Empresas brasileiras viraram pechinchas no mercado global

A recessão e a desvalorização do real fizeram com que muitas empresas brasileiras virassem pechinchas no mercado global. Mas ainda está difícil achar comprador

São Paulo – Quando se pede ao investidor americano Warren Buffett que resuma seu segredo para enriquecer, ele costuma dizer: “Tente ser ganancioso quando todos estão com medo. E tente ter um pouco de medo quando está todo mundo ganancioso”. Buffett viveu tempo suficiente para constatar que o mundo teima em não acabar mesmo após as mais duras crises.

E que o mercado, essa entidade supostamente infalível na hora de colocar preços nas coisas, às vezes erra a mão. Na hora do deus nos acuda, os preços ficam baixos demais; ficam altos demais alguns anos depois; desabam em seguida; e assim sucessivamente ao longo dos séculos.

É natural que, quanto mais irracional a ascensão, mais assustadora seja a queda. Hoje, nenhum país enfrenta os efeitos dessa ciclotimia tão vivamente quanto o Brasil.

Não faz muito tempo — embora certamente pareça uma eternidade — que investidores estrangeiros reclamavam de como estava “tudo caro” no Brasil. Valia para imóveis, restaurantes, corridas de táxi e, claro, valia para empresas também. No auge, em abril de 2011, o valor de mercado das companhias listadas na Bovespa chegou a 1,6 trilhão de dólares.

Eram tempos de absoluto otimismo e as grandes empresas do país se preparavam para um futuro que seria glorioso — os juros, então num patamar historicamente baixo, eram um convite ao endividamento. O futuro, hoje se sabe, chegou um tanto diferente daquele. Chegou em forma de recessão, inflação perto do descontrole, juros na Lua, Lava-Jato.

E, como acontece nos ciclos descritos por Warren Buffett, na hora do medo nossas empresas, pegas no contrapé do jeito que foram, estão valendo pouco ou quase nada. Os exemplos estão espalhados por todos os setores, com uma ou outra honrosa exceção, e podem ser colhidos ao acaso.

A Petrobras, antes um colosso do mercado mundial do petróleo, é hoje uma pobre coitada. Chegou a valer 286 bilhões de dólares em 2008. Depois de uma queda de 93%, hoje vale 19 bilhões de dólares. A Via Varejo, maior rede de varejo de eletrodomésticos do país, vale menos do que o dinheiro que tem em caixa.

As três maiores siderúrgicas brasileiras — CSN, Gerdau e Usiminas —, que juntas valiam 56 bilhões de dólares em 2011, hoje têm valor de mercado de 3,3 bilhões de dólares. A desvalorização de 42,5% do real nos últimos 12 meses veio para atrapalhar ainda mais. Aos olhos do investidor estrangeiro, o Brasil está saindo de graça.

O mercado acionário vem e vai, mas uma faceta da atual crise torna o momento especialmente complicado. A situação financeira das empresas brasileiras é tão precária que elas estão sendo obrigadas a vender negócios para sobreviver. E, com os preços no patamar em que estão, a hora para fazer isso não poderia ser pior. Muitas, infelizmente, não têm opção.

Hoje, um bom pedaço do Brasil está à venda. Um levantamento da consultoria inglesa PwC estima que 90 bilhões de dólares em ativos brasileiros estejam sendo oferecidos a investidores em apenas oito segmentos, entre eles telecomunicações e construção civil.

Estão à venda portos, concessões rodoviárias, aeroportos, petroquímicas, usinas de açúcar, prédios ou construtoras inteiras, varejistas de diversos setores, fábricas de todo tipo. Tudo pode ser encontrado, e a preço de banana, nessa imensa Black Friday em que se transformou o Brasil.

Sem dinheiro para pagar dívidas

O Brasil não é exatamente um novato quando o assunto é recessão. O que diferencia a atual das inúmeras crises anteriores é que, hoje, temos um setor privado altamente endividado. O estoque de crédito para pessoa jurídica está em 1,7 trilhão de reais, o maior da história. No país do pibão e do juro baixo, parecia fazer todo sentido do mundo pegar dinheiro emprestado para investir.

Somente em 2010, as companhias brasileiras emitiram 314 bilhões de reais em títulos de dívida no mercado local e no internacional — foi um recorde. Muitas das dívidas contraídas no passado recente estão vencendo agora, num país completamente diferente. Apenas no primeiro trimestre deste ano há 4 bilhões de dólares a vencer em títulos corporativos.

