O mundo da estética masculina está de cabeça para baixo

A vaidade é tão velha quanto o homem. Mas há muita coisa nova acontecendo

Vaidade masculina é um assunto tão velho quanto o homem. Consta que os egípcios se enfeitavam com guirlandas de flores para comparecer a jantares especiais. Também faziam cirurgias de nariz - uma dor tremenda quando não se tem anestesia. Os gladiadores romanos e atletas cretenses besuntavam-se de óleos perfumados antes de suas lutas, assim como os índios pintavam o corpo para guerrear.</p>

Uma mandíbula maia, encontrada em 1929, mostra que entre aquele povo já se faziam implantes dentários estéticos. No lugar das resinas e porcelanas de hoje, os maias usavam conchas do mar. E os franceses d antanho com suas gravatas, perfumes e perucas brancas empoladas?

Agora existe uma considerável quantidade de coisas novas no que diz respeito a esse tema. Já não há nenhuma razão para que narigudos, orelhudos e barrigudos sejam condenados a carregar esses fardos até o fim de seus dias. Houve um tempo em que os calvos não tinham outra escolha a não ser os horrorosos implantes de tufos de cabelos sintéticos cujo resultado lembrava uma boneca Barbie. Ou patéticas perucas.

Era isso ou consolar-se com a toada de que é dos carecas que elas gostam mais. Não mais. O avanço das técnicas cirúrgicas somado a uma redução dos preços cobrados pelos cirurgiões está revolucionando o mundo da estética masculina. Cirurgias plásticas que há uma década custavam 10 000 dólares e exigiam internação hospitalar hoje custam 3 000 ou 4 000 e são feitas em clínicas particulares.

Não são apenas as cirurgias plásticas a atiçar a vontade de dar um jeito em velhos problemas. No ramo bucal, implantes dentários, correções de gengivas e branqueamentos podem devolver um sorriso convincente até a quem não tem mais os dentes. Sem levar ninguém à falência.

No ramo dos cosméticos, avanços notáveis resultaram em produtos que não se limitam mais ao álcool disfarçado de loção pós-barba do passado. Hoje, há produtos que ajudam a cicatrizar a pele, hidratam, protegem do sol e até retardam o aparecimento de rugas. E para os carecas?

Hoje, alguns cirurgiões fazem um trabalho minucioso de transplante de cabelos da nuca para as regiões despovoadas de fios (veja reportagem na página 149). “Vi casos em que não sabia se era implante ou não”, diz o cabeleireiro Wanderley Nunes, do Studio W, de São Paulo.


Com todo esse arsenal, não admira que os homens estejam aderindo. Ou pelo menos tenham vontade de fazê-lo, conforme mostra uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a pedido de uma entidade odontológica.

A pesquisa constatou que, se tivessem dinheiro, 48,9% dos entrevistados comprariam algum bem material, mas 42,9% dariam prioridade para um tratamento estético dentário e 7,9% fariam uma cirurgia plástica. A mesma pesquisa dá conta de que 98% das pessoas se preocupam com a aparência de seus próprios dentes e 90,3% reparam no sorriso, em primeiro lugar, quando conhecem uma pessoa.

Também a estética dentária está num boom. “Os tratamentos estéticos sempre estiveram limitados às classes altas, mas hoje já são acessíveis à classe média”, diz o dentista Marcelo Fonseca Pereira, presidente da Sociedade Brasileira de Odontologia Estética. Outro ponto positivo: correções dentárias que levavam um ano para ser concluídas agora podem ser resolvidas em quinze ou vinte dias, dependendo do problema.

A indústria de cosméticos foi rápida na percepção de que o homem estava mais aberto a novidades que o deixassem mais belos e tratou de ocupar seu espaço. A Avon lançou sua linha de cremes masculinos em outubro passado depois de constatar que o mercado brasileiro de loções, desodorantes e perfumes em geral tinha crescido 736% entre 1992 e 1995.

O mercado pulou, nesse período, de 3,3 milhões de dólares para 28 milhões, com projeção de chegar a 35 milhões este ano. “Fizemos uma pesquisa para entender essa mudança de comportamento”, diz Elaine Pinheiro Simões, diretora de projetos de marketing da empresa.

“Concluímos que os homens agora têm consciência de que a beleza não é privilégio da mulher e que o aumento da competitividade no mercado de trabalho também exige uma melhor apresentação.” Outra conclusão da Avon: o público masculino estava usando produtos feitos para as mulheres por falta de opções no mercado.

A decisão de lançar a linha Pour Homme foi rápida, tanto quanto as vendas: a previsão otimista era a de vender 1,5 milhão de dólares em trinta dias. As vendas, porém, bateram em 4,5 milhões de dólares, provocando um corre-corre dentro da empresa.


A Natura também lançou linhas exclusivas para homens e se deu bem. A Sr N, com produtos como óleo pós-banho e cremes que facilitam o barbear, vendeu 300 000 unidades em três meses. Estudos da empresa mostram que o homem já tem, como as mulheres, um perfume para cada ocasião.

