais uma usina térmica, batizada de Parnaíba 5, em Santo Antônio dos Lopes, na Bacia de Parnaíba, onde fica sua principal operação. A térmica vai usar como combustível o vapor gerado pela operação das outras quatro usinas a gás do complexo. “É um projeto de eficiência energética”, diz Giancarlo Ciola, diretor de relações institucionais da empresa. O investimento é de 1,3 bilhão de reais. Em outra frente, a companhia venceu em maio o leilão para abastecer o estado de Roraima, o único não ligado ao sistema elétrico nacional. O projeto terá investimento de 1,8 bilhão de reais e começará a gerar energia em 2021. O gás usado nesse projeto virá do campo de gás Azulão, no Amazonas, que pertencia à Petrobras e foi arrematado pela Eneva em 2017 por 150 milhões de reais. A Eneva vai liquefazer o gás e transportá-lo até Roraima de caminhão, abrindo uma nova, e mais complexa, vertente de atuação.

O crescimento da Eneva acontece em um momento importante para o setor. Em abril, a geradora francesa de energia Engie pagou 33 bilhões de reais pela Transportadora Associada de Gás, uma malha de gasodutos do Norte-Nordeste que pertencia à Petrobras. Em julho, o governo federal lançou o programa Novo Mercado de Gás, com a intenção de criar um “choque de energia barata” no país, nas palavras do ministro da Economia, Paulo Guedes. O modelo de negócios da Eneva está em linha com essa ideia, já que o gás usado pela empresa custa metade do valor do gás retirado do pré-sal. “A Eneva tem um projeto único no Brasil. Das empresas que vieram do grupo EBX, é a que está mais madura”, afirma Adriano Pires, sócio da consultoria Centro Brasileiro de Infraestrutura.

Eike Batista: o empresário foi condenado a oito anos e sete meses de prisão por manipulação do mercado | José Lucena/Futura Press

Duas das empresas que faziam parte do conglomerado de Eike ainda estão em recuperação judicial: a MMX, de mineração, e a OSX, de construção naval. A CCX, de produção de carvão da Colômbia, está em vias de encerrar as atividades e não gera mais receita. A Dommo, novo nome da petroleira OGX, encerrou a recuperação judicial em 2017. No ano passado, teve um prejuízo de 670 milhões de reais. Fora a Eneva, a Prumo (ex-LLX) é a que está em melhor situação. Responsável pelo Porto de Açu, no Rio de Janeiro, a companhia hoje é controlada pelo grupo americano EIG e planeja investir 16 bilhões de reais até 2023. Eike Batista permanece como sócio em algumas das companhias (veja quadro) e voltou ao noticiário recentemente. No dia 30 de setembro, foi condenado a oito anos e sete meses de prisão por manipular o mercado de ações. Segundo a sentença, o empresário teria usado informação privilegiada para obter vantagem na venda de ações da OSX em 2013. A condenação é de primeira instância e a defesa do empresário disse que vai recorrer. Os advogados de Eike não responderam ao pedido de entrevista.

Como já concluíram que não encontrarão “Bolívia” nenhuma em suas explorações, os executivos da Eneva passaram a investir 100 milhões de reais todo ano para ampliar suas reservas. A empresa tem uma área explorável de 40.000 quilômetros quadrados — na época da OGX Maranhão eram 21.000. Hoje, a Eneva tem 21 bilhões de metros cúbicos de gás à disposição, e isso permite honrar os contratos atuais. As quatro usinas em operação no Maranhão demandam no máximo 2,9 bilhões de metros cúbicos ao ano, quando operam com 100% da capacidade — hoje elas ficam metade do tempo em funcionamento. Se nas empresas de Eike o problema era o excesso de promessas, na Eneva a regra é evitar promessas. “Eles não prometem nada e entregam muito mais do que estava previsto. São muito disciplinados na alocação de capital”, afirma Ilo Emerenciano, analista da HIX Capital, gestora que tem 273 milhões de reais em ações da Eneva.

O estilo conservador fez com que os executivos da Eneva redobrassem a cautela após a divulgação da notícia de que encontrou indícios de petróleo em um de seus poços no Maranhão no final do mês passado. Não foi a primeira vez que a empresa achou indícios de óleo em seus campos. Das outras vezes, as descobertas não se mostraram viáveis economicamente, segundo apurou EXAME. Em comunicado, a Eneva ressaltou que a viabilidade econômica de uma possível descoberta só será conhecida dentro de um ano. Internamente, o temor é que a notícia precipitada possa movimentar as ações de maneira artificial. Na Eneva, o estilo que impera é o inverso de Eike.