Brasil tem um grande desafio à frente: envelhecer com saúde

Até 2030, o país terá pela 1ª vez mais idosos que crianças. O setor de saúde será pressionado, mas a tecnologia e a gestão eficiente podem trazer equilíbrio

A rede de laboratórios Alliar enfrenta um dos maiores desafios de sua curta história — a empresa foi criada em 2011 por quatro grupos de diagnósticos de São Paulo, de Minas Gerais e de Mato Grosso do Sul. Impelida pelos planos de saúde, a Alliar batalha diligentemente pela eficiência. Um dos recursos que estão gerando ganho de produtividade são as centrais de comando de exames de ressonância magnética a distância. Para o exame, normalmente o paciente é conduzido por um auxiliar até o equipamento, enquanto um técnico dentro da mesma sala programa o aparelho. Mas na Alliar não é mais assim. Os técnicos ficam nas centrais (dentro ou fora da unidade em que o exame é realizado), de onde comandam a ressonância e se comunicam com o paciente e o auxiliar. Isso é possível com o uso de softwares, câmeras e microfones da alemã Siemens. O aparato, criado a princípio para a Alliar, já foi exportado para Estados Unidos, Alemanha, China e Índia. Instalada em 2015, a primeira central da Alliar, no bairro paulistano da Vila Mariana, tem 35 técnicos que programam 40 máquinas. Com a tecnologia, foi possível reduzir em um terço o número de técnicos na rede — como há radiação nas salas de exame, a lei limita a carga de trabalho e eram necessários mais profissionais na versão presencial. Já os pedidos de repetição de exames caíram 35%, uma vez que o técnico não atende todos os pacientes que batem à porta, só os que farão os exames de sua especialidade. “Os planos de saúde nos pressionam para a redução do preço dos serviços”, diz Eduardo Margara, diretor de operações da Alliar. “Eles sentem uma alta nos pedidos de exames devido ao envelhecimento da população, o que, por sua vez, está pressionando seus custos.”

Centro de operação de exames da Alliar: a tecnologia reduz custos | Fabiano Accorsi

O setor de saúde brasileiro — assim como a Alliar — está inquieto. Enquanto tenta lidar com as mazelas históricas do desperdício e da má gestão, agora também tem de se adaptar à realidade do envelhecimento da população. Não é de hoje que se verificou essa tendência, mas o fato é que seus impactos estão mais evidentes. A longevidade, uma conquista da humanidade, está fazendo a quantidade de idosos aumentar em todo o mundo. No Brasil, o ritmo tem se acelerado. A Organização das Nações Unidas prevê que, de 1950 a 2050, a fatia de pessoas acima de 60 anos na população cresça seis vezes no Brasil, o dobro da taxa projetada para paí-ses como Canadá e Holanda. Em 2030, o número de idosos por aqui vai superar pela primeira vez o de crianças com até 14 anos. “O Brasil demorou 18 anos para dobrar a população de idosos, enquanto a França levou 45 anos”, diz o médico Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade. “Há nações que conseguem postergar o efeito do envelhecimento atraindo imigrantes, o que não acontece por aqui.” Kalache palestrou durante o EXAME Fórum Saúde, realizado em Brasília no dia 21 de junho, com a presença de autoridades, executivos e especialistas no setor de saúde brasileiro. 

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Fábrica da Abbot, no Rio de Janeiro: a redução da burocracia abrirá portas para trazer mais remédios ao país | Marcelo Correa

Viver mais é uma boa notícia para todo mundo, desde que se viva com saúde. E, nesse ponto, os especialistas acreditam que o Brasil avança lentamente. A população está ficando mais idosa, porém continua pobre e desigual. Segundo a Organização das Nações Unidas, o país é o décimo mais desigual no mundo. Por aqui, um cidadão pobre leva nove gerações para atingir a renda média nacional, enquanto na Dinamarca são necessárias apenas duas. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países mais ricos, os jovens de hoje enfrentarão mais desigualdade na velhice do que os aposentados atuais, devido ao desemprego e às disparidades salariais causadas pelas últimas crises. “O envelhecimento nos toca desde o início da vida, quando é preciso promover a saúde, a participação na sociedade e o aprendizado contínuo”, afirma Kalache.

