Tombini terá de ser falcão

Alexandre Tombini, presidente do BC, tem pela frente uma missão decisiva para definir o que será o governo Dilma — evitar que a alta dos preços reacenda a inflação

Alexandre Tombini, o presidente do Banco Central, ganhou de alguns de seus pares um apelido que ameaça tornar-se um problema. Foi a partir de 2005, já como membro do Comitê de Política Monetária do BC, que ele passou a ser maldosamente chamado por desafetos de “Pombini”. No mercado financeiro, os analistas usam duas expressões importadas dos Estados Unidos para classificar os economistas. Os hawks (falcões) assumem uma postura sempre dura diante do perigo de alta da inflação, e os doves (pombos) defendem uma abordagem menos agressiva.

Nas últimas duas semanas, EXAME falou com 15 pessoas que conviveram ou ainda convivem com Tombini. Ninguém coloca em dúvida sua excelência como economista. “Tombini era um dos alunos mais brilhantes de sua classe”, afirma Werner Baer, professor de economia da Universidade de Illinois, onde o atual presidente do BC fez seu doutorado. Mas o fato é que ele se converteu em peça-chave para desatar o nó econômico herdado pela presidente Dilma Rousseff — e as fofocas em torno de seu real comprometimento no combate à inflação não ajudam em nada sua tarefa. O momento é de atenção.

De acordo com o próprio BC, a maioria dos analistas estima que o IPCA feche o ano em 5,75%, a previsão mais alta nesta época do ano desde o começo de 2005. São números ainda dentro da meta, cujo centro é 4,5%, e o topo, 6,5%. Mas as cinco instituições que mais acertam as previsões estão mais pessimistas e apontam uma alta de 6,44% neste ano — no limite da banda de flutuação. Sinais de que a inflação está em franca expansão não faltam. O IPCA de janeiro chegou a 0,83%, o maior salto mensal desde abril de 2005, e acumulou alta de 6% nos últimos 12 meses. Já se espera que, durante vários meses deste ano, a inflação rompa o limite máximo definido pelo BC. A mensagem dos analistas é clara: “Não, Banco Central, não acreditamos na sua meta para a inflação”. Vale lembrar que a meta serve de referência para a sociedade imaginar como será o futuro e se preparar para ele. Ou seja, ela só faz sentido enquanto existe a crença de que é para valer.

Ninguém de bom senso prevê a volta da inflação de antigamente. Felizmente, aquela maluquice de reajustes diários ficou para trás. Mas isso não significa que o cenário atual seja isento de riscos. Quem melhor resume o perigo é o próprio criador do sistema de metas brasileiro. “Se a inflação se acomodar em 6% por algum tempo, estaremos perto do limite em que todos correm para indexar os preços”,  diz Ar­mí­nio Fraga, ex-presidente do BC e fundador da Gávea Investimentos, em referência à situação em que os índices passados são incorporados a contratos e reajustes, alimentando a inflação futura.

“Nesse caso, um novo choque externo pode detonar a reindexação.” Em outras palavras, num país com o histórico inflacionário do Brasil, é perigoso um cenário em que a meta definida pela diretoria do BC deixa de servir de balizador das expectativas. “Estamos correndo o risco de repetir o exemplo do México, onde o BC fixa uma meta, mas o mercado não acredita e acaba trabalhando com um número maior”, afirma Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander e ex-diretor do BC.


Uma das facetas mais temerárias do último surto é a inflação de serviços, considerada mais resistente por causa da impossibilidade de importar mão de obra para forçar a queda dos preços. “Quando a inflação de serviços se transforma em inercial, fica mais difícil reduzi-la. É como o sujeito que chega aos 100 quilos e depois quer voltar a pesar 70”, diz Beny Parnes, diretor do banco BBM e também ele um ex-diretor do BC.

Onde estão as armas?

No final do ano passado, o BC mostrou estar preocupado com o quadro inflacionário e aumentou a alíquota do recolhimento compulsório dos bancos sobre os depósitos à vista e a prazo. Ainda como parte das medidas batizadas de “prudenciais”, elevou a exigência de capital para crédito de pessoas físicas. Tudo em nome da redução do crédito para esfriar o ritmo da economia. O BC tem ressaltado que o impacto dessas medidas está sendo subestimado. Quanto mais bate nessa tecla, mais os analistas de mercado respondem que será inevitável usar a arma mais conhecida e potente: a elevação continuada da taxa de juro, a exemplo da alta registrada em janeiro, de 10,75% para 11,25%. A atual formação da cúpula do BC também não ajuda a acabar com as desconfianças. Desde a criação do regime de metas, em 1999, a diretoria se notabilizou por contar com funcionários públicos e profissionais de mercado, uma tradição quebrada agora. De seus sete membros, seis são funcionários públicos. “Estão faltando uns dois diretores ‘falcões’ para fazer o contraponto”, diz o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, sócio da gestora Quest.

