J.R. Guzzo — Está faltando vida inteligente para ser presidente

Somando tudo o que existe na cabeça dos que querem ser presidente da República, não se encontra nada que se assemelhe a uma ideia nova, ou mesmo velha

A experiência, essa excelente companheira para tantos momentos da vida, é o tipo de virtude que perde potência quando precisa ser aplicada para iluminar situações que nunca aconteceram antes. É o diabo. Justo na hora em que a pessoa experiente deveria ser mais útil, para mostrar o caminho do barco no meio do nevoeiro, fica claro que ela também não sabe para onde ir. Não sabe por um motivo bem simples: nunca esteve lá antes. É mais ou menos o que está acontecendo com essa miserável campanha eleitoral para a Presidência da República, cada vez mais ameaçada de começar no fundo do poço, onde está agora, e acabar no mesmo lugar onde começou.

Vale pouco, aí, consultar as pessoas tidas como experientes. Elas nunca viram acontecer neste país, até hoje, um momento eleitoral parecido com o que está acontecendo agora — e tudo o que podem fazer é dar palpites, como qualquer desses analistas políticos e institutos de pesquisas que você encontra em cada esquina. O que não sabem é distribuído em porções mais ou menos iguais entre todos, sejam ou não “do ramo”, tenham ou não experiência de outras eleições. A soma de tudo é pouco mais que zero.

Nunca se viu numa eleição presidencial brasileira, como neste 2018, dúvidas tão escuras como as de hoje — a quatro meses do dia de votar, não há favoritos, subfavoritos, candidatos com grande potencial para acabar no meio da turma, possíveis corredores por fora, fechadores óbvios de raia, e por aí afora. Nunca, também, houve um grupo comparável de nulidades, picaretas e desqualificados entre os candidatos — como se, após estes anos tensos de combate à corrupção, os sobreviventes em condições de se candidatar fossem tão ruins ou ainda piores do que seus antecessores. Seu principal mérito, ao que parece, é terem conseguido escapar da cadeia.

Nunca houve, enfim, uma ausência de vida inteligente tão agressiva como na campanha atual — e olhem que no passado recente houve duas eleições com a presença de Dilma Rousseff entre os competidores. Somando tudo o que existe dentro da cabeça dos que querem ser presidente da República, não é possível encontrar nada que se assemelhe a uma ideia nova, ou mesmo velha, ou uma proposta compreensível para a solução de algum problema, ou um projeto com um mínimo de coerência. Alguns deles, francamente, dão a impressão de estar sofrendo de alguma forma de problema mental — algo de que este país realmente não precisa, depois de suas recentes experiências no gênero.

Estão em ação, além disso, outros fatores que embaçam o vidro. A campanha será bem mais curta do que de costume. Não haverá a monstruosa gastação de dinheiro, vindo de doações privadas ou roubado da máquina pública, que houve nas últimas disputas — na eleição de 2014, para ficar no exemplo mais recente, a campanha de Dilma declarou ter gastado 300 milhões de reais.

O tempo de horário eleitoral obrigatório no rádio e na televisão será mais curto neste ano — vamos ter toneladas de falação estúpida, vídeos falsificados e outras trapaças a menos. Este ou aquele candidato (e, a esta altura, ninguém põe a mão no fogo por absolutamente ninguém) pode ser acertado, a qualquer momento, por algum obus da Lava-Jato ou coisa parecida — caso em que irá a pique em menos tempo do que você gasta para comer um misto-quente. O político mais conhecido do Brasil, que queria ser candidato já na eleição de 2014, e era o nome certo para a de 2018, está na cadeia, cumprindo pena de 12 anos por corrupção e lavagem de dinheiro. Enfim: não há lembrança de um quadro tão infame como este nas eleições presidenciais brasileiras dos últimos 30 anos. 

É um problemaço. Países bem-sucedidos têm a ventura de não precisar de governos para se manter na prosperidade; ganhe “A” ou ganhe “B”, o essencial fica mais ou menos na mesma. Mas o Brasil não é um país bem-sucedido. Isto aqui deu errado. Não vai endireitar porque vem outro para o lugar de Michel Temer. Em compensação, conforme quem vier, pode piorar muito.