Conheça o homem por trás do discurso de Trump

O ex-banqueiro Stephen Bannon tornou-se o conselheiro mais influente de Trump, e defende a visão de que o islamismo é uma ameaça para os americanos

São Paulo – Entre as peculiaridades da casa branca de Donald Trump está o círculo restrito de assessores que têm acesso ao presidente. Desse punhado de pessoas de confiança, uma delas é de longe a mais influente: Stephen Bannon. “O grande manipulador”, diz a capa da revista Time sobre o ex-banqueiro, ex-produtor de cinema, ex-editor de um site de extrema direita e atual estrategista-chefe do presidente dos Estados Unidos.

O dedo de Bannon está por trás do discurso sombrio pronunciado por Trump em sua posse, com referências à “carnificina americana” e à falência das instituições. Também foi Bannon um dos idealizadores da agressividade dos primeiros dias do novo governo. “Estamos nos mexendo rápido”, disse ele sobre as ordens executivas assinadas por Trump logo após a posse. “Não estamos aqui para cuidar das coisas pequenas.” No espaço de poucos meses, o nome de Stephen K. Bannon deixou os redutos online do extremismo de direita para se instalar no coração do poder, em Washington.

O caos provocado pela proibição da entrada de cidadãos de sete países majoritariamente islâmicos nos Estados Unidos (até o fechamento desta edição, a efetivação do decreto tinha sido suspensa pela Justiça) foi atribuído à pressa em colocá-la em prática e à inexperiência dos novos ocupantes da Casa Branca. Mas a ideia de que imigrantes e refugiados muçulmanos representem um perigo potencial para os americanos tem um defensor ferrenho em Bannon, que já se referiu sarcasticamente ao islamismo como uma “religião da paz”.

As afrontas protecionistas de Trump também são parte central da agenda do radical residente da Casa Branca. “Você tem um Islã expansionista e uma China expansionista. Eles estão motivados. São arrogantes. Estão avançando”, disse Bannon no ano passado em Patriot, programa de rádio que ele apresentou durante dois anos.

A influência de Bannon foi cristalizada com sua nomeação para o Conselho de Segurança Nacional, o colegiado mais importante no planejamento da política externa e de segurança dos Estados Unidos. “Bannon é exatamente a pessoa errada para esse papel errado”, escreve David Rothkopf, presidente do grupo que publica a respeitada revista Foreign Policy. “Seu papel como presidente do Breitbart.com, com suas perspectivas racistas, misóginas e islamofóbicas, e seu desejo de implodir nosso sistema de governo  sugerem que ele não tem por que ser membro permanente do corpo consultivo mais poderoso do mundo.”

A trajetória de Bannon, de 63 anos, até os corredores do poder é, como a de Trump, improvável. Sua família de classe média sempre votou no Partido Democrata. Bannon foi fuzileiro naval durante sete anos e, depois de cursar um MBA na Universidade Harvard, passou uma temporada em um dos pilares do capitalismo financeiro, o banco de investimentos Goldman-Sachs. No começo dos anos 90, Bannon mudou-se para Los Angeles para abrir um banco de investimentos especializado em mídia. Foi ali que ele deu sua primeira grande tacada: comprou uma porcentagem dos direitos de um programa de TV que na época não fazia muito sucesso chamado Seinfeld (a comédia viria a se tornar uma das sitcoms mais famosas e rentáveis da história).

Depois de vender seu banco, Bannon passou para o outro lado do balcão, começou a produzir filmes — e a mudar de ideia sobre o capitalismo financeiro. O colapso dos mercados globais em 2008, no qual seu pai perdeu parte considerável de suas economias, segundo a revista Time, radicalizou suas ideias. “Eu me virei contra Wall Street pelo mesmo motivo de todas as outras pessoas: o contribuinte americano era forçado a fazer acordos idiotas para salvar uns caras que não mereciam.” Bannon passou a promover a ala mais à direita do Partido Republicano, o Tea Party, e há cinco anos, com a morte do fundador do Breitbart News, assumiu o comando do site — um polo de supremacistas brancos e adversários da ordem estabelecida de Washington.

Foi o posicionamento estritamente contra “tudo o que está aí” que aproximou Bannon de Trump. Em agosto do ano passado, ele assumiu a coordenação da campanha do bilionário nova-iorquino e rapidamente tornou-se seu assessor mais próximo. Enquanto a mídia tradicional — míope, em suas palavras — enxergava um candidato desacreditado, Bannon contava com o apoio dos desiludidos com a globalização, o trabalhador traído pelo establishment e pela “classe dos doadores” dos grandes partidos. “Bannon é uma das pessoas na linha de frente do grande abismo entre os americanos — e uma das pessoas a enxergá-lo com mais clareza”, escreveu o colunista Michael Wolff, um dos poucos jornalistas a entrevistar a eminência nada parda da Casa Branca de Trump.

É verdade que, por mais atabalhoada que tenha sido a primeira quinzena do novo governo, tudo o que o novo presidente tem feito é o que foi prometido na campanha. Mas sua baixa popularidade — Trump é obcecado pelos números de audiência desde a época em que apresentava o reality show O Aprendiz — e a narrativa segundo a qual seu conselheiro é a real fonte do poder na Casa Branca estariam causando tensões. “Tomo minhas próprias decisões, primariamente baseado em dados acumulados, e todo mundo sabe disso. Alguns veículos de notícias falsas estão mentindo!”, escreveu o presidente no Twitter.

Nem todos estão convencidos. A ascendência de Bannon sobre o novo presidente é coisa séria, mas também rende boas piadas. O programa humorístico Saturday Night Live mostrou Bannon — representado como a Morte — enxotando o presidente da Escrivaninha Resoluta, nome da mesa do presidente no Salão Oval: “OK, Donald, já nos divertimos demais por hoje. Posso pegar minha mesa de volta?”