Em busca do novo petróleo

De olho num futuro em que os combustíveis fósseis terão menos importância, países do Oriente Médio investem pesado na diversificação da economia

Poucos eventos foram tão disputados na Arábia Saudita quanto o show da banda Black Eyed Peas, em outubro, que levou uma multidão a um espaço de entretenimento montado para o fim do ano na capital Riad. Foi a primeira vez que o grupo americano se apresentou na Arábia Saudita. Até pouco tempo atrás, apresentações de música pop eram proibidas no reino, que segue uma versão radical do islamismo. Agora, por todo o país, estão surgindo restaurantes com música ao vivo, salas de cinema e teatros ao ar livre, montados em espaços de lazer projetados por arquitetos e designers internacionais. Os ingressos acabam rapidamente.

O economista paulista Guilherme Quintal, de 31 anos, que há três meses mora em Riad, conseguiu garantir um lugar no musical O Mágico de Oz no fim de outubro. “Vieram artistas dos Estados Unidos para montar a apresentação”, diz ele. “Foi tudo perfeito.” Depois de trabalhar em uma consultoria americana em São Paulo, Quintal foi convidado a integrar a equipe internacional de investimentos do fundo soberano da Arábia Saudita, que administra recursos da ordem de 320 bilhões de dólares. Trabalham com o brasileiro outros dez executivos americanos e europeus. Quase todos pisaram pela primeira vez na Arábia Saudita há pouco tempo.

A contratação de profissionais estrangeiros faz parte de um movimento da Arábia Saudita de também atrair investimentos. Os primeiros sinais das mudanças são visíveis. Riad tornou-se um canteiro de obras. Sete linhas de metrô estão sendo construídas ao mesmo tempo. No início do ano, foi inaugurado um trem-bala entre Jidá, segunda maior cidade, e Meca, centro religioso dos muçulmanos. Essas e outras obras de infraestrutura são parte da estratégia de diversificar a economia e integrar a Arábia Saudita às cadeias de valor globais.

Já as mudanças sociais caminham mais lentamente. Em setembro, o governo acabou com a obrigatoriedade do uso da abaya, uma túnica feminina que cobre todo o corpo. Na prática, a realidade é outra, segundo testemunhou a reportagem de EXAME. Shopping centers costumam barrar as mulheres que não portam a vestimenta. Tampouco pega bem entrar num táxi sem a abaya. Jornalistas não podem filmar em espaços públicos sem autorização do governo e, muitas vezes, funcionários do Ministério das Comunicações acompanham as gravações. Críticos da monarquia absolutista que governa o país com frequência são detidos arbitrariamente e torturados. No ano passado, o jornalista Jamal Khashoggi foi morto dentro de um consulado da Arábia Saudita na Turquia. É uma realidade que contrasta com o plano de diversificar a economia e integrá-la ao mundo que, mesmo assim, segue a todo vapor.

O país começou a construir uma cidade inteligente, chamada Neom, no meio do deserto. A intenção é que o local se torne um centro de alta tecnologia, atraindo investidores e startups do mundo todo. Para tirar a cidade do papel, o governo saudita deverá desembolsar 500 bilhões de dólares até 2025. Para bancar esse e outros projetos, como resorts de luxo à beira das lindas praias do Mar Vermelho, uma moderna rede de transportes e a geração de energia de fontes alternativas, o recheado fundo soberano do reino deverá entrar em ação.

No início de novembro, o país revelou uma das notícias mais esperadas pelo mercado financeiro em 2019: a abertura do capital da petroleira estatal Saudi Aramco. A empresa, avaliada em 1,7 trilhão de dólares (mais do que a Microsoft ou a Apple, com 1 trilhão cada uma), controla a segunda maior reserva de petróleo do mundo. A primeira está na Venezuela. Boa parte dos bilhões de dólares que serão captados com a abertura do capital da estatal saudita deverá ser direcionada ao plano de transformação econômica. Hoje, a indústria de petróleo responde por metade do produto interno bruto da Arábia Saudita e por 70% das exportações. Com o valor do barril rondando a casa dos 60 dólares — distante dos 100 dólares que chegou a valer entre 2010 e 2014 —, era mesmo a hora de investir em uma estratégia para depender menos do combustível fóssil.

Outros países do Golfo Pérsico, como os Emirados Árabes Unidos e o Catar, seguem a mesma cartilha. Dubai, nos Emirados, tem investido como nunca no turismo, com a abertura de hotéis suntuosos, bares e centros de lazer que -atraem turistas internacionais. No ano passado, a cidade recebeu mais de 15 milhões de visitantes (mais de duas vezes o número de turistas que visitaram o Brasil), que deixaram 30 bilhões de dólares por lá. Há dez anos, a indústria de petróleo e gás representava 85% do PIB. Hoje, responde por cerca de 30%. A transição foi possível graças a uma política de diversificação. O varejo representa 12% do PIB, seguido por setor financeiro (9%), construção civil (8%), indústria de transformação (8%), mercado imobiliário (6%) e turismo (5%).

