Já existe vida profissional fora dos grandes centros

Com o crescimento de empresas por todo o país, quem fez carreira em São Paulo e no Rio de Janeiro começa a encontrar boas oportunidades fora dos grandes centros

São Paulo – Sair da cama às 7 horas da manhã e ir ao quarto dos dois filhos despertar um por um antes de levá-los para a escola era uma rotina que Erivelton Lima sempre quis ter, mas não podia. Trabalhando em São Paulo, ele saía de casa antes de os meninos acordarem e, quando retornava, eles já estavam dormindo.

Esse foi o padrão até 2011, quando Lima recebeu um convite para trocar São Paulo por Anápolis, cidade a 50 quilômetros de Goiânia. Agora, leva os filhos para a escola de carro em menos de 5 minutos. Ao trabalho, vai a pé em 10 minutos. Na segunda, na quarta e na sexta-feira ainda consegue ir ao parque, a 5 minutos de sua casa, para correr 10 quilômetros. O hábito o fez perder 14 quilos e baixar o colesterol.

Relatos como o da família Lima têm crescido em várias partes do país devido a transferências de profissionais de São Paulo e do Rio de Janeiro para o interior ou outras capitais de menor porte. Segundo um levantamento da consultoria de recrutamento Michael Page, com sede em São Paulo, a Região Nordeste, uma das mais dinâmicas do país, dominou com folga as contratações de gerentes, diretores e vice-presidentes feitas no último semestre.

Em Pernambuco, na Bahia e no Ceará, o aumento em relação ao ano passado foi de 50%, 35% e 25%, respectivamente. Feira de Santana, a 120 quilômetros de Salvador, ganhou destaque na captação de profissionais nas áreas do varejo e na industrial. “Identificamos também que o estado de Goiás é um dos que apresentam um dos maiores crescimentos”, afirma Paulo Pontes, presidente da Michael Page.

Em certa medida, o interior está deixando de ser interior. Um bom termômetro dessa mudança é a proliferação de shopping centers. Até o fim do ano que vem, 79 deles deverão ser inaugurados no país, dos quais quase a metade em cidades fora dos grandes centros.

A vida longe de engarrafamentos quilométricos, sem longas distâncias para chegar à escola dos filhos e ao trabalho, com custo de vida mais baixo e imóveis maiores sempre existiu fora de megalópoles como São Paulo, com seus mais de 19 milhões de habitantes, e Rio de Janeiro, com população acima de 11 milhões.

O que faltava para gerentes e membros da alta diretoria decidirem pela transferência era o salário — e foi justamente isso o que mudou nos últimos anos. Hoje, paga-se até 25% mais para tirar uma pessoa de São Paulo e do Rio de Janeiro. De acordo com a pesquisa anual de cargos e salários da consultoria Hay Group, empresas da Região Sul pagam 5% mais para membros do primeiro escalão — presidentes, vice-presidentes e diretores — do que suas similares do Sudeste.


Parte da explicação para o aumento da remuneração é a expansão país afora dos fundos de private equity — aqueles que captam dinheiro de grandes investidores, adquirem ou compram parte de companhias tidas como promissoras para, anos depois, revendê-las por um preço maior.

Em 2005, apenas 10% do total investido por esses fundos ia para fora do eixo Rio-São Paulo. Hoje os private equities, em maior número e mais capitalizados, investem cerca de 30% em outros estados. Como, em geral, eles têm pressa para melhorar a gestão, buscam profissionais nos grandes centros e pagam bem por isso. 

Esse foi o caso da fabricante de material para festas Regina, com sede em Bataguassu, no interior de Mato Grosso do Sul. Em 2009, a empresa familiar recebeu um aporte do fundo BRZ, braço da gestora de private equity GP Investimentos. Desde então, a família deixou o comando da empresa para dar lugar a quatro executivos de mercado.

“No começo foi difícil atrair profissionais de fora da cidade”, diz Luiz Henrique Almeida, presidente da companhia. “Mas, à medida que foram apresentados benefícios, como remuneração variável e participação acionária, ficou mais fácil.” Em quatro anos, o quadro de funcionários saltou de 600 para 800 pessoas e o faturamento dobrou, chegando a 170 milhões de reais.

Trocar uma grande capital pelo interior pode significar melhor qualidade de vida, mas não menos trabalho. Quando assumiu o cargo de diretor de operações da Regina Festas vindo de São Paulo, Alex Soligo encontrou uma equipe desalinhada. Apesar de a empresa ter sistemas de controle de produção de última geração, ainda existia uma resistência em usá-los, e grande parte do trabalho era manual. “Foi preciso revisar todos os processos e compor um novo time. Dos cinco gerentes, quatro foram demitidos”, diz Soligo. 

Se a urgência por mudanças e o volume de trabalho são maiores nas empresas dos fundos de private equity, pelo menos o processo decisório é mais rápido, segundo dizem vários executivos. Isso se deve à necessidade de entregar resultados num prazo curto e também porque, em geral, são companhias menores.

“Se tenho algum problema, posso ligar sem receio para o celular do presidente”, diz Lima, gerente da fabricante de papel higiênico Carta Fabril, de Anápolis. “Recentemente, resolvemos fazer a troca de uma matéria-prima. Da aprovação à implementação do projeto, levou cerca de três meses. Numa empresa grande levaria um ano.”

Mesmo com estruturas organizacionais mais ágeis e salários competitivos, as oportunidades fora de São Paulo e Rio de Janeiro nem sempre são bem recebidas por todos os membros da família. Conciliar a vida profissional da mulher com a do marido é um desafio — até mesmo quando a transferência é para uma capital como Salvador.


O paulista Wilson Pedreira trocou o laboratório Fleury, em São Paulo, onde era diretor executivo, pela vice-presidência do Grupo Delfin, também do segmento de análises clínicas, em Salvador, alvo de investimento do fundo Kinea, do banco Itaú Unibanco.

Além do desafio de fazer o Delfin se expandir para além da Bahia e do Rio Grande do Norte, onde está hoje, pesou na decisão o aumento salarial de 40%. Mas Pedreira teve de ir sozinho. A mulher, médica, preferiu seguir em São Paulo, onde tem um consultório e uma extensa rede de contatos profissionais.

Já os dois filhos adolescentes, na reta final para o vestibular, analisaram que uma possível troca de cidade poderia prejudicar os planos acadêmicos. Pedreira fica em Salvador de segunda a sexta-feira e, no fim de semana, viaja para a capital paulista. Às vezes, a lógica se inverte e é ele quem recebe a família.

Aos 51 anos, Pedreira achou que era uma boa hora para trocar de ares e encarar um novo objetivo profissional. “A decisão não foi fácil, e a vida virou uma correria”, diz. Com o crescimento do número de oportunidades fora de São Paulo e do Rio de Janeiro, o dilema pelo qual os Pedreira passaram deverá se repetir com mais e mais famílias brasileiras daqui para a frente.