Amazônia tem tudo para virar um polo mundial de biotecnologia

A Amazônia abriga 15% da biodiversidade do planeta, mas seus recursos são subaproveitados

barco da foto acima não é um barco qualquer. Dentro dele há um laboratório equipado para amplificar e analisar cadeias de DNA e RNA. As instalações possibilitam que 250 ensaios desse tipo sejam realizados por mês. Trata-se de uma embarcação única no mundo para o desenvolvimento de pesquisas científicas rio adentro. Iniciativa do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, a embarcação desde junho está percorrendo áreas isoladas da Amazônia para fazer o estudo de elementos da região, desde a própria água, passando por peixes e frutos, até a identificação de espécies da fauna e da flora ainda não classificadas pela ciência. O objetivo, além de criar uma base de informações inéditas, é fornecer apoio técnico para que ribeirinhos possam ter seus produtos certificados.

Hoje, a ausência de garantias de qualidade e de segurança sanitária mina a competitividade de produtores locais em mercados maiores. “A ideia é associar ciência de ponta ao conhecimento tradicional para impulsionar negócios”, diz Carlos Augusto Azevedo, presidente do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia, órgão que atestou o laboratório embarcado. Será possível, por exemplo, precisar o nível de selênio das variedades de castanha — o mineral é conhecido por auxiliar no combate ao envelhecimento celular. Resultado de um investimento federal de 3 milhões de reais, o laboratório fluvial se sustentará com parcerias: tanto entidades de pesquisa quanto empresas poderão utilizá-lo para enviar pesquisadores aos rincões da Amazônia, caso paguem por isso. Pelo menos a princípio, o modelo se prova bem-sucedido. Bancado neste ano pelo governo, já será custeado por usuários em 2019.

O lançamento do barco de pesquisa é uma importante resposta a uma antiga carência da região: o desenvolvimento econômico a partir da biodiversidade, e não apenas via agronegócio, mineração ou indústria de eletroeletrônicos, como se viu nas últimas décadas. Mas ainda se trata de uma gota no oceano. Estima-se que, no máximo, 5% da imensa variedade natural da Amazônia esteja mapeada — e isso não significa dizer que o potencial de aplicação industrial dos ativos mapeados tenha sido descoberto. “É só por meio de informação que será possível aplicar a ciência de dados à pesquisa já feita, e assim atrair investimentos”, afirma o pesquisador Manuel Cardoso, da consultoria Map Technology, um dos debatedores do EXAME Fórum Amazônia, que reuniu autoridades, empresários, consultores e acadêmicos (veja quadro abaixo) e contou com a participação de cerca de 300 pessoas, em Manaus, no dia 26 de junho, para discutir as oportunidades de negócios e o futuro da região.

A manutenção da floresta não é apenas premissa para a inovação a partir da biodiversidade, mas também é condição vital para uma série de atividades econômicas — na região e em todo o país. É na Amazônia que se forma boa parte das nuvens que garantem o regime de chuvas do Centro-Oeste e do Sudeste — são os “rios voadores”. Mais do que pulmão do mundo, como é chamada por muitos, a região atua como uma espécie de ar-condicionado do país, regulando as temperaturas da porção centro-sul do Brasil. “A nova economia do Amazonas terá de ser baseada na floresta em pé”, afirma Mariano Cenamo, cofundador e pesquisador sênior do Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (Idesam) e um dos palestrantes do EXAME Fórum.

Para isso, o estado parte de uma condição privilegiada. Além de ser o maior da região, tem a maior porção de floresta preservada entre os nove que compõem a Amazônia Legal. A despeito da motossera que avança no sul, na fronteira com Rondônia, mais de 90% da área original de floresta está mantida. A criação da Zona Franca de Manaus nos anos 60 ajuda, segundo os amazonenses, a explicar o fenômeno, já que direcionou empregos para a indústria que ali se instalou com incentivos fiscais. “Ainda que o modelo esteja em crise hoje, foi ele que freou o avanço predatório da população mata adentro em busca de sustento”, afirma Arthur Virgílio Neto, prefeito de Manaus.

Agora, falta dar fôlego à ciência que  pode transformar o perfil da indústria local e direcioná-la à bioeconomia e à tecnologia. Há diversas instituições de pesquisa dedicadas à Amazônia. Estão lá centros importantes, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Es-tado do Amazonas e nove unidades da Embrapa, além de laboratórios privados, como o da fabricante de cosméticos Natura, e de laboratórios internos das universidades públicas da região, entre elas a Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Falta, no entanto, interface sistemática entre a pesquisa produzida na academia e as estratégias de inovação em produtos e processos que se dão nas empresas que podem — ou poderiam — beneficiar a matéria-prima amazônica.