Antigamente, o perfume era um só e durava da manhã à noite. “Há dez ou quinze anos, os perfumes que os homens brasileiros usavam se resumiam ao pinho e a uma english lavander da Yardley. Hoje, só de perfumes de primeira linha importados há pelo menos oitenta marcas diferentes”, diz Marcos Rothenberg, sócio da importadora RR.

Nas clínicas de cirurgia plástica, os homens procuram principalmente por implantes de cabelos, cirurgias de nariz, de barriga, de pálpebra, de papada e de orelha de abano. Também em alta está o lifting – uma geral no rosto todo. Na Clínica Ivo Pitanguy, no Rio de Janeiro, os homens representavam apenas 2% das cirurgias feitas nos anos 70. Hoje, eles são 18% e procuram se livrar, principalmente, das bolsas de gordura dos olhos.

A atual onda vaidosa tem algumas de suas raízes fincadas nos escritórios. “O homem está sofrendo uma enorme pressão dentro das empresas. A competição é mais acirrada e criou-se o mito de que os jovens são ideais para o trabalho.

Sentindo-se prejudicados, os mais velhos buscam soluções para tentar preencher suas necessidades”, diz Marcus Castro Ferreira, titular da cadeira de Cirurgia Plástica do Hospital das Clínicas da USP. Ferreira aponta outra razão para a atual onda: “O homem mais velho se sente ameaçado sexualmente. Por isso, busca a imagem de moço para ter, também, a imagem de viril.”

A vaidade tem duas facetas. Uma é positiva: a idéia de que a pessoa se preocupa com ela mesma leva à crença de que ela está de bem com a vida, de bem com a família e com o trabalho. (Quando há o descuido, a imagem é de relaxo também em relação ao trabalho). A faceta negativa passa a idéia de futilidade.

Isso acontece quando o zelo excessivo traz a conotação de que a pessoa só se preocupa com ela mesma e que tudo o mais vem em segundo plano, inclusive o trabalho. O ideal é não cair nos extremos: nem relaxado, nem fútil. Eis a regra número 1: não encare cirurgia como futilidade, pois é um ato médico que envolve risco.


A número 2: tome decisões ponderadas, com médicos de absoluta confiança. Pese bem se o seu problema traz um déficit psicológico, se sua qualidade de vida está comprometida. Então, avalie se há cirurgia para o seu caso e se ela traz complicações. Cirurgias plásticas não devolverão a juventude perdida.

O empresário gaúcho Flávio Scaf, 54 anos, presidente do grupo Edel, de construção, seguros e shoppings, com faturamento de 200 milhões de dólares em 1995, é vaidoso, mas – segundo ele mesmo – sem extremos. “Uma pessoa elegante, bem vestida, com um rosto liso, passa uma imagem de sucesso. Tenho extremo cuidado comigo”, diz. “Gosto de cuidar da minha barriga, de meu rosto, das minhas rugas. Todo mundo gosta de ter uma casa bonita, um carro bonito, por que não gostar de estar bonito?”

Sua preocupação com a aparência começou aos 40 anos. Naquela época, ouviu de uma esteticista o alerta: “Até os 30 a natureza cuida da gente. Depois, quem tem de cuidar somos nós”. Scaf, então, tomou uma decisão: fez uma plástica no nariz, apagando de seu perfil a saliência típica de quem tem descendência árabe.

Muitos homens atacam sibilinamente os cremes de suas esposas. (Se você o faz, por favor, não ponha os dedões dentro do pote para não contaminar o produto; use a espátula e evite brigas.) Scaf, porém, passou a devorar leituras sobre novos produtos e passou a comprar os seus no exterior.

Começou com o B21, da Orlane francesa, uma linha energizante e firmadora da pele. Depois, pulou para a linha Anagenèse, da mesma empresa, desenvolvida por dois ganhadores do prêmio Nobel. Agora, embarcou no Renova, da Neutrogena, lançado há três meses nos Estados Unidos, à base de ácido retinóico (conhecido por vitamina A, um produto que nem todo mundo recomenda usar no Brasil porque, em países quentes, pode causar vermelhidão no rosto).

Ao todo, ele usa seis produtos diferentes, só para o rosto, espalhados diariamente, faça chuva ou faça sol. Isso afora o desodorante, o perfume, a loção pós-barba… Sim, é preciso disciplina e paciência para não mandar tudo às favas. “Cabeça jovem em corpo velho não adianta. Por isso todo esforço vale a pena.


Quando o assunto é creme anti-rugas, é bom que se diga, há mais marketing do que resultados provados. Tais produtos atuam na epiderme, a parte mais externa da pele, e não chegam a regiões profundas, de onde partem as rugas. Alguns produtos podem atenuar rugas minúsculas, mas não aqueles vincos fundos.

Em geral, hidratam a pele e protegem do sol, o que é ótimo. Há, ainda, lançamentos à base de vitaminas que prometem combater os radicais livres, prevenindo o envelhecimento. Mas, nesse caso, faltam ainda comprovações de que realmente funcionem. Homens podem usar produtos feitos para mulheres, sem problema,Mas a pele masculina é, geralmente, mais oleosa e porosa. Há, também, os pêlos, que dificultam a tarefa de espalhar um creme. Em geral, produtos masculinos no formato gel costumam ser mais fáceis de usar.