Para o setor público, fica a preocupação com os idosos de menor renda, que tendem a ter mais complicações decorrentes de doenças crônicas e a precisar de mais cuidados de longo prazo. Normalmente, um familiar deixa de trabalhar para cuidar do idoso doente ou a família desembolsa muitos recursos com o cuidador, podendo comprometer até 70% da renda do domicílio. Segundo a OCDE, há apenas 218 instituições públicas, como casas de repouso, disponíveis para atender 20 milhões de brasileiros de mais idade, e 71% dos municípios não têm esse tipo de instituição. Sem um cuidado apropriado à população, haverá mais pressão no sistema público, que já está sobrecarregado. Essa realidade é evidenciada pela opinião do brasileiro sobre os serviços públicos: três em cada quatro afirmam que eles são ruins ou péssimos e cerca de 80% já desistiram de uma consulta ou exame pela demora em marcar. “A percepção do brasileiro é que o sistema público simplesmente não está funcionando”, diz Renato da Fonseca, gerente da Confederação Nacional da Indústria, responsável por uma pesquisa a respeito.

Diante dessa realidade, o setor público começa a buscar mais eficiência com o uso de tecnologia. Em Curitiba, no Paraná, há prontuários eletrônicos para toda a população desde 1999. No início deste ano, a tecnologia permitiu identificar os 500 000 cidadãos que precisavam de vacinação diante do surto de febre amarela e os 30 000 cidadãos acima de 80 anos que necessitam de  acompanhamento de saúde. Na cidade, desde o ano passado, os médicos vão até a residência de idosos com doenças crônicas para fazer coisas como medir a pressão ou prescrever um remédio. “O custo anual do projeto, de 1,2 milhão de reais, é um décimo do que seria gasto com uma internação”, diz a secretária de Saúde de Curitiba, Márcia Huçulak. O resultado: a taxa de internações na cidade, de seis casos para cada 100 000 atendimentos, está um terço abaixo da média nacional.

Além do setor público, o privado também não está numa situação confortável. Com a longevidade, tende a crescer mais de 50% o número de internações, exames e consultas de idosos nos planos de saúde até 2030, segundo o Instituto de Estudos em Saúde Suplementar, um centro de pesquisa mantido pelas operadoras privadas de planos de saúde. “O modelo tradicional de plano de saúde está fadado ao insucesso, porque, de cada 100 reais arrecadados, 85 vão para o pagamento de despesas com o atendimento aos pacientes”, diz Leandro Fonseca da Silva, diretor da Agência Nacional de Saúde Suplementar. “É por isso que temos insistido que as empresas sejam gestoras da saúde dos pacientes,  e não apenas vendedoras de planos de saúde.” Como forma de equilibrar a conta, a agência lançou novas regras para a coparticipação dos clientes no pagamento de consultas e exames. Grandes empresas também estão agindo para reduzir os custos dos planos dos funcionários. Um caso recente é o da Amazon, da gestora Berkshire Hathaway e do banco JP Morgan Chase, que anunciaram a criação de uma empresa conjunta de saúde, sem fins lucrativos, para reduzir os custos dos planos de seu 1 milhão de empregados. Entre as atividades previstas pela nova empresa está o desenvolvimento de aplicativos, como um que sugere genéricos para que os funcionários saibam de opções mais baratas de remédios na hora da compra.

Caso nada seja feito, o Brasil poderá alcançar 25% do produto interno bruto de gasto total no sistema de saúde — hoje, a fatia é de 9,5%. Os dados, do Instituto Coa-lizão Saúde, que elabora estudos na área, consideram a mudança do perfil demográfico — o custo do atendimento hospitalar de quem tem mais de 60 anos é o dobro do registrado para outras faixas etárias. Na projeção dos gastos, entra também a inflação dos serviços de saúde, cujos preços têm subido devido à incorporação de novas tecnologias. Um estudo da consultoria Mercer Marsh Benefícios, realizado com 225 operadores de saúde em 62 países, mostra que o Brasil terá a terceira maior inflação médica neste ano, de 15,4%, atrás apenas da Argentina, com 26%, e do Egito, com 20%.