Uma tentativa de estabelecer uma ponte mais concreta entre os dois lados foi lançada em 1999 com a criação do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), uma iniciativa federal. O objetivo era dar aplicação comercial à ciência desenvolvida com base na flora amazônica e inserir populações tradicionais, conhecedoras dos insumos, em cadeias econômicas estruturadas em torno de recursos naturais renováveis. Em quase dez anos de funcionamento do CBA em Manaus, porém, os resultados estão aquém do esperado. Isso porque o centro não tem CNPJ: vinculada à Superintendência da Zona Franca de Manaus e sem figura jurídica, a instituição funciona por meio de um sistema de contratação de pesquisadores bolsistas que não podem patentear produtos, por exemplo. O pleito de autonomia administrativa é antigo e só neste ano encontrou eco no governo. Agora, o Ministério da Indústria quer resolver essa pendência para, enfim, gerar resultados em escala. “Temos de sair da pesquisa básica em prol de publicações para gerar negócio, porque é disso que a população precisa”, afirma José Luiz Zanirato, há um ano na coordenação-geral do CBA.

Biopirataria

Parceria: comunidades da Amazônia abastecem a Beraca,
produtora de ingredientes extraídos da biodiversidade
(Divulgação/Beraca)

A iniciativa privada também pode transformar em negócio os estudos sobre a floresta. Foi o que se viu com o açaí, que passou de comida típica de ribeirinhos a pauta de exportação. Ainda assim, a tarefa não é fácil. “Para um empresário que deseja lançar algum produto à base de tucumã [outro fruto amazônico], hoje não há informação estruturada sobre safras, produtividade e regime de chuvas para a produção”, diz Olinda Canhoto, pesquisadora do CBA e uma das debatedoras do EXAME Fórum.

Nesse sentido, a jornada da fabricante de cosméticos Natura é emblemática na região. Há quase 30 anos, a empresa incorporou cooperativas extrativistas à sua cadeia de fornecedores e, nesse período, criou uma linha baseada em vegetais locais, como andiroba, castanha e açaí. O relacionamento local estreito ajudou a empresa a chegar a ingredientes inéditos na indústria de cosméticos. Um deles é a ucuuba, árvore comumente cortada para a venda de madeira que guarda manteigas de características hidratantes nas sementes. Mais recentemente, outra frente foi criada com o patauá, fruto de uma palmeira e cujo óleo tem propriedades de fortificação dos cabelos. Hoje, 20% dos ingredientes usados pela empresa são da Amazônia, colhidos por quase 3.000 famílias espalhadas por 28 municípios da região.

Ainda que o potencial econômico da biodiversidade seja consenso entre governos, pesquisadores e empresas, são poucos os investimentos para tornar as apostas uma realidade. E não por menos. Diferentemente de commodities como a soja, monocultura já amplamente adaptada a solos e climas do Brasil, a diversidade dos produtos amazônicos se caracteriza por fatores como a competição entre plantas numa mesma área — considerar isso é crucial para qualquer operação baseada no bioma. O limite ecológico de exploração de determinadas espécies também precisa ser levado em conta. “Para usar comercialmente um recurso florestal selvagem é preciso conhecimento máximo sobre o limite de uma produção sustentável”, afirma Iguatemi Costa, gerente-geral de pesquisa científica da Natura. Também por isso a Natura vem se associando a universidades em seu processo de inovação aberta. O campo é gigantesco: o uso industrial de matéria-prima da região na produção de cosméticos ainda se limita a 20 espécies vegetais.

Tão gigantesco que atrai muitas empresas estrangeiras. Não são poucos os casos de princípios ativos amazônicos registrados como propriedade intelectual primeiro lá fora. Num extremo está a biopirataria, isto é, a apropriação de recursos genéticos e de conhecimentos de comunidades tradicionais com o objetivo de controle ou monopólio da aplicação comercial de ativos biológicos — sem que haja repartição dos benefícios gerados. Isso não significa que pesquisadores estrangeiros não devam ter acesso a nosso patrimônio — o ideal é que estejam associados a instituições brasileiras. De acordo com os especialistas entrevistados por EXAME, o cenário tende a mudar com a consolidação da Lei da Biodiversidade, decretada há dois anos. Por ela, o cadastro de intenções de qualquer pesquisa já deve  identificar os ativos a ser estudados, o propósito da análise e o conhecimento tradicional envolvido.

