Embrapa busca inspiração capitalista para crescer

A Embrapa, estatal que ajudou a transformar o Brasil em uma potência agrícola, quer retomar seu espaço comercial trabalhando ao lado da iniciativa privada

São Paulo – Não é exagero dizer que sem a Embrapa o Brasil não teria se transformado numa potência agrícola. A estatal, criada em 1973, liderou as pesquisas que fazem do cerrado atualmente o grande motor do agronegócio brasileiro. É do cerrado que saem metade da soja e 95% do algodão colhidos no país.

Como a pesquisa agropecuária no Brasil ainda era esquálida na época de sua inauguração, a estatal enviou para o exterior, de uma só vez, mais de 1 000 pesquisadores, encarregados de fazer uma imersão nos melhores centros de pesquisa científica do mundo. O caldo cultural criado pelo pioneirismo e pela valorização da investigação científica, estabelecidos por esses primeiros profissionais, moveu a empresa por quase quatro décadas.

A Embrapa segue relevante e admirada pela inovação técnica. Isso, no entanto, passou a coexistir com um certo imobilismo na área comercial. Ao longo da última década, ela perdeu terreno para concorrentes internacionais, em especial as empresas que investiram pesado em transgênicos.

Sua participação no mercado brasileiro de sementes de soja, principal grão cultivado no país, que chegou a ser de 80%, hoje é de 6%. A perda de posição — e a necessidade de reforçar o orçamento, que permanece inerte há quatro anos — faz agora a estatal voltar as baterias para a frente de negócios. Para não fugir da origem, a ideia é que a agressividade comercial também levará novas pesquisas a um número maior de agricultores.

O plano que a Embrapa está elaborando mira seu fortalecimento como fornecedora de tecnologias para o campo. Foi criada uma nova secretaria, a de Negócios, entregue a Filipe Teixeira, especialista em propriedade intelectual com dez anos de casa. A nova unidade tem a função-chave de identificar nichos a ser explorados e potenciais parceiros privados para as empreitadas no mercado.

A Embrapa não pretende abdicar dos repasses da União, fonte segura de um orçamento anual de 2 bilhões de reais. Mas quer elevar a receita com os royalties cobrados pela licença de uso de tecnologias patenteadas por ela. Hoje, essa receita não chega a 2% do orçamento.

A meta é ampliar a fatia para 10% em cinco anos. “Não deixaremos de ser uma empresa pública nem vamos viver de royalties, mas é preciso lembrar que eles são uma fonte importante de recursos”, diz Pedro Arraes, presidente da Embrapa. “No Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma das mais renomadas instituições americanas de pesquisa, por exemplo, os royalties respondem por 14% do orçamento.”


Essa nova fase não será uma simples busca por dinheiro extra. Será, principalmente, um retorno à briga pelo mercado de sementes. Na soja, a empresa quer ter 20% das vendas até 2017. Uma estratégia para avançar será abrir seu banco de sementes para parceiros privados, mesmo quando seus pesquisadores não tiverem total acesso aos projetos.

Pela norma anterior, a Embrapa só oferecia o material quando seu pessoal podia trabalhar lado a lado com o parceiro. A nova regra vai valer não apenas para a criação de sementes convencionais mas também para as transgênicas, segmento no qual a Embrapa ficou para trás.

De 32 transgênicos registrados no país desde 2005, apenas dois tiveram sua participação. Como os custos dessas pesquisas são milionários, cresce o debate sobre a necessidade de liberar a Embrapa para receber recursos privados. Um projeto do senador Delcídio Amaral (PT-MS), sem data para ser votado, propõe a abertura de capital da estatal.

“Se a Embrapa não pode ser privatizada, também não pode ser sustentada apenas pelo Estado”, diz Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura. “Ela precisa de mecanismos para que possa trabalhar em pé de igualdade com o setor privado.”

Vender mais sementes e outras tecnologias desenvolvidas nos laboratórios é um instrumento insubstituível para a Embrapa apurar a real aceitação das criações de seus cientistas. Os próprios consumidores dos produtos que a empresa desenvolve se ressentiram da sua perda de espaço comercial nos últimos anos.

“Faltou à Embrapa manter uma aproximação maior com os produtores de sementes. Esse trabalho foi deixado de lado”, diz Narciso Barison Neto, presidente da Associação Brasileira de Sementes e Mudas. “E isso é perigoso para a empresa. Afinal, se uma tecnologia perde mercado, perde-se o interesse por ela.”

O agronegócio é mais complexo hoje do que quando a estatal reinava absoluta no mercado. As empresas que vendem insumos, como sementes e adubos, são as mesmas que financiam os produtores e depois compram a produção. “A Embrapa tem de se reinventar”, diz Silvio Crestana, ex-presidente da estatal.

“A pesquisa científica é um antídoto para a crise.” É do trabalho de empresas como a Embrapa que a humanidade depende para enfrentar um de seus maiores desafios: ampliar a produção de alimentos com o mínimo de impacto ambiental. É uma boa notícia que ela dê os braços ao setor privado para avançar nesse campo.