Escândalo da Mundial na Bovespa

Um inquérito da Polícia Federal, a que EXAME teve acesso, conclui que uma fraude está por trás da alta de 2 950% das ações da fabricante de válvulas, alicates e esmaltes Mundial

São Paulo – “— Vamos colocar o plano em prática e aumentar a exposição.

— Beijo, te cuida, e quero ver o milagre da multiplicação das ações.”

As mensagens acima foram trocadas em fevereiro de 2011, por e-mail, entre Rafael Ferri, fundador de uma empresa de investimento de Porto Alegre, a Quantix, e a jornalista Ana Borges, sócia da agência de comunicação Compliance.

O plano mencionado por Ana resultou, realmente, na incrível multiplicação do preço das ações da Mundial, uma fabricante paulista de válvulas, talheres, alicates e produtos de beleza.

Segundo uma recém-concluída investigação da Polícia Federal (PF), aquela troca de e-mails deu origem a uma das maiores fraudes do mercado brasileiro de capitais: a manipulação do preço das ações da Mundial no ano passado. EXAME teve acesso ao relatório que a PF concluiu no fim de maio deste ano sobre o caso.

Os policiais acusam Ana e Ferri, além de Michael Lenn Ceitlin, presidente da Mundial, e Pedro Barin Calvete, um profissional de investimento de Porto Alegre, de formação de quadrilha e manipulação de mercado. Ferri e Ceitlin também são acusados de uso indevido de informações privilegiadas. 

Segundo o inquérito da PF, o esquema tinha como objetivo valorizar artificialmente as ações da Mundial. Antes da fraude, a empresa era inexpressiva na Bovespa. Seu valor de mercado não passava de 80 milhões de reais, o que fazia dela uma das 90 menores empresas da bolsa.

Além disso, seus papéis valiam centavos, não eram acompanhados por quase nenhuma corretora e recebiam pouquíssimas ordens de compra e venda. Depois da atuação deles, essa história mudou. Em junho do ano passado, por exemplo, o volume de negócios com as ações da Mundial superou o de Petrobras, OGX e Itaú.


Entre fevereiro e julho de 2011, as ações da empresa subiram 2 950%. No mesmo período, o Ibovespa caiu 13%. Tinha cheiro de fraude. E, segundo a PF, era — o fenômeno foi apelidado pelo mercado de “bolha do alicate”. 

O relatório policial indica que o plano de manipulação das ações da Mundial nasceu no fim de 2010, quando Ceitlin e Ferri montaram um novo projeto de “comunicação com o mercado”. Parte do plano, sempre segundo a PF, era maquiar os números da Mundial — justamente para ter algo de bom para “comunicar”.

A empresa, que tinha uma dívida de cerca de 400 milhões de reais, teria incluído em seu balanço créditos a receber no valor de 279 milhões da Hércules, fabricante de talheres e utensílios de cozinha que também é controlada por Ceitlin.

No informe financeiro constava que a Mundial estava recebendo cerca de 30 milhões de reais em um ano da Hércules relativos ao pagamento dos juros dessa dívida. Só que, de acordo com a PF, apenas 1 milhão de reais havia sido pago em um ano. 

Em seguida, a empresa contratou a agência Compliance, de Ana Borges, para apresentar a “nova Mundial” aos investidores. Jornalistas e analistas foram bombardeados com comunicados sobre uma reestruturação da empresa. Para reforçar a mensagem, o grupo marcou reuniões entre Ceitlin, presidente da Mundial, e investidores.

A primeira delas ocorreu na corretora Souza Barros no dia 6 de abril de 2011 — e foi intermediada por Clodoir Vieira, economista-chefe da corretora e marido de Ana. Durante meia hora, Ceitlin falou sobre como a Mundial aumentaria suas receitas, quitaria sua dívida e mudaria seus controles internos para passar a fazer parte do Novo Mercado, segmento que reúne as companhias mais transparentes da Bovespa.

No mesmo dia, os papéis subiram 24%. Ceitlin repetiu o discurso em pelo menos outras cinco corretoras e gestoras de recursos — Banif, Coinvalores, Geração Futuro, SLW e Socopa — nas seis semanas seguintes.

