Sete perguntas | Em defesa das empresas globais

Para o presidente de uma das maiores escolas de negócios do mundo, o crescimento do nacionalismo não deverá ser um obstáculo para o avanço da globalização

Como presidente da escola de negócios IE Business School, uma das mais conceituadas do mundo, o espanhol Santiago Iñiguez conhece os desafios que os líderes empresariais têm ao internacionalizar os negócios. Em entrevista a EXAME, ele defende que, apesar do crescimento do nacionalismo no mundo, as empresas continuarão buscando mercados no exterior. “As empresas sempre encontram a maneira mais eficaz de gerar crescimento”, diz  Iñiguez, que estará no Brasil no fim de abril para falar sobre seu livro Business Despite Borders (“Negócios apesar das fronteiras”, numa tradução livre), lançado em 2018.

O aumento do nacionalismo é um desafio para os negócios?

O que vejo é que, apesar de todos os obstáculos ao livre-comércio, as empresas sempre encontram a maneira mais eficaz de gerar crescimento, de inovar e de abrir novos mercados internacionais. Em meu livro, meus colegas e eu citamos os casos de empresas grandes e médias, de vários setores, que tiveram sucesso apesar do ambiente desfavorável.

Mas isso pode mudar?

Acredito que não. Há três fatores que apontam para uma evolução positiva. O primeiro deles é o perfil das novas gerações, que são mais internacionais e cosmopolitas e, portanto, tendem a apoiar a integração global. Em segundo lugar está a tecnologia, que permite comercializar produtos e serviços em qualquer lugar do mundo. E, em terceiro, há um crescente espírito empreendedor, que também está presente entre executivos de empresas. Isso tudo faz com que a globalização seja irreversível.

As críticas à globalização são exageradas?

Há pessoas que se preocupam porque veem a globalização como sinônimo de desemprego, de deslocamento da atividade econômica ou de aquecimento global. Mas a globalização pode ser o inverso. Pode ser um movimento para frear as mudanças climáticas e para construir uma sociedade mais igualitária.

O que há em comum entre as empresas que tiveram sucesso internacional mesmo num contexto desfavorável?

São todas empresas que souberam superar os problemas de barreiras tarifárias, de dificuldades a exportação, de questões culturais. Um exemplo é o grupo de mídia mexicano Televisa. Ainda que sua área de atuação seja fundamentalmente o México, ela se tornou referência na distribuição de conteúdo no mundo todo, principalmente com suas telenovelas. Surpreendentemente, elas fazem sucesso até na China.

Que tipo de lição é possível tirar dessas empresas?

Em todas há uma visão estratégica e líderes com uma vocação internacional muito clara. E, independentemente das oportunidades que podem ter no mercado doméstico, essas empresas sempre pensaram em termos internacionais.

Essas empresas teriam sucesso no contexto atual?

Eu confio que sim. Creio que agora, talvez mais do que antes, haja uma oportunidade clara de criar negócios que possam se internacionalizar muito rapidamente. As condições estão aí.

Qual é o papel das instituições de ensino nesse contexto?

Nós temos o desafio e a missão de formar as futuras gerações que vão ser os arquitetos das estruturas globais. Os protagonistas do futuro são os que estão agora mesmo nas universidades. Eles vão lançar as novas empresas, vão descobrir como gerar valor. Mais do que lhes ensinar a desempenhar determinadas funções ou profissões, temos de formar cidadãos com cultura.