Ninguém pode ver você espalhando cremes ou loções coloridas pelo rosto na intimidade de seu banheiro. Pode usar e abusar se tiver vontade. Mas, quando o negócio é cirurgia plástica, não há como fazer uma sem que as pessoas deixem de notar a diferença, até porque os procedimentos deixam inchaços que duram semanas a fio.

Um lifting de face – o nome pomposo pelo qual se batizou uma plástica de rosto – deixa o paciente com um aspecto de monstro extraterrestre por três ou quatro dias e com um inchaço moderado por outros três meses. A volta ao escritório só ocorre depois de quinze dias, no mínimo. “Muitos homens, quando descobrem que vão ficar roxos, inchados ou que têm de se afastar do trabalho para fazer uma plástica, desistem”, diz o cirurgião Carlos Fontana, de São Paulo. Ficar bonito tem seu preço e a feiúra pós-cirúrgica faz parte dessa conta.

A lipoaspiração é hoje considerada um procedimento seguro, com riscos mínimos. Na lipo, o cirurgião usa uma cânula (que já teve 1,5 centímetro de diâmetro, mas hoje tem míseros 3 milímetros, pouco mais do que uma agulha) ligada a uma bomba de sucção que aspira a gordura subcutânea.

Não é um método de emagrecimento. Só funciona para quem tem pneus na barriga, excesso de gordura entre as pernas ou papada, por exemplo. A vantagem é que as moléculas de gordura não se reproduzem e, uma vez retiradas, não tornam a reaparecer.


Se a pessoa engorda novamente, o faz de forma mais uniforme, não concentrando excessos em determinadas regiões. Há a promessa de acabar com a gordura com ultra-som, em vez da lipoaspiração. “É um método ineficiente, que não dissolve gordura alguma”, diz o cirurgião Luiz Paulo de Azevedo Barbosa, de São Paulo.

No caso do lifting de face, há quem faça um procedimento superficial e um mais profundo. No primeiro caso, a pele do rosto é descolada, esticada e reposicionada. No segundo, os músculos faciais também passam pelo mesmo processo. Há, nesse tipo de cirurgia, uma controvérsia: alguns médicos justificam o lifting superficial com a explicação de que nem todo mundo necessita de um mais profundo.

Outros dizem que o lifting superficial é picaretagem mesmo. “Há um desequilíbrio muito grande entre o que pode ser feito e o que tem sido feito”, diz Ferreira. “A maior parte dos liftings que têm sido feitos é um mero esticar de pele”, concorda Fontana. “O que acontece é que a plástica é uma das poucas especialidades que dão lucro para os médicos, já que está fora dos convênios. Por isso, há profissionais demais e muitos deles prometem maravilhas que não têm capacidade de cumprir.

Além de um número grande de cirurgiões, há também um crescente número de técnicas e de materiais que podem ser uma armadilha. Fuja, por exemplo, de quem promete resolver problemas de rugas com fios de ouro ou qualquer outro fio sintético. “São fios que ligam nada a coisa nenhuma”, diz Fontana.

Atenção, também, com a atual moda do resurfacing, uma aplicação de laser sobre o rosto que provoca uma escamação a título de rejuvenescimento. “O laser causa uma queimadura de segundo grau na pessoa”, diz Fontana, que além da sua clínica particular dirige, também, o serviço de queimaduras do Hospital das Clínicas da USP. “É preciso extremo cuidado para não ter resultados desastrosos.”

A lipoescultura é outro imbróglio. A promessa é a de levar gordura de um ponto para outro, moldando o corpo. Pode-se, por exemplo, enxertar gordura para disfarçar as rugas da testa e aquelas entre os olhos, que conferem um ar carrancudo.”É preciso deixar bem claro que essa gordura é reabsorvida pelo corpo”, diz o cirurgião Francisco Salgado, da Clínica Ivo Pitanguy. “E isso pode ocorrer em poucos meses quando se trata do rosto.” Seja com gordura do próprio corpo ou com colágeno (gordura bovina), a absorção é inevitável, o que significa que o procedimento tem resultado apenas temporário.

Isso vale, também, para uma bobagem recém-criada, chamada lipoescultura do pênis. Fuja. “Não há literatura médica sobre as conseqüências desse tipo de intervenção, que pode ser perigosa”, afirma Ferreira.

Para não cair em arapucas ou fazer um péssimo negócio, aparecendo no trabalho com a pele toda esticada ou com o nariz excessivamente feminino, guie-se pelo bom senso. Procure médicos de confiança e consulte mais de um se for preciso. Veja o resultado de quem já passou por uma cirurgia e, só então, programe-se para uma delas.

Vaidade, sem exageros, faz bem. Levanta o moral e a auto-estima. Por isso, se a barriga, a papada ou a bolsa nos olhos são um peso difícil de carregar, pode parar de se esconder do espelho. Mas, se a vaidade for muita, bem, melhor é procurar uma terapia.