Com o burburinho criado em torno da Mundial e a valorização das ações, a empresa virou assunto no mercado financeiro: alguma coisa devia estar acontecendo com aquela companhia de que ninguém tinha ouvido falar.  


Enquanto espalhavam que tinham um plano salvador para a Mundial, diz o relatório da PF, os acusados de participar do esquema inflavam artificialmente o número de negócios com as ações da empresa — de novo, para passar a impressão de que algo que elevaria o preço das ações estava prestes a acontecer.

O relatório da PF diz que Ferri comprava e vendia praticamente a mesma quantidade de papéis da Mundial todos os dias, por meio de diferentes corretoras — entre elas estavam Citi, Mirae e Votorantim —, para aumentar sua liquidez diária e, assim, chamar a atenção de mais e mais investidores.

Num único dia, ele chegou a dar 13 000 ordens de compra e venda. Geralmente, era acompanhado por Calvete. Para ajudar a manter a empresa em evidência, Ana passou a divulgar fatos relevantes quase todos os dias. Segundo o relatório policial, a Mundial soltou 132 comunicados em 2011 — em 2010, foram 11 e, em 2009, apenas oito.

Esse tipo de prática irregular é chamado, no jargão do mercado, de pump and dump (algo como “bombar e descartar”). Também há indícios de que Ferri tinha acesso ao conteúdo dos comunicados antes de eles se tornarem públicos, segundo a PF. Os fatos relevantes normalmente se referiam a notícias com potencial de elevar a ação da Mundial.

Foi o que ocorreu em 18 de julho de 2011, quando a companhia anunciou que um fundo da gestora americana Yorkville Advisors investiria 50 milhões de dólares na Mundial — no dia seguinte, as ações subiram 15%. 

Como Ferri se tornou tão próximo da Mundial? Segundo a PF, ele tinha cerca de 10 milhões de ações da empresa em 2010 e, em razão disso, tinha acesso direto a Ceitlin, que também era o diretor de relações com investidores da companhia. No primeiro semestre de 2010, Ferri pediu um estudo sobre a Mundial à empresa de análise de ações Empiricus, de São Paulo.

“Quando dissemos que seria impossível fazer a pesquisa, porque a empresa não divulgava resultados detalhados há anos, Ferri afirmou que ainda ouviríamos falar da companhia”, disse um profissional da Empiricus a EXAME.­ Na época, Ferri era um dos donos da TBCS, empresa de investimento que havia fundado em Porto Alegre, mas acabou brigando com os sócios.

No final de 2010, Ferri saiu de lá e fundou a Quantix. Calvete, o outro acusado, o substituiu na TBCS — no fim de 2012, ele se tornou sócio da Q3 Investimentos. Procurados, Ana, Ceitlin e Ferri não quiseram se pronunciar. Calvete não retornou os pedidos de entrevista. 


Agora, cabe ao Ministério Público  avaliar as evidências coletadas pelos policiais e decidir se o caso deve ser encaminhado à Justiça. A PF interrogou 15 pessoas, analisou 30 000 ­e-mails e avaliou em torno de 200 dias de operações com as ações da Mundial na bolsa.

Segundo o procurador da República José Osmar Pumes, responsável por avaliar o inquérito, a decisão do Ministério Público deve demorar, no mínimo, um mês, porque o caso é inédito — até hoje, a Comissão de Valores Mobiliários só analisou e puniu três casos envolvendo manipulação de ações, e nenhum deles foi parar na Justiça (as penas foram multas).

Segundo Pumes, as penas para os crimes de formação de quadrilha, uso indevido de informação privilegiada e manipulação de mercado variam de um a 16 anos de prisão. Se houver condenação, os envolvidos ainda podem ter de pagar três vezes o valor do lucro obtido com as irregularidades.

“Esse cálculo será feito com base no dano causado aos investidores”, diz o procurador. Segundo a Comissão de Valores Mobiliários, cerca de 9 000 pessoas tinham ações da Mundial entre abril e julho de 2011, mas ainda não se sabe quantas tiveram prejuízo (a autarquia está calculando o valor). 