Só que as empresas não estão gerando dinheiro suficiente para pagar. De acordo com números da consultoria MB Associados, enquanto a receita operacional de 194 empresas abertas caiu em termos reais 2,3% em setembro de 2015 em relação ao mesmo mês do ano anterior, o endividamento dessas companhias aumentou 30%.

“Esta é a crise recente que mais está afetando o setor privado. Nunca vi tanta empresa grande e bem gerida com uma situação financeira tão atrapalhada como agora”, afirma o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB, que acompanha a economia brasileira há mais de quatro décadas.

Essa situação não tem paralelos históricos. Num país que tem a taxa de juro alta como o Brasil, as empresas sempre foram obrigadas a ser conservadoras e a usar o próprio caixa para financiar o crescimento. Quanto menos dívida, melhor, rezava a cartilha do empresariado nacional.

Por um brevíssimo período, parecia que tudo isso era coisa do passado. Em 2012, a taxa de juro chegou a 7,25% ao ano, menor patamar da história. E empresas e indivíduos decidiram tomar dinheiro emprestado como nunca. Mas o país quebrou — embora o governo finja que está tudo bem — e entrou em cena uma dinâmica perversa.

Países normais, quando entram em crise, baixam a taxa de juro para tentar impulsionar a economia. No caso brasileiro, e em razão de barbeiragens governamentais conhecidas demais para perder tempo com elas aqui, aconteceu o contrário. O juro quase dobrou em três anos. Para as empresas que precisam se financiar, portanto, o baque é duplo. Os lucros estão caindo; e o custo da dívida, subindo.

Com os bancos pisando no freio, uma empresa de bom nível acaba tendo de pagar quase 20% de juros ao ano. Mesmo uma companhia que tenha entrado na crise com uma dívida saudável vê, mês a mês, a água subir de nível, chegando perigosamente perto do nariz. A relação entre dívida e lucro vai rompendo limites contratuais, os bancos começam a pressionar e logo a coisa sai de controle.

Essa dinâmica se tornou parte do dia a dia de centenas de empresas brasileiras. E, nessa hora, não resta alternativa a não ser levantar dinheiro para pagar as dívidas. A incorporadora Rossi Residencial tem uma dívida de 1,9 bilhão de reais e dá prejuízo. Hoje, a empresa tenta vender a EntreVerdes, companhia que administra sua carteira de terrenos.

A concorrente PDG deve 5,9 bilhões de reais e está vendendo tudo que pode para aliviar a situação. Em janeiro, fechou com o banco Votorantim a venda de 1,6 bilhão de reais em prédios e terrenos.

A CSN, maior siderúrgica do país, tem uma dívida de 32 bilhões de reais e, com a queda nos preços do aço e do minério de ferro, oferece a investidores uma série de negócios (de portos a participações em outras empresas). A empreiteira OAS, que tem uma dívida de 8 bilhões de reais e está em recuperação judicial, espera vender a participação de 50% que detém na Arena Fonte Nova, em Salvador, na Arena das Dunas, em Natal, e a fatia na empresa de concessões Invepar.

Mesmo quem ainda não está com a corda no pescoço vem sendo obrigado a repensar seus negócios. Isso porque, com a paralisia política em Brasília, não se consegue enxergar um fim para o drama atual. Juros altos conviverão com lucros baixos por alguns anos. Portanto, a hora de se preparar e tomar as decisões difíceis é agora.

Atualmente, metade das empresas brasileiras avaliadas pela agência de classificação de risco Fitch está com perspectiva negativa, o que significa que sua capacidade de pagar dívidas deve diminuir ao longo do ano. Em 2015, a Fitch cortava cinco notas de crédito para cada aumento que fazia.

Neste ano, serão dez rebaixamentos para cada elevação. “As empresas vão ficar ainda mais endividadas neste ano, porque haverá ainda mais dificuldade de gerar caixa devido ao agravamento da recessão”, diz Ricardo Carvalho, diretor sênior da Fitch Ratings.

A rápida desvalorização do real exacerbou os problemas para um grupo de empresas. Em tempos normais, a mudança no câmbio traria vencedores e perdedores, e a economia reencontraria seu rumo. Mas, de novo, a dívida torna o momento mais complicado do que deveria ser. Quem levantou dinheiro no exterior está penando.

Segundo um levantamento da companhia de informações financeiras Economatica, só num grupo de 95 empresas de capital aberto que divulgam o valor da dívida em moeda estrangeira, o efeito da valorização do dólar fez a dívida subir 70 bilhões de reais no período de um ano. Ninguém sofre mais com isso do que a Petrobras.