Mas não é só a exploração fora da lei que prejudica o país. Investimento, capital humano e velocidade são o nome do jogo no desenvolvimento de biotecnologia. Uma polêmica recente em torno do jambu — planta comum em países tropicais, amarga e com propriedades anestésicas — ilustra bem essa corrida. Um grupo de pesquisadores da Ufam só se deu conta de que já havia uma série de patentes envolvendo o jambu nos Estados Unidos no decurso de uma pesquisa. Isso não impede a continuação do trabalho dos cientistas brasileiros, mas há o desestímulo. “Falta visão do governo para incentivar a pesquisa no país e transformar os achados da biodiversidade em produtos de prateleira”, afirma Waltair Machado, reitor da Ufam. “E quem tem mais recursos faz na nossa frente, é simples.”

Para dar clareza ao processo de acesso ao patrimônio natural, a  Beraca, uma das principais fornecedoras brasileiras de ingredientes oriundos da biodiversidade para cosméticos, produtos de higiene e fármacos, criou um serviço de informação sobre os insumos para seus clientes. O objetivo é facilitar a adequação ao marco legal e garantir que a distribuição de benefícios a comunidades associadas às matérias-primas seja justa. “Usamos o conhecimento adquirido ao longo do tempo na proximidade com as cadeias extrativistas para garantir a conformidade”, diz Daniel Sabará, presidente da Beraca.

Diante de um universo de possibilidades de geração de riqueza — e de bons, mas poucos, exemplos de cadeias bem-sucedidas no aproveitamento da biodiversidade —, boa parte das discussões toca o incentivo público. Nos anos 60, foi essa premissa que levou à criação da Zona Franca de Manaus, um polo industrial no coração da floresta, alternativa ao binômio madeira-boi, até hoje relevante na economia da região. Hoje, o centro industrial mantém mais de 350.000 empregos, entre diretos e indiretos, algo muito relevante numa cidade de 1,8 milhão de habitantes e num estado de 4 milhões. “Foi só após a criação da Zona Franca que o estado do Amazonas passou a ter recursos para crescer”, diz o deputado esta-dual (PSB) Serafim Corrêa, ex-prefeito de Manaus que também participou do fórum.

Segundo o pesquisador Carlos Nobre, uma referência mundial em Amazônia, para além dos gargalos práticos, que vão do capital escasso à dificuldade logística, falta ao país a percepção de que pode se tornar uma potência na bioeconomia. “O Brasil é uma potência agrícola porque se imaginou nessa posição, mas ainda não se imaginou como potência ambiental”, diz Nobre, que há anos vem estudando a construção de modelos econômicos calcados em biotecnologia para a região amazônica. “Qualquer ideia inovadora precisa de incentivos para vencer as primeiras barreiras e mostrar viabilidade até caminhar com as próprias pernas.”

Ainda assim, a trilha por novos caminhos esbarra em problemas tão antigos quando elementares. Das dez cidades com o pior índice de tratamento de esgoto do Brasil, seis estão na região Norte do país. Não bastasse o impacto socioambiental local, que, por si só, torna o investimento em saneamento básico urgente,  o cenário se dá numa das mais importantes bacias hidrográficas do mundo, com mais de 6 milhões de quilômetros quadrados, e que engloba as fronteiras de oito países. “Enquanto o desmatamento da Amazônia é responsável por cerca de 6% das emissões mundiais de carbono, a bacia amazônica fornece 18% da água doce que chega ao oceano no planeta”, afirma Naziano Filizola Junior, professor da Ufam e um dos debatedores do EXAME Fórum. Como diz Ricardo Guimarães, presidente da consultoria Thymus Branding, “a Amazônia precisa de uma coalização de interessados, tanto da gestão pública quanto da iniciativa privada”, para aproveitar seu potencial. Já passa da hora de isso acontecer. 