Por enquanto, um grupo de cerca de 40 investidores diz ter tido um prejuí­zo somado de 15 milhões de reais com as ações da Mundial. Eles se reúnem, em geral, a cada 15 dias para trocar informações e preparar uma ação judicial.

Num desses encontros, realizado em São Paulo em fevereiro deste ano e acompanhado por EXAME, um dos integrantes, que é casado e tem dois filhos, mostrou os extratos de negociação de sua corretora para dizer que perdeu 500 000 reais com os papéis da empresa em quatro meses (ele não quis ter seu nome revelado porque sua família ainda não sabe o que ocorreu).

O consultor de tecnologia Ivan Nassif, de 38 anos, aplicou 200 000 reais nas ações da Mundial em abril e perdeu quase 80% em três meses. O gerente de planejamento Pedro Serpa Bonfim, de 40 anos, perdeu 70 000 reais, quantia que havia conseguido com a venda de uma pequena casa. “Até hoje, tenho trauma. Tive de me tratar com um psiquiatra”, diz.

A vida pós-bolha

Aplicar uma parcela relevante do patrimônio em ações de uma empresa pouco conhecida e que estava tendo valorização fora de qualquer padrão na bolsa é arriscar demais. Como as ações despencaram de uma hora para outra, alguns desses acionistas dizem que tentaram vender os papéis quando eles começaram a cair, mas não conseguiram.


“Estava todo mundo vendendo, e só consegui me desfazer do que tinha quando já havia acumulado uma perda de 40%”, diz o carioca Paulo Roberto do Canto Fraga, gerente comercial, que diz ter perdido 100 000 reais em três dias. No exterior, as agências reguladoras ou as próprias bolsas de valores costumam suspender a negociação de ações quando os volumes saem do padrão.

Aqui, isso não ocorreu. “Apesar de o volume de transações atípico ter sido detectado em abril de 2011, não era possível tomar uma medida mais drástica, interrompendo as negociações das ações, porque a CVM ainda não tinha indícios suficientes de que se tratava de um crime financeiro”, diz Julya Sotto Mayor Wellisch, subprocuradora da CVM responsável por investigar o caso.  

As ações da Mundial continuam sendo negociadas normalmente na Bovespa, com o mesmo volume de transações de antes. Seu valor de mercado caiu para 65 milhões de reais. À frente da empresa, Ceitlin mantém o plano de levar a companhia ao Novo Mercado. Para especialistas, o caso da Mundial deveria servir de estímulo para melhorar a fiscalização do mercado financeiro nacional.

A Bovespa informou estar estudando a adoção de regras mais rígidas para a migração de empresas para os segmentos especiais de governança corporativa. De 2000 até hoje, a CVM condenou três casos de manipulação de ações. A SEC, que fiscaliza o mercado de capitais nos Estados Unidos, julgou e encaminhou à Justiça cerca de 400 processos.

Aqui, só houve duas condenações por outro tipo de irregularidade, o uso de informações privilegiadas — de dois executivos da Sadia que compraram ações da Perdigão antes de a Sadia fazer uma oferta para comprar a empresa em 2006 (mais tarde, ambas formaram a Brasil Foods)­.

O ex-diretor Luiz Gonzaga Murat Júnior e o ex-membro do conselho de administração Romano Ancelmo Fontana Filho foram condenados à prisão em 2011, mas a pena­ pôde ser substituí­da por prestação de serviços comunitários.

Nos Estados Unidos, o investidor cingalês Raj Rajaratnam, presidente do fundo de investimento Galleon, que ganhou 64 milhões de dólares usando informações privilegiadas, foi condenado em outubro de 2011 a 11 anos de prisão e a pagar uma multa de 93 milhões de dólares, a maior já aplicada pela SEC.

“O caso da Mundial é uma oportunidade de acabar com a impunidade”, diz Gilberto Mifano, ex-presidente do conselho de administração da BM&F Bovespa. Seria um bom legado da “bolha do alicate”.