Hoje, a dívida da empresa supera os 500 bilhões de reais, o equivalente a cinco vezes sua geração de caixa. A cada 1% de desvalorização do real, a dívida da estatal sobe 0,7%. É por isso que, hoje, nenhuma empresa brasileira está vendendo tantos negócios quanto a Petrobras. A companhia contratou bancos para colocar à venda poços de petróleo, redes de combustível, uma fábrica de gás e a subsidiária na Argentina.

A última da lista é a Braskem, maior petroquímica do país, em que a Petrobras é sócia do grupo Odebrecht. A Petrobras espera levantar 15 bilhões de dólares com essas negociações e, assim, reduzir sua dívida.

A amarga ironia é que, hoje, a Petrobras inteira vale na bolsa míseros 19 bilhões de dólares. Se as empresas brasileiras estão sendo negociadas a preço de banana, não há símbolo mais cruel do fenômeno do que nossa maltratada estatal do petróleo.

As empresas envolvidas na Operação Lava-Jato formam um capítulo à parte na liquidação de ativos brasileira. Na última década, as grandes empreiteiras do país acentuaram sua transformação em grandes grupos empresariais com tentáculos espalhados por diversos setores da economia.

Com executivos presos, dívidas elevadas e tidas como radioativas por clientes, as empreiteiras estão vendendo tudo que podem para resistir à crise. O grupo Camargo Corrêa foi obrigado a oferecer ao mercado um ícone do capitalismo brasileiro: a fabricante de calçados Alpargatas, comprada em novembro pela J&F Investimentos, dona da empresa de alimentos JBS, por 2,66 bilhões de reais.

O dinheiro vai abater parte de sua dívida, que somava 28,4 bilhões de reais em 2014. O grupo Odebrecht, que devia quase 100 bilhões de reais no fim de 2014, decidiu vender uma usina hidrelétrica, parte de sua fábrica de armas, concessões de saneamento, um porto e participações minoritárias em outras companhias.

Situações parecidas enfrentam outras indiciadas, como Galvão Engenharia, OAS, Andrade Gutierrez e UTC, que negociam ativos de todo calibre — de estádios de futebol a estradas e aeroportos. O banco BTG Pactual também teve de vender empresas para enfrentar a crise de liquidez que se seguiu à prisão de seu ex-controlador, André Esteves. Fizeram parte do pacote uma participação na rede D’Or de hospitais e a recuperadora de créditos Recovery, vendida para o banco Itaú. Outras estão na fila.

Hypermarcas: a empresa brasileira vendeu sua divisão de cosméticos para a americana Coty (Germano Lüders / EXAME)

Qualidade e gestão

Para quem vive de comprar empresas, o momento não poderia ser melhor. Os fundos de private equity, que adquirem empresas inteiras ou pedaços delas para revendê-las depois, tinham 39,1 bilhões de reais para investir no Brasil no fim de 2014. “Empresas de qualidade, com boa gestão e posição de mercado, estão disponíveis porque não têm acesso a capital para crescer”, diz Fernando Borges, presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital e da operação brasileira do fundo americano Carlyle.

Borges investiu cerca de 4 bilhões de reais no ano passado em três aquisições. A maior delas foi uma participação minoritária na rede D’Or, que custou 1,75 bilhão de reais. O fundo americano Advent é um dos que pretendem aproveitar a liquidação. No final de 2014, a gestora captou 2,1 bilhões de dólares para investir na América Latina. Boa parte desse dinheiro ainda não foi aplicada.

“É muito difícil acertar o ponto em que o preço da empresa está em seu menor valor”, diz Patrice Etlin, diretor do Advent. “Por isso, priorizamos a qualidade dos ativos.” O momento também tem sido aproveitado pelos chineses. No ano passado, a China Three Gorges comprou duas usinas hidrelétricas no país por 1,75 bilhão de reais.

Apesar do tamanho da oportunidade, a verdade é que os negócios têm saído com velocidade menor do que se espera quando tudo está tão barato. São raros, hoje, casos como o da fabricante de cosméticos americana Coty, que comprou em novembro a divisão de beleza da brasileira Hypermarcas por 3,8 bilhões de reais.

O mercado brasileiro de cosméticos é o que mais cresce no mundo. Em um ano, a valorização do dólar fez o preço da divisão cair pela metade aos olhos da Coty. É um caso típico de oportunidade que não se deve desperdiçar, e há outras chances parecidas num mercado tão depreciado quanto o brasileiro.

O volume de aquisições no ano passado somou 69 bilhões de dólares, 20% menor do que três anos atrás. É um paradoxo, mas um paradoxo clássico: para um executivo responsável por tomar a decisão, é mais fácil pagar caro em momentos de euforia do que pagar barato na hora da depressão. O efeito manada, afinal, se manifesta das mais diversas maneiras.

