Serpro caminha entre o público e o privado

Mais do que cuidar das transações do governo, o Serpro busca ampliar a fatia dos negócios com a iniciativa privada em sua receita

Milhões de brasileiros usam os serviços dessa empresa com frequência, mas muitos deles talvez nunca tenham ouvido falar dela. O Serpro, maior companhia pública de serviços de tecnologia da informação do Brasil, é responsável pelos sistemas “estruturantes” do governo. Isso envolve prover a tecnologia para permitir a cobrança de imposto de renda e multas de trânsito, a emissão de notas fiscais e o registro das transações de comércio exterior, entre outras incumbências. Mas a burocracia começa a dar lugar a novos negócios. Em 2018, o Serpro passou a oferecer soluções como a validação de cadastros, que permite reduzir fraudes de identidade e ter maior rapidez na confirmação de informações para bancos e outras empresas. Os novos negócios ajudaram o Serpro a fechar o ano passado com uma receita de 712 milhões de dólares. O lucro, de 118 milhões de dólares, significou um retorno sobre o patrimônio de 44%, o maior do setor.

Caio Mário Paes de Andrade, presidente do Serpro: a empresa tem papel importante na implantação do governo digital | Leandro Fonseca

Mais do que cuidar de dados e transações do governo, o Serpro quer ser uma ponte entre os setores público e privado. Para isso, o empresário Caio Mário Paes de Andrade foi escolhido como presidente do Serpro pessoalmente pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Um dos pioneiros da internet brasileira, Paes de Andrade fundou várias empresas de tecnologia e já trabalhou em organizações como a Endeavor, de apoio a empreendedores. “A missão é elevar o valor de mercado do Serpro e possibilitar o aumento de dividendos e uma abertura de capital. Em outro momento, vamos falar sobre uma eventual privatização”, afirma Paes de Andrade.

Uma das metas é, até 2023, triplicar a participação do setor privado no faturamento do Serpro — hoje, a fatia é de 15%. A estratégia é usar dados para monetizar informações relevantes nas consultas feitas pelas empresas. “Com a aprovação da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, no ano passado, queremos assumir um papel consultivo para o setor privado e auxiliar as empresas na adequação aos princípios da lei”, diz Paes de Andrade. A lei entra em vigor em 2020.

Também está na pauta dar apoio à implantação do governo digital — uma série de iniciativas para desburocratizar o -país. Entre elas está a identidade digital, que deve reunir os dados de todos os cidadãos brasileiros em uma só plataforma. “Acredito que isso se torne uma realidade já em 2020”, diz Paes de Andrade. Mundo afora, o desenvolvimento de novas tecnologias digitais, como o big data e a inteligência artificial, criou condições para uma gestão pública mais moderna, eficiente e transparente.

Por aqui, essa revolução está apenas começando — o Brasil ocupa a 44a posição no ranking da Organização das Nações Unidas de governo eletrônico, atrás de países como Uruguai e Chile. “Temos um governo com restrição orçamentária e uma sociedade cada vez mais participativa nas agendas públicas, avessa à burocracia e que demanda serviços públicos de mais qualidade”, diz Luis Pontes, líder da consultoria EY para governos e setor público.

Se depender da vontade do presidente do Serpro, o Brasil também vai avançar nessa área. Segundo ele, dos 3.200 serviços prestados ao cidadão pelo governo federal, 1.500 já estão digitalizados — a meta é chegar a 2.500 em 2020. Outro objetivo é ajudar a reduzir o tempo de abertura de empresas. No Brasil, levam-se, em média, 117 dias para a obtenção de todos os alvarás e licenças necessários para abrir um negócio. “Estamos trabalhando com o Sebrae, a Receita Federal, os cartórios e outras entidades para desburocratizar esses processos”, diz Paes de Andrade.

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