Uma forma de reduzir o custo é garantir a oferta de remédios a preços mais baratos. Nessa jornada, o Ministério da Saúde tem formado parcerias com o setor privado desde 2012, comprando em grandes quantidades por valores inferiores das farmacêuticas, com a contrapartida de transferência de tecnologia para os laboratórios públicos. Até agora, 112 parcerias já foram feitas, gerando economia de 5,2 bilhões de reais. “As parcerias ampliaram a oferta de medicamentos pelo Sistema Único de Saúde”, diz Thiago Rodrigues Santos, diretor de Inovação do Ministério da Saúde. A redução de custos também pode vir com os medicamentos biossimilares, uma espécie de genéricos dos biológicos, que tratam de doenças complexas e representam gastos anuais de 1,3 bilhão de reais no Brasil. Hoje, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária analisa o pedido de 11 biossimilares. “Estimamos que deverá haver redução de até 10% em relação ao preço do remédio de referência, que também tende a cair com a pressão da entrada de um biossimilar”, diz Alcebíades Athayde Júnior, presidente da farmacêutica Libbs.

Esses exemplos mostram que o Brasil não está fadado ao fracasso na luta por trazer equilíbrio ao sistema de saúde. Ao contrário disso, uma série de medidas pode ser tomada, com impactos significativos. Os dados do Instituto Coalizão Saúde mostram que, se eliminados os fatores de risco, como tabagismo, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e dieta pouco saudável, seriam poupados 100 bilhões de reais ao ano do sistema. “A primeira coisa a fazer é criar uma cultura que dê prioridade à prevenção de doenças”, diz Denise Eloi, diretora executiva do Instituto Coalizão Saúde, também participante do EXAME Fórum Saúde.   

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Promover a saúde requer uma rede de atendimento próxima do paciente, um desafio para um país continental. O Brasil tem dois médicos para cada 1 000 cidadãos, número que triplica nas cidades acima de 500 000 habitantes, mas cai para menos de 0,5 em municípios pequenos da Região Norte, de acordo com o Conselho Federal de Medicina. Mesmo as cidades médias da região sofrem com uma quantidade de médicos 53% inferior à média nacional para municípios similares. Em Palmas, capital do Tocantins, desde 2014 a prefeitura financia uma escola para que recém-formados em medicina possam fazer a especialização nos postos de saúde, com visitas à casa de pacientes. Em quatro anos, 400 jovens passaram pelo programa. Antes da residência médica, menos da metade dos moradores tinha acesso a consultas preventivas. “Hoje, graças aos residentes, conseguimos cobrir toda a cidade”, diz o médico Nésio Fernandes, ex-secretário de saúde de Palmas que implementou o projeto. A fila de espera para uma consulta médica não urgente, que não raramente superava 10 000 pessoas, hoje está quase zerada.

O caminho para garantir serviços melhores a uma população que envelhece também passa por redução da burocracia. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária tem se mexido nesse sentido. “Temos um número de técnicos pequeno para manter o sistema eficiente como o mercado gostaria”, disse no EXAME Fórum Saúde Varley Dias Sousa, gerente-geral de medicamentos e produtos biológicos da Anvisa. “Mas os produtos mais urgentes têm sido aprovados em ritmo mais acelerado.” Até há pouco tempo, todo registro de remédio entrava numa fila única e os técnicos tinham de avaliar o que caía em suas mãos. A fila alcançou 700 pedidos, com demora de até seis anos para resposta. No início do ano passado, estagiários foram contratados para checar os documentos antes de o processo começar, e os 33 técnicos foram divididos em áreas de conhecimento, avaliando mais de um remédio com função semelhante ao mesmo tempo. A fila caiu 80% e deve ser zerada nos próximos meses. Dessa forma, mais remédios devem chegar ao país. “Produtos que estão em nosso portfólio em outros mercados há muito tempo, e que não trazíamos pela demora em aprovar, agora já podem ser lançados aqui”, diz Juan Carlos Gaona, presidente do laboratório americano Abbott no Brasil.

O Brasil tem um duplo desafio: sanar as doenças do sistema de saúde, hoje em desequilíbrio, enquanto aprende a lidar com o envelhecimento da população. Nas próximas páginas, EXAME mostra exemplos de países que conseguiram tornar o sistema de saúde mais sustentável, de tecnologias que reduzem os custos e de empresas cujo negócio foca a longevidade. São componentes importantes de uma possível receita para o Brasil envelhecer, mas com boa saúde. 