O vizinho Catar, por sua vez, segue a todo vapor com os preparativos para a Copa do Mundo de 2022. Pela primeira vez, um país árabe sediará o evento. Dezenas de rodovias, estações de metrô e de trem estão em construção. Em maio, o país inaugurou um estádio com um imenso teto retrátil e com uma dispendiosa estrutura de ar-condicionado. Mesmo nos meses de novembro e dezembro (outono no Hemisfério Norte), quando a Copa do Mundo será realizada, os termômetros ali chegam a marcar 35 graus. Recursos para esses projetos não faltam. O Catar é o segundo maior exportador de gás natural do mundo, atrás da Rússia. O país pretende investir mais de 200 bilhões de dólares até 2030 na expansão da infraestrutura. Além disso, cerca de 50 milhões de dólares serão empregados em cinco anos para atrair startups de mobilidade urbana, tecnologia e meios de pagamento, entre outros setores.

Refinaria da estatal Saudi Aramco: a oferta de ações deve ajudara levantar capital para promover reformas | Hamad l Mohammed/Reuters

A expectativa é que os países árabes tenham um aumento de 2,9% no PIB em 2020, fazendo um contrapeso importante à desaceleração da Europa e de boa parte do mundo. No atual cenário econômico global, de liquidez abundante e taxas de juro baixas nos países desenvolvidos, os planos de longo prazo de diversificação das receitas no Oriente Médio representam uma oportunidade para o capital internacional. Os investidores estão animados.

A movimentação, no entanto, não está isenta de riscos. Em setembro, ataques de mísseis a duas refinarias da Saudi Aramco interromperam metade da produção da petroleira e provocaram a súbita elevação de 20% no preço do barril, que depois se estabilizou. “Para atrair investidores e levar a cabo o plano de ampliar a agenda econômica, os países do Golfo não podem revidar agressões”, diz Simon Mabon, professor na Universidade de Lancaster, no Reino Unido, especializado no estudo do Oriente Médio. “Ninguém alocaria fundos num lugar com conflitos armados.”

A instabilidade política na região também preocupa. No Iraque, manifestantes têm tomado as ruas do país desde o início de outubro pedindo a renúncia do primeiro-ministro e de seu gabinete, considerado corrupto e ineficiente, além de uma reforma do sistema eleitoral e de uma nova Constituição. O governo está na berlinda. Mais de 300 pessoas já morreram. Um grupo de jovens chegou a bloquear a principal estrada de acesso ao porto Khor al-Zubair, por onde é exportada boa parte do petróleo. O Iraque detém 12% das reservas do planeta.

Os protestos ocorrem justamente no momento em que o Iraque também busca reduzir a dependência do petróleo. Em maio, o governo lançou um programa para ampliar as fontes de receita, estimulando o setor agrícola e o de energias renováveis. Com 3 250 horas de sol por ano, a energia solar é uma opção óbvia. Mas o clima de conflito que até hoje perdura no país, com atentados terroristas e milícias espalhadas pelos quatro cantos, prejudica o plano. “Os petrodólares não têm sido usados para melhorar a qualidade de vida”, diz Heiko Wimmen, diretor do International Crisis Group, uma organização europeia especializada em análises de conflitos.

Já a Arábia Saudita caminha na direção oposta, buscando promover a melhora das condições de vida. O reino saudita divulgou neste ano um plano de parcerias público-privadas para a saúde que deve ampliar os investimentos em hospitais e clínicas em 35%. Para garantir água potável à população que, em 2030, deverá atingir 40 milhões de pessoas (19% mais do que em 2018), o país direciona recursos para a dessalinização da água do mar, uma vez que há poucas fontes de água potável. A família real da Arábia Saudita pretende se manter longe das revoltas populares que vira e mexe tomam conta do Oriente Médio. Abrir a economia e atrair investimentos é o caminho escolhido para garantir prosperidade — e manter-se no poder. 


UM DESTINO QUENTE PARA AS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS

O crescimento da economia dos países árabes tende a beneficiar as vendas do Brasil

Jair Bolsonaro em Abu Dhabi: juntos, os países árabes são o quinto maior comprador de produtos brasileiros | Wam/Reuters

A Arábia Saudita, maior importadora de frango do Brasil, anunciou em outubro a habilitação de oito novos frigoríficos brasileiros para o fornecimento de carne. No ano passado, as vendas de produtos agropecuários brasileiros para a Arábia Saudita, como frango e carne bovina, somaram 1,7 bilhão de dólares. Juntos, os países árabes são o quinto principal destino de produtos brasileiros, atrás de China, União Europeia, Estados Unidos e Argentina. O volume total de exportações para a região chegou a 11,5 bilhões de dólares.

A expectativa é que neste ano haja um aumento de pelo menos 15% nas vendas. “Os mercados da Arábia Saudita e de outros países árabes estão aquecidos”, diz Rubens Hannun, presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. “Ao mesmo tempo, temos feito um trabalho caprichado de aproximação com essa parte do mundo.” O aumento do comércio tem sido puxado pelas exportações de minério de ferro, carne bovina, soja, café, produtos químicos e tubulações para a construção civil e para indústrias.

Em 2018, a Arábia Saudita foi o segundo maior comprador de produtos brasileiros entre os países árabes — o primeiro lugar coube ao Egito. “Para nós, é importante estreitar os laços com os sauditas e outros povos da região”, diz Hannun. Durante a visita do presidente Jair Bolsonaro à Arábia Saudita, no final de outubro, o reino anunciou um investimento de 10 bilhões de dólares no Brasil. No início do ano que vem, uma comitiva do governo saudita deverá vir ao país para analisar as áreas mais promissoras para o aporte de recursos. O setor de infraestrutura deverá ser uma das prioridades.