No caso brasileiro, pesam ainda três motivos. O primeiro é a situação política do país. Como ninguém consegue prever o que vai acontecer daqui a duas semanas, não custa mesmo esperar — o risco de que as coisas piorem antes de melhorar, afinal, é grande. O segundo é a situação financeira das empresas, que em alguns casos está tão difícil que se torna impossível vender negócios sem antes renegociar as dívidas.

As carteiras de crédito corporativo dos bancos estão repletas de dívidas impagáveis no curto prazo. O banco Itaú, que historicamente reservava 400 milhões de reais para cobrir o calote de grandes empresas, passou a provisionar 5 bilhões de reais em 2015. Feitas as contas, os potenciais compradores decidem esperar para só negociar quando as finanças já estiverem relativamente saneadas.

Para um crescente número de companhias, não resta jeito a não ser se reor­ganizar num processo de recuperação judicial, durante o qual ficam protegidas de pedidos de falência. No ano passado, 1 287 empresas entraram com pedidos de recuperação, 40% mais do que no ano anterior.

“A recuperação judicial é uma fer­ramenta que protege a empresa que está sob ataque dos credores. Mas muitas companhias que entram em recuperação judicial estão apenas protelando um fim inevitável”, diz o consultor Ricardo ­Knoepfelmacher, especialista em reestruturação financeira.

O terceiro motivo para a escassez de grandes negócios é a desconfiança causada pela Lava-Jato. Como muitas das empresas vendedoras estão enroladas, os investidores estrangeiros preferem esperar para ver no que isso tudo vai dar. Quem, afinal, vai querer ficar sócio da Petrobras agora? Quem tem estômago para comprar um pedaço de uma empreiteira que tem executivos presos?

No ano passado, uma empresa brasileira de reposição de peças automotivas estava pronta para ser vendida a um grupo alemão por 500 milhões de reais. Mas o negócio não saiu. Os executivos encontraram uma doação de 20 000 reais a um político de uma cidade do interior.

A transferência do valor era legal e estava devidamente documentada. No entanto, os alemães não viram nenhuma justificativa clara para a doação e acharam melhor não ir adiante. Em tempos de Lava-Jato, qualquer sinal de relação de uma empresa com políticos já causa calafrios nos estrangeiros.

Caso a bruma se desfaça e os investidores estrangeiros voltem às compras, quais seriam as consequências para a economia brasileira? Em ondas de aquisições anteriores, o efeito positivo foi inegável. Nos anos 90, as privatizações permitiram a alguns setores dar um salto de eficiência.

Em meados dos anos 2000, quando o Brasil se tornou a “bola da vez”, o dinheiro que veio de fora ajudou a construir novas fábricas, a erguer prédios, a financiar a expansão de companhias familiares — e deu a empreendedores que venderam suas empresas a chance de começar de novo, criando novos negócios.

Foi, sem dúvida, um ciclo virtuoso. Na atual leva, é difícil que as conse­quências sejam tão benéficas. A maioria das empresas, afinal, está sendo vendida pelas razões erradas. E boa parte do dinheiro levantado irá direto para os credores. Mas, claro, qualquer movimento que estanque a atual sangria terá lá seu lado bom.

Um estudo da Universidade Nacional de Seul, na Coreia do Sul, revela que o investimento estrangeiro traz mais estabilidade para as economias em tempos de recessão. O levantamento, feito com base na experiência dos 34 países-membros da OCDE durante a crise de 2009, mostra que os países mais abertos ao investimento estrangeiro tiveram as exportações menos afetadas. Nesse grupo estavam a Holanda, a Bélgica e o Reino Unido.

A conclusão é que o investidor estrangeiro ajuda as empresas locais a acessar o mercado internacional em épocas ruins, tornando as exportações uma saída para reanimar a economia quando tudo vai mal. Outro trabalho, publicado em outubro do ano passado por pesquisadores do Federal Reserve de Dallas, mostra que o sócio estrangeiro facilita a contratação de capital internacional quando as condições locais não vão bem.

Os benefícios não param aí. Uma unidade assumida por um novo e saudável dono demitirá menos. E um grupo vendedor com menos dívidas também pode ganhar certo fôlego para investir quando a crise arrefecer.

“Num primeiro momento, os compradores buscam elevar a eficiência dos ativos que compram”, afirma o economista José Roberto Mendonça de Barros. “Com o tempo, o mote passa a ser encontrar maneiras para crescer e investir.” São tempos de medo, sem dúvida. Mas a ganância há de voltar.