Milagre em BH: plano de longo prazo aplicado pelo governo

O governo mineiro criou um plano de longo prazo para desenvolver a Grande Belo Horizonte e está executando — prática incomum no nosso setor público

São Paulo – Planejamento é uma palavra que faz parte da história de Belo Horizonte. Fundada no final do século 19, a capital mineira foi uma das primeiras cidades planejadas do Brasil. Com o passar dos anos, cresceu desordenadamente e virou uma metrópole de 5 milhões de habitantes — incluindo os 33 municípios à sua volta. Para dar um novo rumo ao crescimento da área, em 2003, o governo de Minas Gerais decidiu resgatar o planejamento.

O ponto de partida foi peculiar: a necessidade de tornar viável o aeroporto Tancredo Neves, mais conhecido como aeroporto de Confins por estar no município com esse nome. Confins seria a alternativa para descongestionar o aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte. Mas fora instalado, em 1984, num local distante e sem infraestrutura, na parte norte da região metropolitana. Fazer de Confins o principal ponto de pousos e decolagens do estado exigiria uma estratégia mais complexa do que a mera mudança na rota dos aviões.

O governo mineiro decidiu, então, buscar ajuda. Após fazer uma pesquisa, contratou a consultoria do americano John Kasarda, professor de logística da Universidade da Carolina do Norte. Kasarda defende que os aeroportos — como aconteceu no passado com portos, ferrovias e rodovias — sejam núcleos irradiadores de crescimento.

“No mundo globalizado, os aeroportos interligam centros de negócios e transportam as cargas de maior valor”, diz ele. “Com planejamento, dão origem a prósperas ‘aerotrópoles’ ” (termo cunhado por ele para definir áreas­ que crescem ao redor de aeroportos). Como exemplo, cita Memphis, no estado americano do Tennessee, e a coreana Nova Songdo, que surgiu do zero há 12 anos e hoje acumula investimentos de 35 bilhões de dólares.

A tese do americano serviu de base para o plano de criar em volta de Confins um polo de empresas de ponta e, por tabela, diversificar a economia mineira, eterna dependente da exploração de matérias-primas. “Junto ao aeroporto, queremos empresas de setores que vão crescer nos próximos 20 anos, como componentes eletrônicos, equipamento médico e aeroespacial”, diz Luiz Antônio Athayde, subsecretário de Investimentos Estratégicos de Minas Gerais.

O governo do estado quer elevar a participação metropolitana no PIB mineiro dos atuais 35% para 50% em 2030. E espera que o avanço seja puxado pelos 11 municípios da região norte, também chamada de Vetor Norte (mais Betim e Contagem, que estão a oeste).


No Brasil, os governos até planejam, mas têm enorme dificuldade de concretizar os projetos. Por isso, o natural é duvidar da proposta mineira. Mas quem acompanha o trabalho diz que há, nesse caso, boas chances de que o plano seja concretizado. “É cedo para dizer se em dez anos o projeto será um sucesso, mas o governo está trabalhando para executá-lo”, diz Pablo Fajnzylber, economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe.

Pelo movimento das empresas, pode-se dizer que o planejado está saindo do papel. Para o período de 2007 a 2015, a região tem 4 bilhões de reais em investimentos privados já feitos ou anunciados. Em 2010, o laboratório de análise médica Hermes Pardini mudou a sede da capital para a vizinha Vespasiano. A empresa coleta exames em 6.000 pontos do Brasil, e a proximidade com o aeroporto cortou o tempo de viagem do material em 1 hora e meia.

“Ganhamos produtividade”, diz Camilo de Lelis, diretor financeiro do Hermes Pardini. Em Ribeirão das Neves, está sendo construída a SIX Semicondutores, primeira fábrica de chips do país. Orçada em 1 bilhão de reais, tem entre os acionistas o empresário Eike Batista, o BNDESPar e a IBM. Lagoa Santa, por sua vez, foi a cidade escolhida para receber o Centro de Tecnologia e Capacitação Aeroespacial (do governo estadual). Lá, a Embraer vai instalar uma área de engenharia.

A chegada das empresas impulsionou o mercado imobiliário. A Alphaville Urbanismo, que há quatro anos buscava uma área próxima a Belo Horizonte, optou por Vespasiano. No lançamento do empreendimento residencial, em 2012, os 542 lotes foram negociados em 6 horas — a segunda venda mais rápida na história da empresa.

Há dois anos, o grupo português Design Resorts comprou em Jaboticatubas terras para criar um bairro de luxo com dois campos de golfe e uma hípica. “O potencial surpreendeu”, diz José Miguel Martins, presidente do Design Resorts. “Vamos dobrar o investimento para 2 bilhões de reais.” 


Na avaliação de especialistas, os investimentos privados ocorrem porque o poder público emite sinais corretos. “Nada seria possível se o governo estadual não tivesse feito a sua parte”, diz César Pili, diretor da consultoria Accenture. A ocupação do Vetor Norte conta com a ajuda do escritório de planejamento urbano Jurong, de Singapura, que definiu os setores que se beneficiariam com a proximidade do aeroporto e onde ficariam as moradias, o comércio e as indústrias.

Para melhorar o acesso à área,  investimentos públicos de 1 bilhão de reais foram destinados a  obras viárias. Em 2007, ficou pronta a duplicação da MG-010, a chamada Linha Verde, que liga a capital a Confins. Agora está a caminho a licitação de um arco rodoviário. Outro bilhão de reais bancou a construção da Cidade Administrativa, a nova sede do governo estadual, que abriga 16.000 servidores ao lado da Linha Verde.

Apesar das críticas ao valor da obra e ao local escolhido, a mudança é considerada essencial. “Ao levar o funcionalismo para lá, o governo deu sinal à iniciativa privada de que desenvolver o norte é prioridade”, diz Gustavo Gusmão, sócio da consultoria Ernst&Young Terco.

O caso mineiro se soma a outros poucos exemplos em que o planejamento público, devidamente executado, abre caminho para o investimento privado.  No Rio de Janeiro, o projeto Porto Maravilha, da prefeitura, atraiu empresas e está revitalizando uma região antes degradada.

Em Pernambuco, o complexo portuário e industrial de Suape finalmente deslanchou, não como obra de um único partido, mas porque na última década sucessivos governos pensaram a longo prazo independentemente de colorações políticas. Seria bom que essa prática se multiplicasse.