Mas talvez o maior problema, aos olhos do mercado, resida fora do BC. O discurso oficial de crescimento de 5% neste ano parece confundir os analistas. Economistas de diferentes linhas debatem sobre qual seria o ritmo de crescimento máximo do país sem gerar distorções inflacionárias, o chamado PIB potencial. A maioria concorda que o limite está entre 4% e 4,5% ao ano. São números muito menores do que os estimados 7,6% de crescimento obtidos no ano passado. À luz do que diz o governo, fica a questão: a presidente Dilma Rousseff dará ao BC a mesma liberdade para frear a economia que Lula deu ao antecessor de Tombini, Henrique Meirelles?

A origem do problema

A inflação registrada no Brasil hoje é, para usar um jargão dos economistas, de demanda. Desde 2004, a taxa de desemprego vem numa linha descendente, enquanto a renda não para de subir. Setores como o de construção e petróleo e gás, entre muitos outros, estão numa situação de pleno emprego. Com mais dinheiro no bolso e confiança no futuro, os brasileiros ficaram lenientes com os aumentos de preços. O governo, por sua vez, também contribuiu — e contribuiu muito — para aumentar a demanda. Diante da crise mundial, o gasto federal passou de 16,4% do PIB no final de 2008 para 19% em dezembro. A herança pesada de Lula na economia é um dado inconveniente para Dilma, que, afinal, foi eleita no embalo da popularidade do ex-presidente e do clima de otimismo regado a muito gasto público. Daí o contorcionismo das autoridades diante da óbvia necessidade de um aperto, exemplificado pelo neologismo criado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao trocar o termo “ajuste” por “consolidação fiscal”.


Uma característica marcante de períodos de aceleração inflacionária é a reversão no que se entende por boa notícia. Alta nos salários e queda do desemprego normalmente são motivos de comemoração. Hoje, são dados que preo­cupam. É também o que se vê nos mercados internacionais. Provocada pe­la aparentemente insaciável fome asiá­tica por matérias-primas, uma nova on­da de aumento nos preços das commodi­ties se formou — as não energéticas subiram quase 30% ao longo de 2010. Isso fez subir os índices de preços ao consumidor em várias partes do mundo. Num país exportador de commodities como o Brasil, saltos como esse sempre foram bem-vindos. Mais dólares entram na eco­nomia, as contas externas melhoram e o país pode manter o crescimento.

Desta vez, porém, o roteiro tem nuances. Preocupado com um possível processo de desindustrialização, o BC vem tentando evitar a valorização do real com operações no mercado de câmbio para proteger segmentos do setor produtivo. A cotação do real em relação ao dólar em meados de fevereiro — 1,66 — era a mesma do início de outubro, mostrando que a valorização foi freada. É uma medida que tem merecido aplauso, mas que complica o quadro inflacionário. Quanto menos acentuada a valoriza­ção do real, maior o impacto da alta dos preços em dólar sobre a inflação doméstica. “Um dos efeitos colaterais disso é que a alta das commodities lá fora está alimentando os preços aqui dentro. Estamos importando inflação”, diz André Loes, economista-chefe do banco HSBC.

Depois de suceder o político mais popular da história, cabe a Dilma o desagradável papel de retirar o champanhe no auge da festa. Para arrefecer a alta nos salários, o desemprego terá de aumentar. Para segurar a atividade, os juros terão de subir — medida que atrai capital de fora e tende a fortalecer ainda mais o real. Também será preciso cortar os gastos do governo com mão pesada, provavelmente atingindo áreas fundamentais, como os investimentos em infraestrutura. Por mais que o ministro Mantega prometa um ajuste sem dor, as medidas só serão bem-sucedidas se forem doloridas. Não é fácil cortar o crescimento do PIB quase à metade em tão pouco tempo.

Mas o que está em jogo é importante demais. Foi sobre o alicerce da estabilidade dos preços que a economia conquistou todos os avanços registrados nos últimos 17 anos — da ascensão da classe C à sofisticação do tecido produtivo. A prioridade, agora, é evitar o risco inflacionário, mesmo que isso signifique mais sofrimento no curto prazo. Como lembra Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú, “mais inflação equivale a menos renda, menos consumo e, em última instância, menos votos”.