 


DEBATE: VIVER MAIS E MELHOR

Executivos, gestores públicos e especialistas em longevidade estiveram no EXAME Fórum Saúde, em Brasília, para debater como ampliar o acesso à saúde e prolongar a vida dos brasileiros | Fotos: Cristiano Mariz

 

Leandro Fonseca da Silva, diretor da ANS: “As operadoras precisam ser gestoras da saúde dos pacientes”
Alexandre Kalache, do Centro Internacional de Longevidade: “Desde cedo precisamos pensar no envelhecimento”
Thiago Rodrigues Santos, diretor do Departamento do Complexo Industrial e Inovação do Ministério da Saúde (à esq.); Varley Dias Sousa, gerente-geral de medicamentos da Anvisa (ao centro); e Pedro Bernardo, presidente da Interfarma: a redução da burocracia pode ampliar o acesso da população brasileira a mais medicamentos inovadores
Gaetano Crupi, presidente da Bristol-Myers Squibb: “Novas tecnologias ajudarão no equilíbrio do sistema de saúde”
Lídia Abdalla, presidente do laboratório Sabin (à esq.); Denise Eloi, diretora executiva do Instituto Coalizão Saúde; e Adriano Caldas, presidente da Johnson & Johnson Medical Devices: a prevenção é fundamental para reduzir os custos do sistema de saúde

O PACIENTE COM A MÃO NO BOLSO

Pressionadas pelo aumento dos custos, as operadoras de planos de saúde repassam a conta aos clientes — e enfrentam uma boa dose de resistência

Atendimento no hospital: reajustes e coparticipações para controlar o custo do setorFoto: UEPG | Fotos Públicas

O envelhecimento da população e a escalada da inflação médica estão causando um enorme problema para as empresas de planos de saúde. Elas têm tomado medidas para ganhar eficiência e conter a disparada das despesas. Como exemplo, a operadora brasileira Amil, controlada pelo grupo americano UnitedHealth, tem 16 centros de prevenção para pacientes com doenças crônicas. Eles são orientados a seguir uma alimentação saudável e a praticar exercícios, uma forma de evitar a cara hospitalização. Mas, apesar da disseminação desse tipo de programa entre as operadoras, não há muita saída: parte da conta de saúde está sendo repassada aos consumidores. Não sem uma boa dose de resistência.

No embate entre clientes e planos, o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) moveu uma ação para limitar o reajuste dos planos individuais em 2018 — nos anos anteriores, a taxa superou 13%. O instituto se baseia num relatório do Tribunal de Contas da União que apontou problemas na metodologia da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Segundo o documento, a ANS considera como base para o reajuste dos planos individuais o aumento praticado nos planos coletivos, que são feitos sem tanta vigilância. O Idec ganhou em primeira instância, quando o reajuste foi limitado a 5,72%, mas perdeu em segunda. A ANS divulgou um reajuste de até 10%, e o Idec recorreu. O caso continua na Justiça.

No mais recente episódio, a ANS lançou em junho regras para a coparticipação do paciente no pagamento de tratamentos cobertos pelos planos de saúde. Essas cobranças ocorrem há duas décadas, mas não tinham um limite. Agora, a coparticipação deve ser de no máximo 40%: numa consulta de 70 reais, o paciente pagará até 28 reais. Em um mês, a cobrança de todas as coparticipações não pode exceder o valor de uma mensalidade. “Atuamos para racionalizar o uso dos serviços de saúde e evitar o endividamento excessivo do paciente”, diz Rodrigo Aguiar, diretor de desenvolvimento setorial da ANS. De acordo com os órgãos de defesa do consumidor, as medidas desestimulam consultas e exames.

O esforço do setor de saúde para dividir a conta com os clientes está disseminado em países como Singapura e Holanda. “Isso reduz o desperdício e as fraudes, que atingem, em média, 20% dos recursos gastos com saúde”, diz Carlos Suslik, consultor especializado em gestão de saúde. É uma saída para lidar com as mazelas do sistema brasileiro, mas que deve causar mais embates.

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