Debate: negócios verdes

No EXAME Fórum Amazônia, em Manaus, gestores, acadêmicos e executivos trataram da exploração sem devastar a natureza | Fotos: Fábio Nutti

Gustavo Igrejas, da Zona Francade Manaus (à esq.); Wilson Périco, do Centro da Indústria do Amazonas; e Serafim Corrêa, deputado estadual: Zona Franca 4.0
Gustavo Leal, do Senai: indústria 4.0 e produtividade
José Luis Gordon, da Embrapii (à esq.); Jaime Benchimol,
do grupo Fogás; e Rodrigo Godoy, do Instituto Aquila:
revolução digital no Amazonas
Olinda Canhoto, do Centro de Biotecnologia da Amazônia; Mariano Cenamo, do Idesam; e Manuel Cardoso, da consultoria Map Technology: ciência e novos negócios com a biodiversidade
Daniel Pereira, governador de Rondônia: oportunidades
para o agronegócio na região
José Luis Gordon, da Embrapii (à esq.); Jaime Benchimol,
do grupo Fogás; e Rodrigo Godoy, do Instituto Aquila:
revolução digital no Amazonas
Francimar Rodrigues Maciel, do Banco da Amazônia; e
Olivier Girard, da Macrologística: mais infraestrutura para a região

A meta é ser uma capital verde e global

Para Arthur Virgílio Neto, prefeito de Manaus, ciência e turismo são as chaves para o desenvolvimento regional — mas é preciso integração entre os estados da Amazônia

Arthur Virgílio Neto: “O Brasil precisa entender que investir
na Amazônia é investir em seu futuro” | Fábio Nutti

Manaus está entre as poucas cidades brasileiras  que têm planos estratégicos de longo prazo. No ano passado, a prefeitura estabeleceu um conjunto de metas para 2030, tendo em vista temas-chave, como saúde, infraestrutura, educação, proteção ambiental e fomento a novos negócios. O objetivo é planejar o provisionamento orçamentário para cada uma dessas áreas nos próximos 12 anos — e tornar Manaus uma liderança regional da Amazônia. Entre as metas está melhorar o índice de -desenvolvimento humano da cidade, que mede, entre outras coisas, renda e qualidade de vida; e alçar o ensino municipal às melhores notas do Ideb, sistema que mede o nível de aprendizado dos estudantes no país. “É preciso pensar numa Manaus e numa Amazônia do futuro, não com a cabeça nas próximas eleições”, afirma Virgílio.

A Amazônia é um ativo subaproveitado pelo Brasil?

Os brasileiros ainda são profundamente ignorantes em relação à Amazônia. E essa ignorância também está entre parlamentares e governadores. Lá fora, ao contrário, eles querem saber mais e mais sobre a Amazônia — e não faltam satélites estrangeiros para isso. Fato é que, sem a Amazônia, o Brasil é um Chile mais extenso e não existe futuro brilhante para o país sem a região.

Em que o Amazonas, maior estado da região, pode fazer a diferença?

Além do Rio de Janeiro e de São Paulo, Manaus é a única capital brasileira com vocação para ser uma cidade mundial — e uma capital verde do mundo. Ainda precisamos resolver uma série de problemas e cumprir muitos objetivos básicos, mas já avançamos. O distrito industrial de Manaus ajudou a manter de pé a principal parte da floresta. O estado é o menos devastado da região — só perdeu cerca de 2,5% da cobertura vegetal — graças a esse modelo que, apesar de estar em crise, tem evitado que as pessoas avancem sobre a mata.

Que frentes de atuação podem projetar o desenvolvimento da Amazônia?

Ciência e turismo são os alicerces para a construção de prosperidade na região. Já perguntei aos senadores, em plenário, se algum deles poderia mencionar alguma universidade de seus respectivos estados que financiasse bolsas de pesquisa sobre a Amazônia — e houve um silêncio constrangedor. É fundamental prestigiar os centros de excelência em tecnologia Brasil afora que possam encontrar respostas para os desafios amazônicos. Só no universo dos fármacos e dos cosméticos oriundos da biodiversidade, as hipóteses são vastas. Mas continuamos a assistir ao Ministério da Ciência e Tecnologia ser a pasta que “sobra” na distribuição de cargos. Enquanto essa mentalidade pequena e perniciosa persistir, teremos dificuldades em construir um projeto efetivo.

Falta integração regional para que o tema entre de vez na agenda do país?

Falta coordenação interna para construir um projeto econômico para a Amazônia. Isso significa definir a vocação de cada estado e de cada município. Precisamos que os estados mais ricos do país entendam que, ao estabelecer parcerias aqui, estão investindo também no próprio crescimento. No Congresso também é difícil que haja união entre os parlamentares da bancada amazônica. Nem sequer conseguem chegar a três propostas comuns a todos os estados. O Parlamento é uma soma de diversos pleitos, mas precisamos acordar para o tempo que estamos perdendo, mesmo donos de um dos maiores ativos econômicos e ambientais do mundo. É inaceitável que, com tantos recursos naturais, a população amazônica seja pobre.